ESTREIA COM CHAVE DE OVO

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Autoria de LuDiasBH

ovo

Encontrava-me na casa dos meus seis anos, quando fui escolhida para participar de uma festa de Páscoa na escola. Ao final da peça havia uma dança, apresentada por doze meninotas vestidas de coelhinhas, com a roupagem confeccionada em veludo branco (só os rostinhos ficavam à vista), carregando, cada criança, uma cesta com uma dúzia de ovos. Aos afoitos devo dizer que, à época, ainda não fazia parte das coelhinhas da revista Playboy. Digamos que fosse apenas o primeiro ensaio para uma carreira promissora que viria a seguir.

Eis que chegara o dia esperado. A cidade em peso estava presente ao evento, com as autoridades assumindo as primeiras cadeiras perto do palco, e os pais pipocando de ansiedade para verem seus rebentos subirem os degraus da fama, pois, dali para  Hollywood era um pequeno passo, como o de Armstrong na Lua.

Como o meu leitor é inteligente, deve presumir que era um dia quentíssimo, pois, a Páscoa ocorre sempre no verão, neste nosso maravilhoso país tropical. As coelhinhas eram as responsáveis pelo fechamento da festa. E deveriam fazê-lo com chave aurífera. A responsabilidade era bem maior do que poderia arcar a nossa capacidade infantil.

Na ânsia homicida de ver os seus rebentos brilharem, as mães arrumaram-nos já no início do evento, e puseram suas pobres coelhinhas assentadas dentro de um quartinho que ousaram chamar de camarim, pedindo-lhes para ter cuidado com os ovos e a roupa. Os pais, muitas vezes sem perceberem, transformam-se em algozes em série, perdendo todo e qualquer laivo de racionalidade.

E vêm os discursos: do padre, do prefeito, do vice, do presidente da Câmara dos vereadores, da diretora, do representante da associação de pais, dos coelhinhos da região (brincadeira) e a gente suando em bicas. Cada coelhinha encontrava-se mais pálida do que a outra, lutando contra um iminente desmaio. E vêm teatrinho, recitações, corais, e as coitadinhas desfazendo-se num humor aquoso incolor, de odor particular, segregado pelas glândulas sudoríparas, e sendo eliminado através dos poros da pele de veludo das coelhinhas imoladas, grudando na segunda pele dos animaizinhos indefesos, a esperar a glória que nunca chegava. Nenhuma pessoa, com um mínimo de massa cinzenta, foi capaz de pensar que pudéssemos estar sofrendo com o calor.

Depois de quase quatro horas de suplício infligido às menininha, as coitadas foram chamadas ao palco. Para que o leitor penetre no cerne do enredo, explico-lhe que devíamos cantar em roda, com a cesta de ovos num braço, e levantando o número cantado de ovos na outra mão. Começaríamos com um e iríamos até três. Apenas o refrão da música:

Coelhinha da Páscoa o que trazes pra mim? Um ovo, dois ovos, três ovos assim…

A maior falta de perspicácia dos promotores do forrobodó foi não terem percebido que nossas mãos, pequenas e frágeis, mal aguentariam segurar um ovo de galinha, quanto mais três. Se fossem pelo menos ovos de garricha ou de codorna…

Todas as coelhinhas conseguiram levantar um ovo, umas duas foram capazes do feito de levantar dois, mas nenhuma conseguiu erguer três. Os ovos começaram a cair no chão, quebrando-se, e elas ia repondo-os. O tablado do palco mais parecia uma omelete com quiabo prestes a ser levada ao fogo. Como se não bastasse a queda dos ovos, nós também começamos a escorregar e a cair naquela sujeira.

O auditório malévolo, pecaminoso e cruel começou a dar gargalhadas diante de tamanha arte. Nisso, perdemos a concentração tão essencial aos artistas em foco, e começamos a jogar ovo umas nas outras. A risada do populacho foi geral. Então resolvemos entrar na guerra de verdade e jogar o resto dos ovos na plateia. Numa dessas, uma de nós acertou o vestido azul da primeira dama. A diretora correu para conter os petardos atirados na plateia e escorregou no palco, caindo de bunda no chão.

Nesse ínterim, não havia uma pessoa que não estivesse rindo e batendo palmas. Acabamos por fechar a festa com CHAVE DE OVO. E foi assim que começou a minha carreira de coelhinha da Playboy. Mas aí é outra história..

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