COMO EU ME TORNEI COMUNISTA

Autoria de LuDiasBH

soneca

O comunismo entrou em minha vida assim como o Saci-Pererê, a mula sem cabeça, o lobisomem e o romãozinho entram na vida de uma criança, criada no cafundó do Judas: sem dó e nem piedade no que tange ao medo. Nunca me ensinaram que um comunista era um indivíduo como outro qualquer, que tinha apenas um modo diferente de ver a vida. Talvez, nem mesmo a gente da cidadezinha soubesse, limitando-se apenas às notícias do velho rádio, que ditava a ética da família naqueles idos de meu Deus. Do mesmo jeito eu vivi muito tempo, achando que judeu tinha o mesmo significado de capeta. Como sofriam as crianças, pois o saber lhes era negado, enquanto não frequentassem a escola.

O comunismo vivia bem além do meu mundo, lá no inferno, onde as almas dos maus purgam num assombro sem fim. E eu, tendo pouco conhecimento desse tipo de lugar (o que me acontece até os dias de hoje), que a tenra idade situava para além da minha capacidade de entendimento, vivia apenas um conto de terror imaginativo. E, como os pequeninos nunca perdem a capacidade de admirar as coisas do mundo, sejam elas boas ou ruins, eu me perdia no meu medo abstrato durante o dia e no concreto à noite, quando ficava sozinha no meu quarto, com sua janela de madeira pintada de azul. Meu único escudo de defesa contra os comunistas era uma frágil tramela de madeira.

Os satânicos comunistas, filhotes de Belzebu, invadiam com gritos medonhos o corredor do lado de fora do meu quarto, na tentativa de levar, não apenas minha frágil alma, mas também meu corpo, ainda sem desabrochar, para a terra da maldade, onde crianças, em cruel agonia, eram devoradas. No quarto ao lado do meu, dormiam candidamente meus pais. E, se me falavam desses demônios durante o dia, à noite jamais ouviram meus ais, ou quiçá não os levavam a sério. Eu inventava dor de barriga, dor de dente, cobra no telhado, morcego voando no quarto, assaltante na janela, cama urinada e nada de adjutório. Com a minha criatividade, usava de manhas e artimanhas, mas eles davam o caso por encerrado com um singelo:

– Boa noite, minha filha. Durma com Deus!

Como dormir com Deus se o velho corredor, onde eu brincava de bonecas durante o dia, estava infestado de diabos comunistas à noite? Deus não era tão forte quanto eles e, por isso, fugira para o alto, com seus anjos, serafins e querubins, os mesmos que frei Pelegrino apresentara-nos durante o catecismo, em santinhos de papel, verdade seja dita. E, na minha desdita, sem parente ou “derente” para ouvir meus apelos, só me restava o grosso cobertor amarelo Parayba, molhado pelo suor e pelas lágrimas, para me proteger contra esses seres tão perversos que tinham chifres e olhos de fogo.

Mal o dia clareava, lá estava eu na cozinha, esperando Lindaura, minha fada madrinha que meu pranto acalentava e meus demônios exorcizava, como se eu fosse sua filhinha. Contava-me histórias de príncipes e princesas e ensinava-me muitas trovinhas engraçadas (Subi na janela/ Pra ver meu bem passar/ Ele não passou/ Eu desci!)

Alguns anos depois, eu aprendi o que de fato significava a palavra comunista. E de raiva, muita birra mesmo pelo sofrimento de tantas noites insones, banhadas de muito suor, eu me tornei comuna, mas deles hoje já me esqueci, enquanto Lindaura e o cobertor Parayba jazem vivos em minha memória.

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