Arquivos da categoria: Saúde Mental

Fórum para debate sobre problemas de saúde mental, com textos alusivos ao tema.

SUICÍDIO – DADOS PREOCUPANTES

Autoria do Dr. Telmo Diniz

Getúlio Vargas Neto tirou a própria vida, repetindo o gesto do pai, em 1997, e do avô e presidente do Brasil à época, em 1954. Seria o suicídio um gesto ligado à genética ou tem a ver com a nossa personalidade e meio socioeconômico? Os números no Brasil estão crescendo e, particularmente, vejo o tema com preocupação. E o mais importante, o que devemos fazer frente a casos como este?

Dados divulgados pela BBC Brasil indicam que, entre 1980 e 2014, a taxa de suicídio entre jovens de 15 a 29 anos aumentou 27% no Brasil. Estes dados são preocupantes e merecem um olhar atento de todos nós. Por que os jovens brasileiros estão cometendo suicídio no auge de sua juventude? Os números são tão assustadores que apenas num único ano, cerca de 1 milhão de pessoas no mundo tiraram a sua própria vida – aproximadamente uma morte a cada 40s. O suicídio encontra-se entre as dez primeiras causas de morte, sendo que por cada suicídio ocorrem outras 11 tentativas sem sucesso.

É importante frisar que mais de metade das pessoas que se suicidaram estavam deprimidas. Estima-se ainda que o risco de suicídio ao longo da vida em pessoas com perturbações do humor (principalmente depressão) é de 6% a 15%; com alcoolismo, de 7% a 15%; e com esquizofrenia, de 4% a 10%. De igual forma, é interessante notar que o suicídio raramente é uma decisão repentina. Na maioria dos casos, o suicídio é algo planejado – a pessoa constrói um plano, estabelece uma data, define um método e pensa nessa possibilidade ao longo de algum tempo, antes de tomar uma decisão definitiva. Existem sinais claros na maioria das vezes.

Quando detectar que algo não vai bem com algum conhecido seu siga alguns passos:

  • Primeiramente, seja um bom ouvinte – simplesmente ouça, com toda a atenção, não apenas os fatos, mas a dor, os medos e as inseguranças.
  • Nunca julgue, não dê conselhos ou opiniões próprias.
  • Reconheça o seu sofrimento, valorize o que é dito e demonstre que está disponível para ajuda-la. É fundamental que essa pessoa saiba e sinta o quão importante ela é e que a sua vida tem valor para alguém.
  • Demonstre empatia, procurando compreender as coisas não do seu ponto de vista, mas do ponto de vista do outro.
  • Ouça mais e fale menos, entretanto, não hesite em questionar abertamente se a ideia de suicídio é ou não uma opção. É importante que a pessoa saiba que a sua morte causaria sofrimento nas pessoas que a rodeiam, e haveria pessoas que sentiriam a sua falta.
  • Importante também é nunca deixar uma pessoa, com risco de suicídio, sozinha.
  • Incentive-a a pedir ajuda especializada – em um hospital, a um psicólogo ou psiquiatra.
  • Pode também indicar o Centro de Valorização da Vida (www.cvv.org.br), que fica à disposição da população para ajudar durante as 24 horas do dia.

Gosto de uma frase do escritor Paulo Coelho que diz: “Não desista. Geralmente é a última chave no chaveiro que abre a porta”.

P. FÁBIO DE MELO E A SÍNDROME DO PÂNICO

Autoria do Dr. Telmo Diniz

Recentemente a Síndrome do Pânico ocupou os noticiários quando reportaram que o padre Fábio de Melo está sofrendo com o problema e que, atualmente, está em fase de tratamento. Um padre bacana como ele e aparentemente “imune” a transtornos como este levanta a questão de que nós podemos estar expostos a tais problemas e, portanto, devemos ficar atentos aos sintomas – e quando precisamos buscar ajuda.

A origem da palavra “Pânico” é proveniente do grego “panikon” e significa um susto ou pavor repentino. Na mitologia grega, o deus Pã (de pânico), possuía chifres e pés de bode e provocava, com seu aparecimento, horror nos pastores e camponeses. A Síndrome ou Transtorno do Pânico (TP) é uma entidade clínica relativamente recente, sendo que a primeira descrição dos sintomas foi feita por Freud, que a denominou, à época, de “neurose ansiosa”.

Na “crise de pânico”, o agende causador do “medo” não está presente, ou seja, ela surge de repente, sem aviso. Durante a crise, a pessoa experimenta vários sintomas, a saber: boca seca, aceleração dos batimentos cardíacos, palpitações, palidez, sudorese, falta de ar, entre vários outros desconfortos físicos. A pessoa acha que vai perder os sentidos e tem uma sensação iminente de morte. Devido aos sintomas com predominância cardiovascular, o sujeito normalmente vai parar no pronto-socorro achando se tratar de um infarto.

