ELA ENDOIDECEU DE AMOR

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Autoria de LuDiasBH

hila123

Ana, a moça mais bela do povoado,
cabeleira preta, luzente e cacheada,
cheirando canela moída e alfazema,
era por todos os homens desejada.

A pele negra, inda tostada do roçado,
tinha reflexos vívidos e hipnotizantes.
Os olhos, vistos de perto ou afastados,
eram dois faróis a guiar os andantes.

As curvas salientes das maçãs do rosto
eram dois outeiros no ébano talhados;
sobre elas, dois fachos de luz reluziam,
arremessando labaredas pelos lados.

Era senhora do mais formoso sorriso,
enfeitiçando toda gente da localidade.
A dentadura, um feixe de pérolas raras,
aspergia brancura e sensualidade.

Não descrevo o corpo da musa negra,
com temor das reflexões não feitas,
caindo em descuidos imperdoáveis,
deixando a sensual diva imperfeita.

Um dia, ao lavar no rio sua cabeleira,
caiu de amores por um desconhecido,
que dava água ao seu fogoso animal.
Ali se iniciou o fim da diva perfeita

Como o fulgor dos ágeis relâmpagos,
os olhos cruzaram-se como por magia.
Ela, novel, ofereceu o corpo, e os dois
enroscaram-se num flâmeo coito.

O moço tomou-a nos quentes braços,
fincou sua estaca ereta no solo fértil.
Fez juras – partiu e nunca mais voltou!
E Ana, infeliz, endoideceu de amor.

E morreu Ana, a deusa do roçado,
tão linda e ingênua como nasceu.
Levou apenas um vestido branco
e um mimo de penas de sofreu.

Nota: obra de Leonid Afremov

6 comentários sobre “ELA ENDOIDECEU DE AMOR

  1. Edward Chaddad

    LuDias
    Parece até que a tal literatura francesa me persegue. Mas me lembrei, na hora, de Lamartine, nos versos que fez, Le Lac, onde retrata a sua dor em não poder tornar a ver Elvire, pela qual havia se apaixonado.
    Troca-se apenas o sexo, mas, no fundo, o amor é o mesmo.

    Seus versos foram extraordinariamente bem construídos, dando-nos uma expressão de excelência, as perfeições da donzela que dificilmente as palavras podem descrever e você as trouxe com exuberância. Porém, no amor as coisas podem acontecer e alguém não mais retornar. É difícil o amor ser bilateral. Quando isto acontece, é o triunfo da felicidade!

    Lamartine no seu poema, reflete em frente ao lago, diante da beleza da natureza, comparando-a a seu amor, que nunca mais retornou, dizendo nos versos finais:

    “que le vent qui gémit, le roseau que soupire,
    que les parfums léger de ton air embaumé,
    que tout ce qu´on entend, l´on voit ou l´on respire,
    tout dise: ils ont aimé!”

    Traduzindo, sem muito apego aos verdadeiros significados:

    “o vento gemendo, junco que suspira,
    o leve aroma do seu ar perfumado,
    que tudo o que ouvimos, vemos, ou que respiramos,
    tudo diz: eles amaram!”

    Ao final, talvez a ela não tenha restado apenas um vestido branco, mas o amor maravilhoso que em um momento de felicidade habitou-lhe a alma. E muitas vezes, para alguns, isso vale muito mais do que nada ter vivido durante toda a vida.

    Responder
    1. Hila Flávia

      Será que ainda se morre de amor? Na escola romântica de minha juventude, os jovens morriam de amor. Tive amigos que tiveram um amor de toda a vida, que não foi sequer consumido e jamais pensaram em substituí-lo. Ficou na platônica adoração. Uma prima, com inesperado romance, gerou uma filha sem jamais ter dado conhecimento ao pai do acontecido. E dizia que temia que ele tirasse a alegria, levando a filha. Lembranças assim povoam minhas lembranças de tantos e tantos anos. Não sei mais como as coisas se ajeitam agora. Mas não entendo a vida sem um grande e profundo amor. Que ele dure um momento, um tempo, uma vida, uma eternidade. Mas há de existir. Mas minha cabeça é da idade da do Edward. Cabeças românticas. Povoadas de poetas, de poesias e de sonhos. Para sempre. Mas não é para morrer. É para justificar a existência.
      Abração.

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      1. LuDiasBH Autor do post

        Hila

        Antigamente era comum ouvir dizer que as pessoas matavam-se por amor.
        Lembro-me de uma garota que, aos 16 anos tomou veneno para rato ao descobrir que o namorado, viajante de outra cidade, era casado.
        Os viajantes faziam misérias no interior.
        O mais engraçado é que ela, que era magra como um caniço, não morreu e engordou uns 10 quilos, coisa que era o sonho dela.
        Não acredito que isso aconteça mais.
        Os amores não são tão impetuosos como antes, para o bem de todos.
        Até nos filmes antigos, ao se abraçarem, os casais pareciam arrebatados, pulando um no outro… risos.

        Adorei seu comentário.

        Abraços,

        Lu

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      2. Edward Chaddad

        HILA
        Como dizia, na década de cinquenta, um filósofo caipira da zona rural de Dous Corgos (como antigamente se escrevia o nome de minha cidade e município, e não olvidem, fundada por criadores de bois de Minas Gerais, que por lá passavam anualmente, e aproveitavam para descansar à beira de dois córregos maravilhosos):

        – “Nóis sumo ancim, mermo!

        É só cantando com Luis Miguel:
        AMOR, AMOR, AMOR … nasceu de ti, nasceu de mim, da esperança!

        Responder

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