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Temas diversos

UMA PITADA PSICODÉLICA

Autoria de Marcela C. Chaddad

Era só um óleo sobre tinta
Tinta óleo que se dissolvia
No pouco do tecido
Que restou
Da poesia que juntos construímos.
Queimava
A cada gota de óleo
Mais um tom se partia
Até a completa fluidez
Exalar um novo aroma
Formando um novo verso
Que tecia
Das doces palavras de giz
Para a secura do óleo
Que não comungava com a poesia.
Era tempo de anunciação
Fez-se trepidação, exploração e desafeição
O afeto da poesia se retirou
E fez sua casa
Com uma pitada psicodélica de imaginação.

Nota: a ilustração é uma obra do pintor russo Leonid Afremov

O PIANO

Autoria de Marcela Cristina Chaddad

Um Sol de piano
Vacilou canções em mim
E a meio de tantos bemóis e sustenidos
As teclas desafinaram a melodia
Consentindo as correntes de águas salgadas
que desciam dos meus olhos
Misturadas a corais vermelhos vivos
E ele já não estava mais lá
Foi de pouco dó
Partiu de ré
Sem muitas notas
E nenhum acorde
Deixou o seu Piano anulando a armadura da clave
Que ainda insistia em tocar em Sol Maior
Fica um coração em sustenido

Nota: Madame Juliette Pascal ao Piano, obra de Henri de Toulouse-Lautrec

 

 

O TAPETE

Autoria de Zak Valença

Os tempos estavam sombrios
Um mundo de dar calafrios
Confusão
Ventania
Turbilhão
No reino da tristeza, ante a luta em ebulição,
A pior das batalhas que podia me surgir:
Forçado pelas circunstâncias,
Eis que me deparo comigo mesmo!

Incessantes lutas foram travadas,
Em gritante condição de desigualdade.
Se ainda insistia com minha velha racionalidade,
O inimigo, no golpe mais baixo do seu arsenal,
Me cortava os suprimentos de esperança.
Ah, isso não podia ser luta, mas dança
Uma dança fatal…

E foram vários passos nesse suplício
Seguindo na toada um pra cá, dois pra lá…
Lá, onde fica o precipício…
Não sei se por bondade ou desleixo,
Mas uma coisa o inimigo ainda havia me deixado:
A boca, e haveria de ficar calado?

E eis que descobri o professor G
Veterano nas orquestrações nos campos de batalha
Eu jogando, ele “professor”
Sim, as batalhas haviam virado jogos.

E daí ele escalou o Sr. Oxi para fazer dupla comigo
Que, ainda assim, teve que brigar para se integrar ao time,
No início foi quase expulso.
Logo após, sem ação e sem pulso,
E o inimigo ganhou impulso.

Foi quando me foi gritado à beira do campo:
“Usa a paciência, que vai dar certo!”
Era o professor G, mas também com Lu e seus amigos.
Sem acreditar, atendi no entanto
É que não parecia ser esperto.

Só que não…
Foi!
O time recuperou o fôlego.
E, ainda trôpego, conseguiu aplacar o adversário
Até há pouco ainda me perguntava como,
Mas suas armas tinham se calado

Passa-se um ano de calmaria,
E tudo em paz parecia…

Só parecia.

E não é que o inimigo havia ressuscitado?
Ora, ressuscitado…
Só ressuscita quem morre, e quem disse que ele havia morrido?

Surfando nas circunstâncias,
ele me pegou de novo, de jeito,
Descansado, e eu, iludido

Foi quando, espantado, percebi mais um no time dele
Um tapete, sussurrando friamente ao meu ouvido:
“Quem você acha que encobria seus monstros
Enquanto você achava que os tinha vencido, idiota?”
Sim, duro, incisivo, frio e grosseiro,
esse era seu novo artilheiro

Como assim, um tapete?!
E, pior, tecido por mim mesmo,
Aquele eu, maldito, que teima em não me dar satisfações!
Aí a aflição se agiganta, diante do questionamento:
Teria sido eu vítima de uma manobra sorrateira dele
Ou engenhoso cúmplice neste vil encobrimento,
Que, de tão engenhoso, enganou até meu monitoramento?

Agora eles riem de mim,
De tão forte que foi o baque
Tão fraco fiquei assim
Que nem consigo um ataque

Como pode? Se aquela vitória era só ilusão,
Como vencerei agora,
Sem mais achar munição?

Maldito tapete! (É mais cômodo xingá-lo do que eu)
Agora desfila na minha frente como a caixa aberta de Pandora
Tremulando os ventos da confusão de outrora
Chora, Zak, chora…

Nota: Melancolia, quadro de Edvard Munch

DIGITAIS

Autoria de Pierre Santos

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Na ponta dos dedos
a vida digita
o nosso destino.
As marcas do sempre
vão compondo aos poucos
nosso desatino.

