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Simon Vouet – PSIQUE VENDO O AMOR DORMINDO

Autoria de LuDiasBH

psivendor

A composição denominada Psique vendo o Amor Dormindo é uma obra do pintor francês Simon Vouet. Em sua pintura, o artista toma como tema o mito grego sobre Psique e Cupido.

A cena representada diz respeito à curiosidade de Psique em relação ao seu amor alado (Cupido) que só a visitava durante a noite, sem permissão para que ela pudesse vê-lo. O artista retrata o momento em que ela acende uma lâmpada de azeite para iluminá-lo.

Cupido encontra-se nu sobre lençóis brancos, debaixo de um dossel vermelho, magnificamente arranjado, o que torna a cena ainda mais sensual. Seu arco vermelho e aljava encontram-se sobre um móvel, atrás de Psique que traz um manto verde em volta do corpo e na mão direita a faca, com que iria matar o imaginado monstro apregoado por suas irmãs. Com a mão esquerda ela ergue a lâmpada fatídica.

Conta o mito que para vingar-se da beleza de Psique, Vênus pediu ao seu filho Cupido para castigá-la, fazendo com que se apaixonasse por um ser mortal. Ao vê-la, contudo, ele se sentiu embriagado com sua beleza e acabou se ferindo com a própria seta, vindo a apaixonar-se por ela. Psique foi morar com ele num palácio, sem jamais vê-lo. Ao receber a visita das irmãs, essas lhe disseram que seu marido era uma terrível serpente que iria devorá-la depois, deveria, portanto, esconder uma lâmpada e uma faca afiada, a fim de decepar sua cabeça, enquanto ele dormisse. E assim agiu a ingênua esposa, antes de surpreender-se com a presença de Cupido, que a abandonou, chateado com a sua deslealdade.

Ficha técnica
Ano: 1626
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 112 x 165 cm
Localização: Musée des Beaux-Arts, Lyon, França

Fontes de pesquisa
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann
Mitologia/ Thomas Bulfinch
Mitologia/ LM

VENCENDO OS TRANSTORNOS MENTAIS

Autoria de Alexandra Carvalho

 Já não sou marinheira de primeira viagem, nem aqui no Vírus da Arte, nem nesta “dança” da depressão e dos transtornos de ansiedade/pânico.

Há pouco menos de três anos tive o meu primeiro e aterrador episódio de ansiedade generalizada e pânico, uma coisa que me deitou completamente abaixo, tanto a mente como o corpo, e que insistia em não passar. Na sequência, recomendaram-me um óptimo psiquiatra e um óptimo gastroenterologista que começaram a acompanhar o meu caso. O diagnóstico: quadro de depressão prolongada que se manifestou em ansiedade e pânico e, para complicar as coisas, síndrome do intestino irritável, que se manifestava, sobretudo, com diarreia e/ou aumento da frequência das evacuações e gases. Na época, comecei a fazer uso de escitalopram que rapidamente fez efeito (uma semana), mas também rapidamente voltei a ter uma recaída.

O psiquiatra recomendou-me aumentar a dosagem do antidepressivo, e assim fiz. Passado mais algum tempo, estava muito melhor (fiz também uma colonoscopia, cuja limpeza intestinal de preparação ajudou muito a restabelecer os ritmos intestinais). As recaídas (ataques de pânico) eram cada vez menos frequentes, até que desapareceram por completo. Estava bem! Sentia-me cheia de força, estava cheia de projectos, até ingressei num ginásio e comecei a consultar um psicólogo para me ajudar a lidar com as contrariedades do dia a dia. A vida corria-me bem a nível pessoal e começou também a correr melhor a nível profissional! Voltei aos 10 mg do antidepressivo, cerca de ano e meio, talvez menos, e depois de uma relação feliz com o amado escitalopram, estava eu a fazer o desmame. Tudo corria bem!

Com as melhorias notórias a variadíssimos níveis, veio o excesso de confiança, uma espécie de fase maníaca (pelo menos, é assim que eu a classifico na minha perspectiva de leiga). Os excessos nas saídas com os amigos, os excessos de trabalho, o achar que era capaz de tudo e que tudo podia, achando-me quase uma supermulher. Mas claro que isto era apenas uma ilusão, pois depois da mania vem a inevitável depressão. Comecei a incorrer nos velhos erros, voltei com os maus hábitos, tive algumas contrariedades em nível pessoal e profissional, tive um desentendimento com o meu psicólogo e abandonei a psicoterapia (admito que reagi demasiado a quente a algo que me desagradou e não ponderei com justeza tudo aquilo que ele já tinha feito por mim). Voltei novamente a levar uma vida mais reclusa, com hábitos muito noturnos e descurei muitos aspectos do meu bem-estar (deixei de ir ao ginásio…), tudo enquanto me convencia que iria correr tudo bem e que ia conseguir ultrapassar sozinha aquilo que seria apenas uma pedra no caminho, mas acabava sempre por deixar muita coisa para “fazer no dia seguinte”.

