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DONA NICA – MÃEZINHA QUERIDA

Autoria de Luiz Cruz

Dona Nica, assim Antonia Augusta da Cruz era conhecida em Tiradentes. Era primogênita de Vicente José da Costa e Maria Cândida de Paiva, que tiveram dez filhos. Foi registrada juntamente com seu segundo irmão e por isso sempre houve confusão com o ano de seu nascimento. Desde muito cedo teve que trabalhar, ajudando a família cuidar da casa e dos irmãos, a pilar arroz, colher e torrar café.  Vicente tinha muitos empregados que trabalhavam em suas terras, contratados “molhados”, ou seja, recebiam o café e a refeição. Isso gerava atividades intensas para as mulheres da família, preparar tudo e levar os balaios cheios de marmitas para os trabalhadores, as vezes no  Gualter, nas Marimbas, no Campo ou nas Lagoas, onde  se plantava ou criava o gado. Aos 20 anos casou-se com Antonio Faustino da Cruz. O casal foi morar na Rua Padre Toledo 279, nesse imóvel nasceram os filhos Maria José e José Celso. Logo, para ajudar na manutenção do núcleo familiar, tornou-se artesã, tecendo correntes para a Oficina de Ourives Santíssima Trindade, utilizava o maçarico de boca e a lamparina para soldar. Era o período do artesanato de prata, comercializado nas festas religiosas, principalmente no Jubileu de Congonhas-MG. Depois o casal se mudou para a Rua da Câmara, 22. A edificação estava em ruínas e foi necessário obra grande e romper o preconceito, pois lá havia morado e falecido um tuberculoso. Aí a família cresceu mais com o nascimento de Luiza, Eutália, Cecília, Joanito e Afonso. Finalmente, depois de muitos esforços e economia, o casal conseguiu comprar a casa da Rua Direita, 127, e lá nasceram Luiz, Faustino, Daniel, Eliseu e Giselda. Uma prole de 12 filhos, sendo que dois faleceram ainda na infância.

Dona Nica trabalhou longos anos como artesã de ourives e só conseguia produzir depois que os filhos iam para a cama, ou seja, passava parte da noite tecendo, à luz de lamparina. Depois trabalhou para a Oficina de Ourives Mauro Barbosa, fazendo colchetes – fechos para pulseiras e colares. Fez bolinhas para colares e terços. Durante muitos anos foi a lavadeira dos uniformes do Grêmio Esportivo São João Evangelista. Foi uma mulher empreendedora e através do seu empenho ajudou a criar a família com dignidade. Envidou esforços para que os filhos fossem trabalhar desde cedo, como vender picolés, verduras, doces ou nas oficinas de ourives. Dizia que o trabalho dava dignidade ao homem, assim seus filhos se acostumaram com os compromissos desde a infância. Todos foram encaminhados para a escola, na certeza de que a Educação seria um instrumento transformador na vida de cada filho, embora ela mesma não tenha tido oportunidade de estudar devido ao trabalho. Apesar do pouco estudo sempre lia a Revista Ave Maria e todos os jornais, revistas, folhetos que lhe ofereciam. Fora expressiva admiradora da natureza e adorava flores. Irritava-se profundamente com os cortes de árvores desnecessários e entristecia-se com os incêndios na Serra de São José.

Viveu intensamente! Adorava a vida! Estimava por demais toda a família, principalmente seus filhos, netos e bisnetos. Sua cor favorita era o vermelho, achava a cor vibrante, alegre e contagiante. Ao longo das seis décadas que viveu na Rua Direita, tornou-se devota de Nossa Senhora do Rosário, rezava o terço diariamente e o deixava debaixo de seu travesseiro. Foi com o terço, após muitos problemas, que se percebeu que havia algo de errado. Ela guardava o terço e não o achava quando ia rezar. Vitimada por “alzhaimer”, enfrentou a doença com serenidade. Jamais reclamou de qualquer coisa. Forte e com sua devoção, conseguiu romper anos seguidos de enfermidade, mas aos poucos perdeu a mobilidade. Mesmo assim, em todas oportunidades assistiu as procissões passar pela Rua Direita, recebia a benção do Santíssimo Sacramento na porta da casa e isto era um alimento ou remédio para o corpo e para a alma.

Sempre gostou de receber visitas e as recebia com entusiasmo. Ao despedir gostava de dizer: “Vai com Deus e com a Nossa Senhora do Rosário também.” O inverno de 2017 foi rigoroso, sofreu acentuadamente com o frio e teve pneumonia grave. Em julho esteve hospitalizada e recuperou, mas retornou em setembro. Com aparente tranquilidade disse: – “Ela não vai me levar embora facilmente”.  Na Santa Casa da Misericórdia de São João del-Rei, travou intensa batalha e lutou bravamente pela vida, foi vencedora em diversos momentos. Dona Nica faleceu no dia 5 de outubro de 2017. Foi sepultada de vermelho, onde estão seus filhos Joanito, Eutália, netos e bisnetos, no Cemitério da Matriz de Santo Antônio. Nossa mãezinha partiu para viver a alegria da vida eterna. Ficamos tristes, pesarosos, mas na certeza de que está sob a proteção do Bom Deus e de Nossa Senhora do Rosário.

Mãezinha, querida, somos muito gratos aos seus ensinamentos, aos exemplos, à generosidade, à alegria de viver e à dignidade com que enfrentou a enfermidade e, sobretudo, a sua longevidade – afinal foram 92 primaveras.

O MILAGRE

Autoria de Edward Chaddad

No chorinho alegre do nascer,

Em um sorriso se abre o amor,

Encanta, jovem mãe, o  prazer  

De perpetuar-se mesmo na dor!

 

Castelo de inocência e pureza,

Construído com tanta ternura,

Presente de Deus, que beleza!

Rostinho lindo, que fofura!

 

O botão em flor se tornou,

Trazendo muita felicidade,

No coração bate a esperança.

 

O sonho almejado se consumou,

A vida é agora uma realidade,

O milagre se chama Criança! 

ENCONTROS MEMORÁVEIS

Autoria do Prof. Rodolpho Caniato

Corria o ano de 1977. Eu estava no meio da segunda metade de meu período de dois anos improrrogáveis como Professor Visitante no Instituto de Física da USP. Um dos meus muitos ex-alunos da UNICAMP, Prof. Luiz Antônio Bértollo, veio me visitar e me trazia uma proposta. Ele havia assumido um lugar de Professor no Departamento de Física da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e me propunha acompanhá-lo numa visita àquela instituição. Ele insistia em que eu aceitasse uma vaga na mesma instituição, onde segundo a generosidade dele, eu deveria ser o “chefe” no Departamento de Física. Assumir aulas regulares no interior do Rio de Janeiro era para mim inviável, considerando que toda minha família, com cinco filhos, residia em Campinas. Outra razão era um projeto-sonho que eu acalentava, desde muitos anos: investigar a origem e persistência dos mal entendidos conceituais cuja presença eu havia detectado e acumulado ao longo dos muitos anos no ensino da Física e da Astronomia. “Pelo menos vamos passear e bater um papo”, foi a “sedução” para que eu “topasse” a viagem.

Viajamos para ao Rio e visitamos aquele belíssimo e grande campus da Rural que na era getuliana chamava-se Escola Nacional de Agronomia, no “Quilômetro 47” da antiga Rodovia Rio-São Paulo. Diante de minha desistência em aceitar aulas regulares, aquele meu ex-aluno e gentil anfitrião insistiu em me apresentar à Profa.(ME) Yacy Andrade Leitão, Decana de Graduação daquela instituição, a UFRRJ. Tive então ocasião de expor meu projeto de interação com o Ensino Fundamental para aquela grande educadora. Eu sabia, por experiência, que as universidades resistiam a tratar do assunto ou envolver-se com temas do ensino fundamental. Envolver-se com coisas do ensino “primário” era, na época, considerado “baixar o nível” do ensino “superior”. Para minha grata surpresa aquela eminente educadora reagiu com entusiasmo à minha ideia.

Ela não só aceitava a ideia do projeto como admitia que eu fizesse um programa de trabalho compatível com minhas possibilidades de frequência e tempo e viagens. Foi um encontro que marcaria todos os demais anos de meu trabalho e de minha vida. Logo nos integramos no NATE (Núcleo de Apoio com Tecnologias Educacionais) criado por aquela diligente EDUCADORA. Imediatamente começamos a pesquisa com as muitas escolas das imediações da UFRRJ. Nunca antes a Universidade havia interagido com as escolas de suas vizinhanças, mesmo com aquelas que ficavam diante de suas portas. Passamos a ter forte interação com essas escolas, graças aos contatos da Profa. Yacy. Logo a pesquisa se transformou num pedido de “socorro” por parte dos professores daquelas instituições. Não podíamos nos recusar ao pedido de ajuda. Logo passamos a produzir e ensaiar novos textos, experimentos e procedimentos com a participação de estudantes e professores daquela instituição. O trabalho logo se estendeu a muitas outras escolas de localidades da Baixada Fluminense e do Estado do Rio.

Meu personagem “Joãozinho”, curioso e contestador, passou a se materializar nesse contexto e se tornou muito conhecido. Sua difusão pela Baixada Fluminense o tornou o “Joãozinho da Maré”. Em pouco tempo nos tornaríamos insuficientes para atender a tantos pedidos das escolas. O acúmulo da experiência logo deu origem formal ao “Joãzinho da Maré”. Se eu fui o “pai” desse personagem, a Profa. Yacy foi a dedicada “mãe”, responsável por seus cuidados e pela sua “nutrição”: mais convites e solicitação de cursos (muitas dezenas), alguns em outros estados. Logo nossa experiência se materializava em dois livros: “A Terra em que vivemos” com os conteúdos e “Com(ns)Ciência na Educação” com o ideário.  Com os conhecimentos e as relações institucionais da Profa. Yacy muitos professores de diferentes áreas de nossa instituição (UFRRJ) se interessaram e se integraram ao nosso grupo, além de muitos alunos das licenciaturas.

A interação com os professores de outras áreas da Universidade evidenciou outra grande e urgente necessidade: muitos professores em exercício no ensino superior não tinham qualquer curso além da graduação. Era importante e urgente oferecer-lhes a possibilidade de algum curso de pós-graduação. Logo passamos a planejar um curso “lato sensu” de “Metodologia para o Ensino Superior”. Mais uma vez a experiência daquela Educadora, Profa. Yacy de Andrade Leitão, foi fundamental no planejamento e redação do projeto. Já para o ano seguinte (1978), inscreveram-se professores das áreas de Física e de Matemática. Logo convidamos como professores alguns de meus amigos, professores da UNICAMP. Esse curso, com a duração de dois anos, atendeu a professores da UFRRJ e de fora dela.

Durante os anos seguintes se multiplicaram os pedidos de  cursos e palestras sobre essa considerável e concreta contribuição. O “Joãozinho da Maré” passou a figurar em muitas publicações chegando a aparecer em várias publicações de Educação e no livro “Astronomia”, publicado pela Agência Espacial Brasileira. Em 1982, depois de meu curso para professores do Ensino Superior na República Dominicana me foi solicitado que voltasse àquele país para dar o curso para professores do ensino fundamental. Foi a vez do “Juanito de la Marea”, numa tradução do Prof. Engo Juan Selman (República Dominicana). Depois que o transformei em peça de tetro o “Joãozinho da Maré” foi muitas vezes encenado, em diferentes lugares e regiões do Brasil, especialmente em alguns EREAs (Encontros Regionais para Ensino de Astronomia).

Como “pai” do “Joãzinho da Maré” tenho que reconhecer que tantas atividades relacionadas ao Ensino superior e fundamental aconteceram como desdobramentos ou consequências daquele encontro com uma grande e entusiasta EDUCADORA: Profa.(ME) Yacy Andrade Leitão. Encontrar aquela dedicada PROFESSORA foi de fato um Encontro Memorável.

CORPO DE BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS – 25 ANOS

Autoria de Luiz Cruz

A ideia de se organizar um grupo para debelar os incêndios florestais na Serra de São José ocorreu quando Tiradentes estava implantando o projeto do PNMA-Programa Nacional de Meio Ambiente em Núcleos Históricos, coordenado pelo antigo IBAMA. Na ocasião foram realizados seminários, e durante um deles ocorreu um incêndio que se alastrou pela Serra de São José. Todas as atividades foram suspensas até que o fogo fosse debelado. O primeiro grupo voluntário foi equipado com recursos da SAT-Sociedade Amigos de Tiradentes e logo se formou a Brigada de Combate a Incêndios. O grupo inicial teve treinamento no 1º Batalhão do Corpo de Bombeiro Militar, em Belo Horizonte. Logo, a brigada foi transformada em SCBVT – Sociedade Corpo de Bombeiros Voluntários de Tiradentes. Sua fundação foi no dia 13 de agosto de 1992.

Através de inúmeras campanhas e projetos, a SCBVT conseguiu construir sua sede própria na Praça da Estação. Seu primeiro veículo foi adquirido com recursos do PNMA. Hoje a corporação é proprietária do mais moderno caminhão autobomba do Brasil, que foi adquirido através de projeto que teve o Governo de Minas Gerais como interveniente e apoio financeiro do BNDES.

Desde o início, o Corpo de Bombeiros se destacou pelos trabalhos voltados à prevenção, principalmente aos incêndios florestais na Serra de São José. Por isso, realizou inúmeras palestras, oficinas e exposições nos cinco municípios que compõem a área da serra, que são Tiradentes, Prados, Coronel Xavier Chaves, São João del-Rei e Santa Cruz de Minas. A serra abriga unidades de conservação ambiental e é expressiva por sua biodiversidade, recursos hídricos, aspectos culturais e potencial turístico – portanto deve ser protegida, principalmente do fogo. Além disso, são significativas as atividades da SCBVT envolvendo e capacitando jovens comprometidos com a cidadania e o patrimônio.