Várias complicações podem ocorrer caso o diagnóstico não seja precoce. Os pacientes passam a ter gastos excessivos com médicos e exames complementares, muitas vezes sem necessidade. Afastamento do trabalho, faltas e até pedidos de demissão são situações corriqueiras na vida destas pessoas. À medida que os ataques de pânico se sucedem, o paciente desenvolve hipocondria, outros tipos de fobias, ansiedade antecipatória, agorafobia (medo de espaços abertos), depressão, alcoolismo e/ou uso abusivo de drogas. Estes problemas podem estar presentes todos juntos ou de forma parcial.

O fator primordial no início do tratamento é acabar com os ataques ou reduzi-los em frequência e intensidade, através do uso de medicamentos e, desta forma, permitir outras abordagens terapêuticas, como apoio psicoterápico e atividades físicas. O tempo de tratamento poderá variar de seis meses até dois anos. Entretanto, o índice de recaída após a suspensão das drogas varia entre 20% e 50%. O paciente deve ser paulatinamente encorajado – claro que sob os efeitos das medicações – a enfrentar os lugares ou situações onde foi acometido pelo ataque e desta forma ir ganhando autoconfiança e voltar às suas atividades diárias e normais.

Martyn LIoyd-Jone – teólogo galês – disse certa vez que  “A fé se recusa a entrar em pânico”. Em contrapartida, no caso do padre Fábio de Melo, o mesmo afirmou que o pânico “quase abalou sua fé”. O transtorno do pânico não tem nada a ver com sua fé ou religião, chega sem pedir licença, acontecendo com qualquer um.

DEMÊNCIA: PROBLEMA SÉRIO E PRIORITÁRIO

Autoria do Dr. Telmo Diniz

As demências estão aumentando a passos largos no decorrer das últimas décadas. Não vejo, no Brasil, políticas públicas voltadas para o tema e um plano de enfrentamento para o problema, como ocorre nos casos de obesidade, nas epidemias virais, nas doenças cardiovasculares, etc. É como se nada estivesse acontecendo. A cada dia surgem mais casos de demência e as famílias simplesmente não sabem como lidar com o drama.

A publicação americana Alzheimer’s Disease International estima que 135 milhões de pessoas em todo o mundo estarão vivendo com demência até 2050. Essa previsão já é 17% acima das previsões anteriores e tende a aumentar, em grande parte, pelo aumento na expectativa de vida da população. Se de um lado está sendo bom viver mais, por outro, a qualidade está deixando a desejar – demência à vista. O  impacto das demências na sociedade atual e num futuro bem próximo será muito amargo e difícil para as famílias que lidam ou venham a lidar com o problema.

O Mal de Alzheimer é a causa mais comum de demência, e seus sintomas incluem perda de memória, mudança de humor, problemas com a comunicação e de raciocínio. O relatório norte-americano diz que a doença de Alzheimer e outras formas de demência representam “uma epidemia global”. Você, caro leitor, deve ter um parente ou conhecido portador desta doença. E se vivenciou um pouco, sabe dos transtornos e dificuldades que os familiares enfrentam.

Os atuais tratamentos são caros e pífios. Observa-se uma melhora com as medicações no início da doença, entretanto, nos casos moderados a graves, a situação pode ficar caótica para os cuidadores no dia a dia. É essencial que nos preparemos. Na verdade, o Brasil já está atrasado. A Organização Mundial de Saúde (OMS) já encara o problema como “sério” e o tem como prioridade. Segundo a britânica Alzheimer’s Society, a demência é a maior crise na área de saúde que o mundo enfrenta atualmente. Um alerta para governos mundo afora sobre a urgência de investir mais em cuidado e apoio.

Amanhã poderemos ter um ente querido portador de demência em casa, confuso, perdido no tempo, com falsos reconhecimentos e às vezes agressivo. Até que tratamentos efetivos venham à tona, pesquisadores do King’s College de Londres sugerem que, à medida que a população envelhece, o sistema tradicional de cuidar, feito de maneira informal pelas famílias, amigos e comunidade, precisará de um apoio muito maior. Inclusive do Estado, o que, no Brasil, é falho e feito com descaso.

Segundo a pesquisa, pouco mais que uma em cada dez pessoas acima de 60 anos precisa de cuidados de longo prazo, como ajuda diária em tarefas como tomar banho, alimentar-se, vestir-se e usar o banheiro – as chamadas atividades da vida diária (AVDs). Isso pode ser um fardo para a família, já que muitos dos parentes que cuidam do idoso precisam deixar o trabalho e outros afazeres do dia a dia. Também sugere maior profissionalização dos residenciais para idosos, o que pode ser uma opção de escolha em tempos de famílias pequenas e atarefadas.