O trabalhar a partir de casa, ter tido uma lesão no joelho e o medonho inverno que se vive aqui por Portugal também não ajudaram… A verdade é que entrei novamente numa espiral descendente, talvez ainda mais grave que anteriormente. Há quase três semanas, com o estresse acumulado do trabalho e do segundo mestrado que estou a tirar, voltei à ansiedade e, passados alguns dias ao temível pânico… O frio no estômago, o nó na garganta, a falta de apetite, as náuseas, a vontade de evacuar quase constante durante o dia, os gases, a tensão muscular abdominal, os suores, os tremores, o frio/calor, o terror, a angústia, “o medo do medo”, voltou tudo. Felizmente, não guardo grandes memórias do meu primeiro episódio há quase três anos (a mente humana tem esta capacidade maravilhosa de ‘apagar’ as experiências desagradáveis), mas este novo capítulo está a ser particularmente aterrador e paralisante.

Os dois últimos dias em particular foram 48 horas de pânico constante, apenas aliviado pelo alprazolam (o malfadado Xanax), ao qual estava a tentar fugir, mas sem sucesso. Voltei ao psiquiatra e ao escitalopram, ainda sem resultados, para além de alguns efeitos secundários (não sei se este agravamento não será um efeito paradoxal de algum destes medicamentos), e vou voltar também à psicoterapia e ao gastro. Mas sigo persistente e com esperança, tentando, sempre que possível, não me deixar dominar pelo medo. Já derrotei isto uma vez, hei de derrotar uma segunda e todas as que forem necessárias! Poderá demorar mais tempo que da outra ocasião e poderão ser necessários ajustes à medicação, mas hei de lá chegar! E, desta feita, aprendi muito com os erros do passado, que conto não voltar a repetir, pois agora já sei ao que eles, inevitavelmente, conduzem.

Forte abraço a todos os companheiros nesta travessia de mares turbulentos.

Nota: Mulher com Pombas, obra do pintor Di Cavalcanti

A IMPORTÂNCIA DA MEDITAÇÃO

Autoria de LuDiasBH

A meditação promove alterações químicas de grande impacto. Neurotransmissores desejados, como é o caso da serotonina, o chamado hormônio da felicidade, tem sua liberação aumentada, enquanto outros, menos desejados, como o cortisol, têm a sua produção diminuída. (Martin Portner)

A meditação é uma prática milenar de autoconhecimento, concentração e interiorização cujos benefícios são cada vez mais atestados pelos especialistas no assunto. Historicamente falando, os primeiros registros das práticas meditativas remontam ao século XVI antes de Cristo, tendo sido encontrados na literatura e no misticismo da Índia. As religiões orientais foram responsáveis por darem à meditação um caráter religioso, contudo, a ciência tem demonstrado a sua importância para o cérebro, com resultados que apresentam mudanças importantes em sua estrutura física.

A palavra “meditar” tem sua origem no termo latino “meditare” que significa “tratar, curar, dar atenção médica, refletir”, contudo, tal definição pode variar de uma religião para outra ou até mesmo dentro de diferentes contextos. Entretanto, apesar das diferentes definições, todas elas levam em conta a realidade interior e seu desenvolvimento de cada um. Algumas pessoas inicialmente sentem dificuldades para se concentrar, enquanto outras chegam ao estado meditativo com muita facilidade. De qualquer jeito, com o tempo e o exercício contínuo, tal prática vai se tornando cada vez mais dinâmica, acessível a qualquer um.

Uma equipe de pesquisadores de Harvard, nos EUA, trabalhou com 16 participantes que realizaram 27 minutos diários de meditação, num período de dois meses. Após esse tempo, o estudo do cérebro de tais pessoas mostrou mudanças significativas na massa cinzenta. A equipe constatou que a amígdala (grupo de neurônios que atuam na ansiedade e no estresse) teve a densidade de sua matéria cinzenta diminuída. E o hipocampo (área que tem relação com a aprendizagem, a memória e a compaixão) sofreu um aumento na sua estrutura neural.

É sabido que, conforme a idade vai avançando, o cérebro humano sofre um processo natural que é a diminuição da massa de neurônios. Recrutando pessoas com idade entre 24 e 77 anos, um grupo de pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, Estados Unidos, selecionou 100 participantes, dentre os quais 50% praticavam meditação há cerca de 20 anos e a outra metade jamais realizara tal prática. Ao final da experiência, a diminuição da massa neural daqueles que meditavam foi bem menor. Tal pesquisa acendeu uma luz de esperança no que tange às doenças neurodegenerativas, como o conhecido Alzheimer.

Martin Portner, neurologista e especialista em mindfulness (estado mental de controle sobre a capacidade de se concentrar nas experiências, atividades e sensações do presente) diz que “Praticamente todas as áreas cerebrais se tornam alvo de um processo de reorganização positiva guiado pela meditação. Além disso, o cérebro muda em relação aos comportamentos pro-sociais”.

Fonte de pesquisa:
Revista Segredos da Mente, Cérebro e Meditação – nº 1

MULHERES QUE CURAM

Autoria de Mani Alvarez*

            

Erveiras, raizeiras, benzedeiras, mulheres sábias que por muito tempo andaram sumidas, ou até mesmo escondidas. Hoje retornam com um diploma de pós-graduação nas mãos e um sorriso maroto nos lábios. Seu saber mudou de nome. Chamam de terapia alternativa, medicina vibracional, fitoterapia, práticas complementares… são reconhecidas e respeitadas, tem seus consultórios e fazem palestras.

As mulheres curadoras fazem parte de um antigo arquétipo da humanidade. Em todas as lendas e mitos, quando há alguém doente ou com dores, sempre aparece uma mulher idosa para oferecer um chazinho, fazer uma compressa, dar um conselho sábio. Na verdade, a mulher idosa é um arquétipo da ‘curadora’, também chamada nos mitos de Grande Mãe.

Não tem nada a ver com a idade cronológica, porque esse é um arquétipo comum a todas as mulheres que sentem o chamado para a criatividade, que se interessam por novos conhecimentos e estão sempre a procura de mais crescimento interno. Sua sabedoria é saber que somos “obras em andamento’, apesar do cansaço, dos tombos, das perdas que sofremos… a alma dessas mulheres é mais velha que o tempo, e seu espírito é eternamente jovem.

Talvez seja por isso que, como disse Clarissa Pinkola: “Toda mulher se parece com uma árvore. Nas camadas mais profundas de sua alma ela abriga raízes vitais que puxam a energia das profundezas para cima, para nutrir suas folhas, flores e frutos. Ninguém compreende de onde uma mulher retira tanta força, tanta esperança, tanta vida. Mesmo quando são cortadas, tolhidas, retalhadas, de suas raízes ainda nascem brotos que vão trazer tudo de volta à vida outra vez.”

Por isso, entendem as mulheres de plantas que curam, dos ciclos da lua, das estações que vão e vêm ao longo da roda do sol pelo céu. Elas têm um pacto com essa fonte sábia e misteriosa que é a natureza. Prova disso é que sempre se encontram mulheres nos bancos das salas de aula, prontas para aprender, para recomeçar, para ampliar sua visão interior. Elas não param de voltar a crescer…

Nunca escrevem tratados sobre o que sabem, mas como sabem coisas! Hoje os cientistas descobrem o que nossas avós já diziam: as plantas têm consciência! Elas são capazes de entender e corresponder ao ambiente à sua volta. Converse com o “dente-de-leão” para ver… comunique-se com as plantas de seu jardim, com seus vasos, com suas ervas e raízes, o segredo é sempre o amor.

Minha mãe dizia que as árvores são passagens para os mundos místicos e que suas raízes são como antenas que dão acesso aos mundos subterrâneos. Por isso, ela mantinha em nossa casa algumas árvores que tinham tratamento especial. Uma delas era chamada de “árvore protetora da família” e era vista como fonte de cura, de força e energia. Qualquer problema, corríamos para abraçá-la e pedir proteção.

O arquétipo de ‘curadora’ faz parte do feminino, mesmo que seja vivenciado por um homem. Isso está aquém dos rótulos e definições de gênero. Faz parte de conhecimentos ancestrais que foram conservados em nosso inconsciente coletivo.