Por suas ações relevantes, recebeu em 1994 o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, na categoria Educação Patrimonial, trata-se do mais importante do Ministério da Cultura, concedido pelo IPHAN, e foi entregue pelo Ministro da Cultura Francisco Weffort, no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. Em 2004, recebeu novamente o mesmo prêmio, na categoria Monumento Natural, entregue pelo Ministro da Cultura Gilberto Gil, no Teatro Nacional, em Brasília.

Quando o Corpo de Bombeiros Voluntários de Tiradentes comemorou sua primeira década de existência, foi realizada extensa programação cultural e esportiva, com amplo apoio da comunidade e da imprensa. Agora, quando a corporação celebra seus 25 anos de existência, a situação é diferente e adversa, principalmente considerando a crise econômica, política e ética em que o país passa. Para marcar o seu primeiro quarto de século, a corporação realizará a Caminhada Guiada aos Becos Antigos de Tiradentes.  Venha comemorar conosco o aniversário da corporação voluntária conhecendo os nossos becos e seus encantamentos.

A Caminhada Guiada aos Becos Antigos de Tiradentes será no dia 20 de agosto de 2017, domingo, com concentração a partir das 8h, na Praça da Estação e saída às 9h. A chegada será no Chafariz de São José. Essa atividade conta com o apoio do Centro Cultural SESIMINAS Yves Alves. 

Fotografia: Bombeiros Voluntários, Teatro Nacional, Brasília, 2004, arquivo do IPHAN.

QUERIDA MÃE

Autoria de Edward Chaddad

É mais um Dia das Mães, que passo sem sua presença, sem seu carinho, sem seu sorriso, sem seu jeito afetuoso e meigo, que tanto emocionava nossa família. Havia em mim, confesso-lhe, uma amargura intensa, como se uma dor lancinante penetrasse forte, tormentosa, em meu coração diante de sua ausência. Estava compenetrado, arraigado, fechado em mim com estes pensamentos e acabei fazendo-lhe um texto, exteriorizando a dor que sentia com a sua ausência, este insuportável e penoso vazio.

Ausência! Essa era a palavra que batia forte em meu ânimo, deprimindo-me; dava para sentir o sabor da melancolia. Na poesia, evidenciei estes sentimentos pesarosos, nos seus versos finais. Ao comentá-los, uma amiga alertou-me sobre a dor da ausência, dizendo que ela parece nos aliviar do sofrimento e, no poema, asseverou-me que eu havia retomado a minha vida. Para tanto, lembrou-me Carlos Drummond de Andrade, postando seu poema “Ausência”. Em seguida, disse-me para não me entristecer com a ausência, que, como diz Drummond, “é um estar em mim”, que permanecerá como saudade. E eu a compreendi e voltei novamente a sorrir.

Realmente, Mãe, esta saudade está tão forte em meu coração, que a encontro em mim. Como não serei feliz ao recordar daquela que me deu a vida, ninou e me embalou nos braços durante tantas noites, tratou-me com tanto carinho e afeto e, durante toda a vida, foi a força que me apoiou para viver e lutar, o conselho e o estímulo, para enfrentar as minhas dificuldades, sem nunca esmorecer.

Quero agora e sempre sorrir alegre ao rever as nossas lembranças, essa ausência assimilada, que ninguém mais irá nos roubar, os momentos maravilhosos que vivemos, consigo, Mamãe, todos nós, sua família, seus filhos, seus genros e nora, seus netinhos e até mesmo bisnetos. Você nos amou e nós todos a amamos. Falar de sua vida tão doada à nossa felicidade, horas de dedicação, de trabalho, de paciência, de alegrias e tristezas, é recordá-la ensinando-nos a esperança, a fé e o amor, nos seus mais singelos, porém sublimes atos de afeição a toda família.

Dos seus pertences, fiquei com alguns de seus quadros, todos bordados, com tanta arte, que parecem até pintura a óleo. Eu me emociono ao vê-los, pois sei que cada um deles consumiu meses e meses de trabalho árduo, colocando a descoberto a sensibilidade e o sentimento maravilhoso que habitavam seu espírito. São lindos. Comoventes. Vendo-os, percebo que ainda está entre nó, porque sua existência, como seus quadros, perpetua-se formosa e perfeita em nossas vidas e faz parte de nossos corações.

Mãe, você é a saudade, um legado da ausência. Está dentro de nós, como disse o Poeta, aconchegada em nossos braços. Até estou ouvindo-a cantar, no meio de todos nós, sua família, sua música preferida, “Da Cor do Pecado”, com aquela voz afável, delicada e sentimental, que me faz chorar de alegria por ter tido a felicidade de ser seu filho. Mãe, tenho a certeza que sempre estaremos juntos, rindo, alegres, amando-nos, presos e acorrentados, um ao outro, pela saudade, eternamente.