BRASIL – DESEMPREGO E DOENÇAS

Autoria do Dr. Telmo Diniz

Pela primeira vez no Brasil, o número de desempregados chega à cifra de impressionantes 14 milhões de pessoas procurando por trabalho (sem falar nos que não foram contabilizados). Este quadro alarmante é fruto de uma política pública desastrada, corrupta e incompetente. Os brasileiros já sentem os efeitos colaterais no bolso e na saúde mental.

Um estudo publicado nos Estados Unidos analisou o impacto que a falta de perspectiva gerada pelo desemprego causa na saúde da população. O estudo teve como foco a população masculina americana, que cresceu ou estava no auge da idade produtiva, quando ocorreu a recessão global de 2007/2008. Estudiosos e economistas da Universidade de Princeton concluíram que um percentual expressivo dos desempregados apresentava dores crônicas – sem um motivo aparente – e praticavam um consumo abusivo de analgésicos.

Atualmente no Brasil, estamos com uma taxa de desemprego recorde, de acordo com a Pnad contínua. O Brasil vive a sua pior crise no mercado de trabalho. São milhões de trabalhadores sem emprego com um tempo médio de até oito meses para recolocação. Além dos efeitos evidentes nos orçamentos domésticos, o desemprego tem graves reflexos na saúde das pessoas. Os principais riscos são as doenças mentais que, sem o tratamento adequado, podem levar até mesmo ao suicídio.

O impacto do desemprego na saúde vai variar de pessoa a pessoa. O estresse físico e emocional é maior para quem tem filhos e irá enfrentar uma situação financeira mais difícil até conseguir um novo emprego. Isso pode causar sérios danos à autoestima da pessoa, que poderá ter episódios frequentes de angústia, ansiedade e chegar à depressão. Do ponto de vista físico, o desemprego pode desencadear queda de cabelos, insônia, ganho de peso, pressão alta, piora do diabetes, infarto e até câncer. Não dormir várias noites seguidas e fugir do convívio social com um isolamento característico são sinais de alerta.

Para quem está desempregado, é possível manter a saúde emocional minimamente equilibrada gastando pouco ou nada. Uma rotina simples com atividade física, exercícios de respiração regular e meditação contribuem para reduzir os efeitos nocivos da inatividade laboral. Parece fácil falar em sair para caminhar e estar sem emprego. Entretanto, se você fizer um teste verá que uma simples caminhada de meia hora irá reduzir seu estresse, melhorar sua disposição diária e lhe proporcionará forças para seguir adiante.

A terapia com um psicólogo estimula um olhar positivista, ajudando a seguir e procurar por dias melhores. Lembre-se que tudo passa, até as coisas ruins. Pense também no lado positivo do processo, que enquanto procura um emprego terá mais tempo para uma caminhada matinal, fazer seu café da manhã com mais calma junto da família e, quem sabe, ajudar o próximo. É isso mesmo! Está provado que o voluntariado retorna em dobro para quem pratica o ato. Certa vez, um ministro de Estado falou: “eu não sou ministro, estou ministro”. De igual forma, você não é um desempregado e, sim, está, momentaneamente, sem emprego

O BRASIL É UM PAÍS DE ANSIOSOS

Autoria do Dr. Telmo Diniz

Quem já não apresentou ansiedade alguma vez na vida? Acho que boa parte de nós. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil tem a maior taxa de pessoas com transtornos de ansiedade em todo o mundo, ou seja, 9,3%  de brasileiros sofrem com o problema. Já em outros países, a média é bem inferior, cerca de 3,6%. Podemos ver que o problema por aqui atinge quase 10% da população e que em vários casos chega a sufocar e a paralisar a pessoa, processo que pode durar meses e até anos.

A ansiedade pode surgir de forma sutil, como a entrega de um trabalho, um primeiro encontro, uma entrevista de emprego e através de diversos fatores que nos causam estresse diário. Entretanto, quando deixa de ser temporária e começa a impactar negativamente a vida de uma pessoa é preciso atenção médica.

Os transtornos de ansiedade cursam com um estado permanente de aflição, angústia, insegurança, estranheza do ambiente, entre outros. Contudo, essa doença tão prevalecente continua a ser tratada de forma negligente pela sociedade. Conheço pessoas em que os níveis de ansiedade são tão altos que me pedem para dormir mais tempo, “pois o início do dia é um terror”; pedem-me para “tirar um aperto no peito que não passa”; afirmam-me que “querem melhorar, mas o corpo não deixa; dói todo e não consiguem fazer nada”.

Esses e vários outros relatos são reais e de pessoas que sofrem do transtorno de ansiedade e que necessitam de um olhar atento e de uma intervenção terapêutica rápida. Várias são as formas de tratar da ansiedade generalizada, e não estou falando somente de prescrever uma medicação, que seria uma forma muito simplista para cuidar de um problema tão grave.

Você, caro leitor, que sofre com problema de ansiedade, se seguir alguns passos durante o decorrer do dia poderá se sentir melhor, neste “estado de sufocação permanente”. Vamos lá:

  • inicie o dia fazendo um alongamento simples;
  • passe a um café da manhã leve, optando por produtos que contenham o aminoácido triptofano (banana e leite), que irá aumentar os níveis de serotonina;
  • durante o caminho para sua atividade habitual (escola ou trabalho), tente ter somente pensamentos positivos (pensamentos negativos não ajudam em nada – pelo contrário só aumentam sua ansiedade).
  • durante o trabalho do dia a dia, pare algumas vezes para controlar a respiração;
  • pratique uma respiração profunda pelo nariz e faça a expiração pela boca. Veja que isso alivia qualquer produção de ansiedade naquele momento;
  • mantenha sua rotina organizada. Não há nada pior para quadros de ansiedade do que uma pessoa desorganizada.

Portanto, pare um tempo e vá organizar seu quarto, sua papelada, enfim, qualquer coisa que remeta à falta de organização. Dando sequência à procura de bem-estar, não poderia faltar a atividade física em algum momento do dia. É esta atividade que reduz os quadros de estresse. Enfim, termine o seu dia com um bom banho e a utilização de chás que relaxam à noite (como valeriana, melissa, etc). Sêneca, filósofo romano, disse: “Nada é tão lamentável e nocivo como antecipar desgraças”. Isto é ansiedade pura. Fuja deste padrão e procure ajuda!

SPA – O MAL DO SÉCULO

Autoria do Dr. Augusto Cury*

Vivemos num sociedade urgente, rápida e ansiosa. Nunca as pessoas tiveram uma mente tão agitada e estressada. Paciência e tolerância a contrariedades estão se tornado artigos de luxo. Quando o computador demora a iniciar, não poucos se irritam. Quando as pessoas não se dedicam a atividades interessantes, elas facilmente se angustiam. Raros são os que contemplam as flores nas praças ou se sentam para dialogar nas suas varandas ou sacadas. Estamos na era da indústria do entretenimento e, paradoxalmente, na era do tédio. É muito triste descobrir que grande parte dos seres humanos de todas as nações não sabe ficar só, se interiorizar, refletir sobre as nuances da existência, se curtir, ter um autodiálogo. Essas pessoas conhecem muitos nas redes sociais, mas raramente conhecem alguém a fundo e, o que é pior, elas raramente conhecem a si mesmas.

Este livro fala do mal do século. Muitos pensam que o mal do século é a depressão, mas aqui apresento outro mal, talvez mais grave, mas menos perceptível: a ansiedade decorrente da Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA). Pensar é bom, pensar com lucidez é ótimo, porém pensar demais é uma bomba contra a saúde psíquica, o prazer de viver e a criatividade. Não são apenas as drogas psicotrópicas que viciam, mas também o excesso de informação, de trabalho intelectual, de atividades, de preocupação, de uso de celular. Você vive esses excessos? Todos eles levam a mente humana ao mais penetrante de todos os vícios: o vicio em pensar. Muitos entre os melhores profissionais padecem desse mal, são ótimos para sua empresa, mas carrascos de si mesmos. Desacelerar nossos pensamentos e aprender a gerir nossa mente são tarefas fundamentais.

O conteúdo deste livro deriva da Teoria da Inteligência Multifocal, uma das poucas teorias mundiais que estudam o complexo processo de construção de pensamentos, de formação do Eu como gestor psíquico, os papéis da memória e a formação de pensadores. O livro não é, portanto, uma obra de autoajuda com soluções mágicas, mas uma obra de aplicação psicológica. Ensino aos meus alunos de mestrado e doutorado em psicologia, “coaching” e ciências da educação, muitas das teses expostas aqui. Entretanto, procurei escrevê-las numa linguagem simples, usando muitos exemplos e metáforas, para tornar o livro acessível não apenas para os mais diversos profissionais, professores e pais, mas também para as jovens, porque esses são igualmente vitimas do SPA. Sem perceber, destruímos a saúde emocional da juventude no mundo todo. Espero que você faça um mergulho em camadas mais profundas de sua mente e aplique as ferramentas aqui propostas.

O dinheiro compra bajuladores, mas não amigos, compra a cama, mas não o sono, compra pacotes turísticos, mas não a alegria, compra todo e qualquer tipo de produto, mas não uma mente livre, compra seguros, mas não o seguro emocional. Numa existência brevíssima e complexa como a nossa, conquistar ume mente livre e ter seguro emocional faz toda a diferença…

*psiquiatra, psicoterapeuta, cientista e escritor (contato@augustocury.com.br)