Perdemos a capacidade de olhar o mundo com encantamento, mas podemos reaprender isso prestando atenção nas lendas e nos mitos que ainda falam de realidades invisíveis que nos rodeiam. Um exemplo? Procure saber mais sobre os seres elementais que povoam os nossos jardins e as fontes de águas… fadas, gnomos, elfos, sílfides, ondinas, salamandras… As “curadoras” afirmam que podemos atrair seres encantados para nossos jardins! Como? Plantando flores e plantas que atraiam abelhas e borboletas, gaiolas abertas para passarinhos e bebedouros para beija-flores.

Algumas plantas “convidam” lindas borboletas para seu jardim, como milefólio, lavanda, hortelã silvestre, alecrim, tomilho, verbena, petúnia e outras. Deixe em seu jardim uma área levemente selvagem, sem grama, pois os seres elementais gostam disso. Convide fadas e elfos para viverem lá. Lembre-se: onde você colocar sua percepção e sua consciência, a energia vai atrás.

* Coordenadora do curso de pós-graduação em Práticas Complementares em Saúde

Nota:
Fotos de Maria Helena Gomes, raizeira, benzedeira e estudiosa sobre o assunto.
Contato para palestras: helenadoshelenos@yahoo.com.br

VÍTIMA DE UM VAMPIRO POSSESSIVO

Autoria de Celina Hohmann

Tive o desprazer de ter cruzado com um possessivo doentio, cujo maior prazer é a tortura. O indivíduo possessivo é tão perspicaz quanto um vampiro e nisso está seu trunfo.

Nunca nos imaginamos enfrentando um possuidor mórbido, indivíduo que se julga o dono absoluto de tudo e de todos, inclusive dos pensamentos de outra pessoa. É cruel, impertinente, magoa pelo prazer e, ao final, faz-se de vítima. Para chegar aonde se sente confortável não poupa esforços em destruir a imagem do outro. Ele é quem domina, o dono absoluto da verdade. Infiltra-se como água na areia e vai destruindo pedaço por pedaço de quem tomou como vítima. E diz amar!

Sabemos que a esse tipo de gente falta o amor próprio, o reconhecimento de que precisa mudar, pois caso contrário terá como fim o desprezo, uma consequência por tudo o que criou, após chegar e fazer o estrago. Tais pessoas chegam com uma carinha de gente boa e preocupadas com o bem-estar do outro, mas, na verdade, estão afiando as garras para rasgar vidas, o que fazem muito bem. Quem se encontra sob o seu domínio perde o controle de tudo, principalmente de suas próprias ações. É um jogo perigoso.

O maior perigo do possessivo está no fato de ele chegar sorrateiramente, dando-nos bons motivos para vê-lo como alguém especial. É especial, sim! Tão maldosamente especial que o mundo de quem está sob seu domínio fica à deriva. O complicado é que a vítima, na ânsia de não criar atritos, anula-se, culpa-se e odeia-se… Aí é que reside o fortalecimento do possessivo! Consegue seu alvo. Destrói e não se culpa, mas ao contrário, joga a culpa no outro e ainda faz a clara observação de que é “por amor”. Amor que mata! Amor que não faz bem! Amor que machuca! Não, isso não é amor, mas terrorismo!  Viver sob tal domínio é angustiante, é como pisar em ovos, ter medo do que fala e, quase sempre, deixar de ser o que se é!

Possessivos são doentes, jogadores sem escrúpulos. Para que se afirmem, fazem de quem está próximo (e sempre há uma vítima preferida) um doente como eles são. Sua capacidade está na anulação do outro com o objetivo de aumentar o próprio poder, até que, numa escorregadela, o oprimido percebe,  ainda que com certa relutância, que o problema não está em suas ações, palavras ou gestos, mas na maquiavélica capacidade de ser manipulado pelo outro ? um doente que culpa os demais por sua incapacidade. Perigosos, eles podem, num surto ou acesso de raiva, ferirem fisicamente, depois de terem sugado o psiquismo até a última gota. São as pragas da humanidade que, junto a muitas outras, fazem a vida de muitos se transformar num inferno diário.

Hoje, após um tempo que pareceu uma eternidade, percebi que eu era a vítima, mas as sequelas ficaram visíveis: ainda o medo, ainda culpas que jamais seriam culpas, ainda o tatear no escuro. O livrar-se de um possessor não é tarefa das mais simples. Há que se ter muito amor próprio, pois o possessivo escolhe suas vítimas, normalmente já fragilizadas (e pessoas fragilizadas são alvos fáceis), mas, até que reencontrem seu equilíbrio, passarão por maus bocados. Se não tiveram alguém que sutilmente as orientem, poderão, sem dúvida alguma, anular-se por completo e, num perigoso jogo, caírem na caverna desses vampiros para sempre.

