EU ME SE ENRASQUEI TODO

Siga-nos nas Redes Socias:
FACEBOOK
Instagram

Autoria de LuDiasBH

cabo

Geraldo Mijalonge, filho de Diosório e Ambrosina Mijalonge, cansado de viver sem emprego e de andar rua acima e rua abaixo, resolveu aceitar o convite de um amigo para colher café no interior paulista. Tirando o frio e a saudade da família, ia tudo muito bem, até receber uma carta de sua tia e madrinha Gesulina, moça solteira, que em sua mocidade havia recusado bons partidos, para poder zelar pelos bons costumes e pela honra da família.

Antes de entrar nos entretantos, é bom que o leitor saiba que antes de partir, Geraldo fez mal a Kateursa, ainda “de menor”, deixando a coitada com uma semente plantada no ventre. Naquela época, bem diferente dos dias de hoje, era de praxe casar o responsável pelo “emprenhamento” da vítima. Porém, a favor do apressado, devo dizer que o moço partiu para Jaú sem saber que deixava para trás uma sementinha sua germinando.

Ao tomar conhecimento de que o bucho da moça estava crescendo, e que o mal fora engendrado por seu sobrinho, tia Gesulina enviou-lhe uma missiva, pedindo-lhe que voltasse com a devida urgência ao Arraial dos Onça. E, como a tia e madrinha era dona da mais conceituada deferência e sisudez, Geraldo não pensou duas vezes. Fato que quase o enlouqueceu, pois mil caraminholas vieram fazer ninho em sua cabeça. Imaginou até que sua santa mãezinha já pudesse estar debaixo do chão. Quem reparasse nele, durante a viagem, poderia perceber que uma tristeza profunda tomava conta de seu rosto fino.

Mal Geraldo jogou a mala na beirada da cama, a madrinha trancafiou-se com ele no seu quarto, dando-lhe ciência da situação e, ao mesmo tempo, repreendendo-o por sujar o nome dos Mijalonge. Só naquele momento, ele pode compreender o porquê de tantas portas e janelas abrirem-se à sua passagem pela Rua dos Cabritos, antes de chegar à casa. Chegou até a pensar que fosse por causa de sua vestimenta moderna: camisa volta-ao-mundo vermelha, botina bicho-do-mato, chapéu panamá, calça de tergal e a companhia de um vistoso rádio que tocava fita cassete. Sabia que os quatro meses em que estivera ausente do lugar e o dinheiro no bolso tinham lhe dado um bom trato. A notícia jogara-o num despenhadeiro sem fundo.

Tia Gesulina só lhe deu uma opção: casar-se com Kateursa o mais depressa possível, para tapar a boca do povo, antes que a família da moça fizesse o casamento na polícia, jogando na lama o nome dos Mijalonge. O mal cometido teria que ser corrigido, sem choro e nem vela. E não adiantava faniquito e nem estrebuchamento. Mas Geraldo revoltou-se com a situação, dizendo que fora a fêmea que o visitara no quarto, sendo-lhe impossível evitar o chamego, que resvalou para os finalmentes acalorados. Achava que a tia não podia exigir dele tamanho sacrifício, pois já estava se amancebando com uma caipira paulista. E assim se deu o abocamento:

– Eu me vim para cá, minha tia, achando que se tratava de doença na família. Mas percebo que eu me se enrasquei todo, pois a senhora quer que eu me case com alguém que não me levanta nem uma pena do rabo por cegueira de amor. Eu me vou é voltar de onde vim e quero ver se alguém me obriga a casar. Eu me sou muito homem para tomar minhas decisões.

Madrinha Gesulina espumou de raiva com o tamanho do topete do moleque, de quem ajudara a limpar os quartos:

– Mulher não se emprenha sozinha, seu galo carijó, e, se seu garnisé não tivesse levantado o bico para a franguinha, pinto nenhum estaria nascendo. Você vai ter que abandonar as outras galinhas, para tomar conta de seu poleiro aqui, nem que tenha que ser cozido num caldeirão de cobre.

Respondeu o renitente:

– Minha tia e madrinha, eu não me caso nem que me tussa a vaca.

A madrinha ainda mais apoquentada gritou:

– Cale a boca, infeliz rabicó, e pare com esse ME, essa bobice que você trouxe de lá daquelas terras. Converse feito homem.

E Geraldo, ameigado, explicou-se:

– Num dá, madrinha, eu já Me acostumei. Nem querendo eu Me deixo de falar Me. A senhora Me entende?

O casório realizou-se uma semana depois, com Geraldo trajando pomposas vestes pretas e Kateursa com seu vestido tufado de seda vermelha sintética, para esconder o arredondamento da barriga já saliente. As alianças foram um presente da tia e madrinha zelosa. Prazenteiro, Geraldo fez um longo discurso, regado à água-benta e à água-bruta. E arrematou:

– Estou-Me muito satisfeito com a presença de todos. Quero agradecer a um por um pela honra que Me já dão neste dia, que Me é muito feliz.

Tia madrinha Gesulina desmaiou e só foi acordar no dia seguinte, pedindo a Deus misericórdia para aguentar os “MES” de seu afilhado.

Nota: Artesanato do Vale do Jequitinhonha

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *