CHEIO DE NOVE-HORAS…

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Autoria de Alfredo Domingos

nove

Tia Zozó acotovelou-se na mesa de jantar e deixou escapar o desabafo:

– Este doutor Epaminondas Ramalho é um sujeito cheio de nove-horas! Isola, vou bater três vezes na madeira para que ele não volte! Veja só, Maria Eba (a sobrinha), o finório vem aqui em casa; bebe do nosso licor importado; lambuza-se de petiscos; depois se posiciona na mesa feito um deus no Olimpo, pigarreando de besta que é; faz um pratarraz descomunal sem a menor cerimônia, abusa do coelho assado com especiarias, que ficou horas em vinha-d’alhos, para melhor apurar sabor; coloca, ainda, de um tudo; devora o prato em poucos minutos, descontrolado de gula; repete a comida; arrasa o guardanapo de linho com aquele obsceno bigode gordurento; bebe três ou quatro taças do bom vinho tinto, não dispensa a sobremesa, uma ambrosia divina, e ao final, repimpado na bergère de veludo vermelho, dá-se ao desplante de censurar a liberdade que damos à educação de Catarina, afetando-se nos “erres” e “esses”. Abuso!

Aproveitando a oportunidade surgida pela confidência de Zozó, resolvo esmiuçar a expressão cheio de nove-horas: pelo jeito, o tal Epaminondas, além de glutão, é mesmo folgado e chegado a um “não me toques”, munindo-se de melindres, exigências e reprovações, com ar de quem sabe de tudo e de quem é repleto de vontades. Há de ser sempre ao seu modo, sem retoques. O indivíduo que se comporta assim, realmente, carrega o peso de ser chamado de cheio de nove-horas.

Em acréscimo, levanto a hipótese de a expressão ter surgido de um antigo rigor que impunha recolhimento às pessoas, em suas casas, às nove da noite. Quando a visita arrastava-se, o anfitrião, delicadamente, lembrava as nove badaladas do relógio, colocando a turma em retirada – será que procede?!

Nota: Imagem copiada de http://pt.dreamstime.com

4 comentários sobre “CHEIO DE NOVE-HORAS…

  1. LuDiasBH Autor do post

    Alf

    Nada é mais chato do que uma pessoa cheia de nove horas, que implica com tudo, sempre de mal com a vida. Eu corro desses tipos, assim como corro dos “donos da verdade”.

    A sua explicação procede sim, conforme explica o nosso amigo Ed, acima.

    Grande abraço,

    Lu

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    1. Alfredo Domingos

      Lu, agradeço a participação. As chatices são muitas! Vou colocar apenas uma, vinda do primo Alfeu: ao fazer visita, nunca que se retira, ficando até tarde. Mas o que incomoda mesmo é quando diz: – Se você me servir mais um cafezinho, contarei outra história. Ah, pode trazer uns biscoitos, também! É isso, fazer o quê?!
      Abração,
      Alfredo Domingos.

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  2. Edward Chaddad

    Alfredo
    Li em Malba Tahan, no seu livro, Os Números Governam o Mundo, que nove horas era o momento em que a população se preparava para se deitar e, para as visitas, era o momento da despedida. Penso que levantavam muito cedo e dormiam cedo. Diziam “”Nove horas! Nove horas! Quem é de dentro, dentro, quem é de fora, fora…”. ” Hoje, a expressão teria se transformada em “cheio de nove horas”.

    Agora, parece-se que damos esta adjetivação a pessoas repletas de etiquetas; aquelas madames com regras de educação, de como se come, como se veste, etc. Pessoas que tem excentricidades e ficam até raivosas por qualquer coisa, tornando-se, para muitos, insuportáveis pelas suas imposições e críticas e até, infelizmente, discordâncias expressas e irônicas de nosso pensar. Pode até ser considerada uma pessoa chata.São pessoas que a gente não vê, como você descreveu, a hora que ela vai embora. Tchau é a grande alegria dos momentos finais.

    Abraços

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    1. Alfredo Domingos

      Edward,
      Satisfação em ter você aqui comentando sobre este texto. Obrigado. Você tem toda a razão quanto à chatice da pessoa que tem as características do “cheio de nove-horas”. Entre as manias do indivíduo está aquela em que a pessoa começa qualquer frase dizendo “não”, mesmo que esteja afirmando alguma coisa. Outra mania é estar falando com você, segurando o seu braço, mantendo-lhe preso. Bom, por aí vai…
      Meu abraço,
      Alfredo Domingos

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