TERRA: É ALI QUE VIVEMOS…

Autoria de Carl Edward Sagan

A maior grandeza do HOMEM está em ser capaz de entender e admitir sua pequenez e insignificância diante da magnitude do UNIVERSO. (Prof. Rodolpho Caniato)

 Deste ponto de vista, nossa obsessão com nacionalismo não aparece em evidência. Nós somos muito pequenos. Na escala dos mundos, humanos são irrelevantes, uma fina película de vida num obscuro e solitário torrão de rocha e metal. (Carl E. Sagan)

Talvez, não haja melhor demonstração das tolices e vaidades humanas que essa imagem distante do nosso pequeno mundo. Ela enfatiza nossa responsabilidade de tratarmos melhor uns aos outros, e de preservar e estimar o único lar que nós conhecemos: o pálido ponto azul. (Carl E. Sagan)

A espaçonave estava bem longe de casa. Eu pensei que seria uma boa ideia, logo depois de Saturno, fazê-la dar uma última olhada em direção de casa.

De Saturno, a Terra apareceria muito pequena para a Voyager apanhar qualquer detalhe, nosso planeta seria apenas um ponto de luz, um “pixel” solitário, dificilmente distinguível de muitos outros pontos de luz que a Voyager avistaria: planetas vizinhos e sóis distantes, mas justamente por causa dessa imprecisão de nosso mundo assim revelado, valeria a pena ter tal fotografia. Já havia sido bem entendido por cientistas e filósofos da antiguidade clássica que a Terra era um mero ponto de luz em um vasto cosmos circundante, mas ninguém jamais a tinha visto assim. Aqui estava nossa primeira chance e talvez a nossa última nas próximas décadas.

Então, aqui está um mosaico quadriculado estendido em cima dos planetas e um fundo pontilhado de estrelas distantes. Por causa do reflexo da luz do sol na espaçonave, a Terra parece estar apoiada em um raio de sol, como se houvesse alguma importância especial para este pequeno mundo, mas é apenas um acidente de geometria e ótica. Não há nenhum sinal de humanos nessa foto. Nem nossas modificações da superfície da Terra, nem nossas máquinas, nem nós mesmos. Desse ponto de vista, nossa obsessão com nacionalismo não aparece em evidência. Nós somos muito pequenos. Na escala dos mundos, humanos são irrelevantes, uma fina película de vida num obscuro e solitário torrão de rocha e metal.

Considere novamente esse ponto. É aqui. É nosso lar. Somos nós. Nele, todos que você ama, todos que você conhece, todos de quem você já ouviu falar, todo ser humano que já existiu, viveram suas vidas. A totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e saqueador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e plebeu, cada casal apaixonado, cada mãe e pai, crianças esperançosas, inventores e exploradores, cada educador, cada político corrupto, cada “superstar”, cada “líder supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali, em um grão de poeira suspenso em um raio de sol.

A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pense nas infindáveis crueldades infringidas pelos habitantes de um canto desse pixel, nos quase imperceptíveis habitantes de outro canto, o quão frequentemente seus mal-entendidos, o quanto sua ânsia por se matarem, e o quão fervorosamente eles se odeiam. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, em sua gloria e triunfo pudessem se tornar os mestres momentâneos de uma fração de um ponto. Nossas atitudes, nossa imaginaria importância, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo, é desafiada por esse pálido ponto de luz.

Nosso planeta é um espécime solitário na grande e envolvente escuridão cósmica. Na nossa obscuridade, em toda essa vastidão, não há nenhum indício que ajuda possa vir de outro lugar para nos salvar de nós mesmos. A Terra é o único mundo conhecido até agora que sustenta vida. Não há lugar nenhum, pelo menos no futuro próximo, no qual nossa espécie possa migrar. Visitar, talvez, se estabelecer, ainda não. Goste ou não, por enquanto, a Terra é onde estamos estabelecidos.

Foi dito que a astronomia é uma experiência que traz humildade e constrói o caráter. Talvez, não haja melhor demonstração das tolices e vaidades humanas que essa imagem distante do nosso pequeno mundo. Ela enfatiza nossa responsabilidade de tratarmos melhor uns aos outros, e de preservar e estimar o único lar que nós conhecemos: o pálido ponto azul.