ELEIÇÕES EM CAXIXÓ DAS ABÓBORAS

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Autoria de LuDiasBH

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Caxixó das Abóboras é uma minguada cidade do nordeste mineiro, arrochada entre as serras Rola Moça e Tomba Homem, conhecida por uma meia dúzia de políticos da região que ali vão, de quatro em quatro anos, à cata dos minguados votos de seus habitantes. Se não fosse por isso, talvez descansasse em paz, longe da safadagem dos urubus de rapina da politicalha.

Se alguém cincar o caminho e descambar em Caxixó das Abóboras, ou por ali resolver vagamundear, ou se agalinhar de um desamigo, não entenderá por que aquela finfa do mundo foi librada ao predicamento de cidade. O lugarejo é traçado por uma meia dúzia de ruas com uma pracinha, onde se fincam a delegacia, com um cabo e dois soldados, um grupo escolar, a casa do prefeito, um mercadinho de secos e molhados e um posto de saúde, que abre um dia sim e dois não. Sem querer ser chasqueadora, peço vênia para dizer que as igrejolas de todos os credos, é bom que se diga, grassam e desgraçam por toda banda, sem dar um minuto de sossego aos descrentes da salvação apostolizada pelos homens.

Agora que dei ao leitor as coordenadas gerais de Caxixó das Abóboras, peço o seu beneplácito para lhe contar como decorreu a primeira eleição municipal naquele oritimbó sem prega. A cidade dividiu-se em duas bandas e a frutrica comeu de concha. De um lado estava Silivério Silva do mercadinho e do outro, dona Bilu Santos, diretora do grupo escolar. Quem não era “pau grosso” (apaniguados de Silivério), era “pau pelado” (asseclas de Bilu). As alcunhas referiam-se apenas à posição social dos candidatos, sem nenhuma notoriedade para a sabença. O fato é que o pau comeu, quer fosse ele grosso ou pelado, dando muita fadiga ao regimento de três homens, que apartava quelelê por todo lado.

O primeiro comício foi o de Silivério, Pau Grosso, que tinha uma ostentativa embirrância com Bilu e sua família de professoras. E, como era de se esperar, até por falta de conhecimentos culturais e administrativos, o concorrente caiu de xingaria em cima da opositora e sua prole. E, para que não me chamem de potoqueira, coloco aqui um taco do doctilóquio do durão:

Eu piscologiei muito para aceitar ser candidato a prefeito desta cidade. E, se eu ganhar, a primeira dimudança que vou fazer é acabar com a safadeza das professoras, pois essa corriola não serve nem para dar água pinto. Num traz pra nossa cidade nadica de nada de avançamento. O que as madrionas e mundeiras fazem? Toda gente aqui sabe, mas mesmo assim eu vou falar, refalar e trefalar. Elas botam uns livrinhos debaixo do sobaco, daí a pouco voltam pra casa, deitam com o rabiote pra cima e o cobrão vai entrando. Ninguém precisa de “sabimento”, mas de angu no prato. Por isto, vote em mim e não na cafumanga da Bilu.

Um dos candidatos a vereador, João Mingau, compadre de Silivério, usou a palavra para nobilitar seu padrinho político:

– Os adversários têm raiva de nosso candidato, porque ele não oferece o peixe, ele dá a própria vara. Este aqui é um grande homem, pois, quando a minha mulher estava na cama, ele foi montando em cima dela, montando em cima dela, até que ela sarou.

E, para dar fechamento ao comício, Orodias, vulgo Gudé, também candidato à vereança, arrematou:

– Vai de frente e volta de ré, vota no Silivério e no Gudé!