No arcano das veias
onde é acesa a chama
o sangue desenha
todas as estradas,
os dados completos
de nossa resenha.

Assim vestidos de infinitos mares
somos apenas portos de chegares
e de partires, sempre, sempre assim.
Esfolam-se costados maltratados
na beira dos abismos que independem
seja de ti, seja também de mim.

Os mares intrometem-se entre as almas,
apagando lembranças, subvertendo
as promessas do sangue resenhado
por estiletes que não têm rumo
e vão ferindo as almas como as palmas.

Na ponta dos meus dedos a memória
a história
o solavanco
do banco da charrete em caravana
que insana avança rumo do sem fim.
Se pena,
pena por ti,
pena por mim!

  Nota: ilustração da artista brasileira Ana Guitel Nigri.

UMA NOITE MÁGICA

Autoria de Marcela Cristina Chaddad

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Foi uma noite mágica.
Amadureci.
Pelo espelho não vi só o meu corpo,
Senti a minha alma, implorando pela liberdade,
chamando pela mulher que mora em mim.
Em cada toque, redescobri-me menina, filha, mulher e guerreira.
No êxtase, aguentei o comigo e os meus comigos.

Parafraseei, musiquei, chorei e sorri com a alma de uma menina
que bem pouco sabia da vida e que se recusava a abrir sua bagagem.
Com proteção e nos suores harmônicos, abri a mala,
Tremi com um universo de emoções.

Fui para o chão
E, com a alma nua, revisitei todos os vestígios da passagem que se chama vida.
Dei corda na antiga caixinha de música,
Toquei no brasão, beijei o laço de fita vermelho, senti cada umas das moedas e me toquei.

Cheguei a todas as miudezas de valores inestimáveis,
Reencontrei-me com os meus traumas, dores e medos.
Dei um salve para todos
E fiquei de prosa com as minhas alegrias, vitórias e amores.

Após o chá, deitei-me sobre o piano,
Fiz uma sinfonia de laços e abraços com Vivaldi.
Chorei com Montenegro: “metade de mim é partida, mas a outra metade é saudade”.
E me resgatei com Cartola: “deixe-me ir, preciso andar”!

Nota: a ilustração é uma pintura de Leonid Afremov.

ADORO VOCÊ!

Autoria de Edward Chaddad

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Vossa Mercê,
Vaidoso, rico, poderoso,
Déspota, prepotente, opressor,
Dono da verdade e da justiça,
Culto, brilhante e inteligente,
Reverências vos prestavam,
Pelo temor que sentiam
De vosso ódio e rancor.

Vossa Mercê,
Não tínheis ninguém ao lado,
Para segredar angústias,
Repartir tristezas e amarguras
Pois sentíeis  inseguro e desconfiado,
Podíeis ser traído, mesmo em família.

Vossa Mercê,
Não amado, infeliz.
O tempo, porém, vos transformou,
Na convivência diária com vossos servos,
Na cozinha da vossa casa,
Devagar fostes,
Tão pomposo, que éreis,
Membro honorário da Corte,
da segunda pessoa do plural.
Agora, mais próximo de todos,
Acabou na terceira do singular,
Transformado em Vosmecê.

Vosmecê,
Ó milagre da metamorfose,
Era vosmecê daqui, vosmecê dali,
Como lhe chamavam, afetuosamente,
Seus escravos, tão sofridos,
Mas amando-o ternamente,
Como se fizessem parte de sua família.

Vosmecê
Conseguiu se transformar,
Sentindo-se querido,
Percebendo que também podia amar,
E por incrível que pareça com o amor
Daqueles que tinham muitas razões,
Bastante mesmo, para lhe odiar.

Vosmecê, com o tempo,
O povo assimilou o seu novo nome,
E de tanto repetir o tratamento,
Historicamente a Língua o adotou,
Ora Vancê,  ora Vossamessê,
Nunca se esquecendo de Vosmecê.
E, agora,  a Luz lhe abençoou.

Mas o tempo passou ainda mais,
Aquela segunda pessoa esnobe
Consagrou-se em terceira,
Simplificaram seu nome,
E, de novo, Vosmecê se transformou,
Nascia Você.

Você,
Que já foi nobre,
Com tratamento pomposo
Pela Alteza Real,
Evoluiu do orgulhoso
Para o humilde,
Do distante prepotente
Para o amigo mais íntimo,
Hoje terceira pessoa,
Adotada pela Língua,
Como se segunda pessoa fosse,
Que o estrangeiro não entende,
Mas o brasileiro gosta de lhe usar,
Quando fala ao seu amigo,
Conversa com mãe e com o pai,
Chama seu filho
E se dirige ao seu amor
Com a ternura e o carinho,
Diante da transformação,
Do orgulho em humildade,
Do ódio em amor.

Com reconhecimento,
Adoro você!

Nota: pintura de Leonid Afremov