CINDERELA E O PRÍNCIPE PODÓLATRA

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Autoria de LuDiasBH

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A história de Cinderela é mais um dos dramas que acontecem com as meninas excessivamente bonitas, filhas de pais viúvos. O mesmo ocorreu com a sua amiguinha de infância Branca de Neve. Também não sei que fogo é esse que leva tais pais a contraírem novas núpcias e deixarem as filhas sofrendo neste mundo de meu Deus.

Como a vida pode ser cruel, às vezes. Com tanta madrasta boa no caminho, lá se foi o pai de Cinde procurar uma matrona já com duas filhas bem taludas. E, como se não bastasse o sofrimento causado por tais companhias, mal ele se casou e já foi batendo as botas, deixando a mocinha com a malévola e seus dois rebentos feios de fazer dó, parecendo praga de urubu magro.

É fato que a tal senhora apossou-se de toda a herança do pai de nossa amiguinha. Mas isso não lhe era suficiente. Queria também a formosura da pequena para suas despeitadas moçoilas. Como não havia ainda cirurgião plástico no reino, o jeito foi tirar Cinde de circulação. E, para isso, nada melhor que fincá-la na cozinha. Ali, a bela lavava e chorava, passava e chorava, limpava e chorava, cozinhava e comia o pão que o diabo amassou com o rabo.

O rei daquelas plagas precisava casar o seu filho que já estava bem maduro, quase caindo do cacho. Para alcançar tal intento, convidou todas as moças casadoiras do reino para uma festança no palácio, de modo a escolher a futura consorte (ou com azar) do príncipe, que tinha um vício guardado a sete chaves pelos palacianos e que por ora não ouso contar, pois não estou aqui para contar segredo de ninguém.

O convite para a escolha de uma esposa para o príncipe herdeiro botou em polvorosa todas as mães do reino, em especial a mãe das duas horroríficas criaturas, irmãs de nossa mocinha que, impedida de ir ao baile, derramava todas as águas dos oceanos pelos olhos. Mas eis que de repente, assim que a trinca da maldade deixou a casa, uma fada madrinha aterrissou na cozinha para consolar Cinde. Vinha das bandas de Avatar. Com sua varinha de condão transformou a jovem na mais luminosa donzela de todo o reino. E, por cima, ainda lhe presenteou com um deslumbrante par de sapatinhos de cristal. Como transporte, transformou uma abóbora, que estava sobre a mesa, numa carruagem; dois ratinhos, que tudo observavam,  viraram cavalos e o cãozinho da pequena, tornou-se seu cocheiro. Só havia um porém: como tudo na vida é passageiro, o encantamento só duraria até as 12 badaladas noturnas. Ou seja, a vida dá com uma mão e tira com a outra.

Cinde, ao chegar à festa, fez resplandecer o salão real. O futuro rei só tinha olhos para seus pezinhos tão delicados como os pés de um guainumbi. E, é claro, ela não foi reconhecida pelo trio malvadeza. Mas o ponteiro do relógio andava tão veloz que a lindinha mal teve tempo de sair dos braços do embasbacado príncipe. Tanto é que, na pressa, um sapatinho ficou para trás, sendo posteriormente entregue ao futuro nubente por um dos empregados.

O príncipe apaixonou-se pelo sapatinho de cristal hemisferoédrico. Não apenas dormia com ele, como não o soltava em tempo algum. Ficava horas e horas mirando aquela belezura contra a luz do sol, sob a luz da lua ou em frente às lamparinas reais. No palácio, já corria o boato de que ele tinha ficado lelé da cuca e que, se não encontrasse o outro pé de tamanha formosura, seria internado no sanatório real, onde viviam outros parentes seus. A rainha, embora tenha sido injustamente omitida na história ao longo dos anos, resolveu salvar a pele do filho. Pediu ao arauto do palácio que fosse de casa em casa para encontrar o pé faltoso, e que também trouxesse a dona dele, de modo a livrar o filho da loucura e das línguas viperinas de seu reino.

Nem é preciso dizer que somente o pezinho de Cinde coube no sapatinho de cristal e que as três perversas morreram de inveja. Acalmem-se, meus amados leitores, pois a história ainda não é finita. Sei que nunca lhes contaram toda a verdade, que me foi passada por minha amiga Cinderela, assim que o marido bateu as botas, deixando-a com uma dúzia de rebentos, também filhos, por extensão, dos sapatinhos de cristal.

A rainha, que sempre fora muito esperta e conhecedora de todas as ardilezas da alma masculina, viu que teria de usar de pulso forte para com o filho, para que ele se casasse com Cinde e desse um herdeiro ao reino. Disse-lhe que só lhe entregaria o outro pezinho de cristal, se ele lhe desse um neto. O príncipe aceitou a proposta, mas desde que Cinde usasse os sapatinhos na alcova, na hora H. Trato selado, casamento realizado e noites e noites afervoradas.

Mas um fato embaralha-me a razão: se tudo voltou ao normal após as 12 badaladas noturnas, por que é que o sapatinho de cristal também não retornou à sua origem? Teria a fada madrinha mentido sobre o feitiço, receosa de que Cinderela entregasse os sapatinhos e outras coisitas mais ao príncipe, antes do tempo?

2 comentários sobre “CINDERELA E O PRÍNCIPE PODÓLATRA

  1. Deise

    Lu

    Eu me diverti muito! Criativo e empolgante. Li duas vezes para ter certeza que não tinha perdido alguma frase. Parabéns!

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Deise

      É um grande prazer recebê-la aqui neste blog.
      Gosto de escrever o reverso da história… risos. Como gostou, veja também os outros contos de fada (impuros). Estes são especificamente para gente grande… risos. Veja, em especial, o dos Três Porquinhos.

      Beijo no coração,

      Lu

      Responder

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