Mal terminou a falação de Silivério e seus asseclas, ela já estava abodegando os ouvidos de dona Bilu que escachoava de raiva ao escutar cada palavra, com o assentimento de seus partidários. Pediu um chá de folhas de maracujá e se enfurnou no quarto para preparar o seu espiche para a noite seguinte. Enquanto isso, Caxixó das Abóboras consumia-se no fogo das paixões políticas com desavença, bate-boca, tendepá e rezinga, de modo que até o cabo, autoridade maior do regimento, levou uma bolachada, quando tentava apartar duas arreliadas. Deu voz de prisão às chibantes para depois se lembrar de que não havia uma cela só para mulheres. Pediu desculpas e caiu na estrada, deixando o circo pegar fogo.

Os mumbavas de Bilu, Pau Pelado, chegaram cedo à praça, quando o sol ainda alumiava as duas serras. Aguardavam a mestra e, principalmente, a descompostura que iria dar no enxerido e sem vergonha do Silivério. Ela, além de ter muita sabença, era também uma mulher corajuda pra macho nenhum botar defeito. Só restava aguardar o esbregue. Zé do Leite, um dos mais exaltados, chegou a comentar:

– Silivério me procurou fazendo-se de amigo. Ele pensa que passa mel em minha boca, mas ele passa é bosta.

A candidata Bilu chegou às 19 horas em ponto, acompanhada das três filhas e das outras professoras do lugar. Foi logo trepando no palanque, acompanhada dos candidatos a vereadores de sua facção. Entre eles estava uma de suas seis filhas, Rosa Imaculada. Dona Bilu foi a primeira a tomar a palavra, de modo que nunca se viu em Caxixó das Abóboras tantas cobras, escorpiões e lagartos saírem de uma só boca. Sua gente aplaudia veementemente. Ela até rimava nas palavras, enquanto espumava de raiva. E, para que não se abasbaquem com a minha narração, sinto-me impelida a postar, ipsis litteris, um trecho da loquela:

– Contaram-me que o biltre do Silivério andou metendo o pau em mim e nas minhas filhas pelas costas. Mas, se ele for torunquenga, como canta de galo, eu gostaria que ele viesse meter a língua é na frente. Acreditem, meus amigos, nós iríamos gozar até danar na cara dele. O tal Pau Grosso iria sair todo desconjuntado. E Caxixó inteira tomaria conhecimento de que aquele estólido, lapantana, maninelo, pacóvio e sandeu ficou três dias na cama, todo esbodegado.

O candidato a vereador, Tião Mancola, foi encarregado de fechar a assembleia geral e achou por bem dirigir-se aos eleitores do pequeno povoado vizinho, sua terra de procedência:

– Povo que povoa o povoado do Pavão, eu sei muito bem de que vocês precisam, pois vejo todo mundo reclamando. Se eu ganhar, eu vou tapar os buracos das velhas, alargar as mais ou menos novas e rasgar um monte de novinhas em folha. E vou deixar todo mundo gozando de alegria.

Devo contar a meu leitor que havia um terceiro candidato, Zeca de Biliza, o Pau Seco, totalmente desprovido de sabença e de vintém. Se até agora dele não falei, não foi por pouco caso, mas pelo fato de não feder e nem cheirar. Trafegava de um lado para outro, sem incomodar ou ser incomodado. Ia ao comício de um e de outra, que a ele se referiam com carinho, tentando abocanhar os votos de sua família.

Pois bem, o dia da eleição chegou e a ordem parecia ter se instalado na cidade, seguindo a orientação vinda do TRE. Nenhum dos candidatos queria ter seus votos anulados. Caxixó das Abóboras aquietou-se, caindo na sua insignificância como dantes. Após a votação, as urnas seguiram para Montes Claros, onde se daria a apuração. E foi aí que o tiro saiu pela culatra para Pau Grosso e Pau Pelado, pois:

Zeca de Biliza, o Pau Seco, foi eleito prefeito de Caxixó das Abóboras.

Tradução regional:
• Cobrão – é aumentativo de cobre e significa dinheiro.
• Vara – é a usada para pescar.
• Ele foi montando em cima … – dando suporte, ficando de cima e ajudando.
• … mas ele passa é bosta – significa que ele é esperto e não se deixa enganar.
• Tião Mancola em sua fala refere-se às “estradas”.

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