O MACHO QUE NÃO URINOU NO AVIÃO

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Autoria de LuDiasBH

avião

Até os meus 52 anos, eu nunca tinha saído por aí borboleteando pelo ar, pois macho que é macho anda com os pés na terra, seja ela preta, roxa, vermelha ou asfalto. Se fosse para o homem voar, o Criador tinha tacado nele um par de asas das boas. Não pensem os amigos que a minha birra esconde algum medo de andar de avião. De jeito nenhum! Eu nasci com a pistola roxa e não corro nem mesmo de mula sem cabeça ou lobisomem. O caso é que a gente faz um plano e o Chefão lá em cima faz outro. E com Ele não se pode medir forças. Por isso, acabei caindo na esparrela. Vou sair da lenga-lenga para entrar nos finalmentes. Preparem os cintos!

Mês passado, tive que entrar numa dessas geringonças que cortam os céus feito pássaro de arribação. Confesso que fiquei contrariado, mas o safado de meu irmão em vez de pedir a extrema-unção, cismou de ficar exigindo a minha presença junto a seu leito de morte. Ele lá no Rio Grande do Sul e eu no Rio Grande do Norte. Preparei-me para pegar o ônibus, mas um telefonema de última hora avisou à família que o infeliz não aguentaria ver o sol nascer por mais um dia. Estava desenganado, só esperando a hora de ser chamado para a viagem dos pés juntos. Mas continuava pedindo a presença de seu padrinho e irmão mais velho, que não é ninguém mais do que esta pobre alma que aqui narra sua abilolada história.

Após receber o fatídico interurbano, a família embirutou geral e exigiu que eu pegasse o primeiro voo noturno. Já começou mal, pois a noite foi feita para o homem descansar o esqueleto. Nem os pássaros ousam desafiar os céus quando o negrume da noite desce. Mas lá fui eu, praticamente enxotado de casa feito cachorro com o rabo entre as pernas, cumprir minha sina de cruzar os céus de norte a sul do país. Tremi de raiva, jamais de medo. Antes de sair de casa tomei umas quatro canecadas de leite de cabra para ganhar sustância, pois é sempre bom sair com o bucho forrado em qualquer viagem. Vai que a condução quebra.

Já dentro da aeronave, uma moça muito delicada passou servindo refrigerantes e sucos, mas nada de uma boa caninha. Para não ser deselegante e mal agradecido, tomei um copo cheio de qualquer coisa e mordisquei um lanchinho danado de magriço, que não tapava nem os buracos dos dentes. Depois, começaram a passar um filme com aquele cara fortão que virou governador nos Estados Unidos e agora levou um bota-fora da mulher. Mas isso é problema dele, pois aqui estou em luta com os meus. De novo a moça delicada voltou oferecendo mais líquido. Quando o filme estava na melhor parte, comecei a sentir vontade de mijar. Mas me segurei, pois dava para aguentar mais um tempo a bexiga cheia, unindo bem as pernas e desviando a atenção do incômodo.

Estava tudo caminhando na maciota até que um solavanco balançou tudo, acordando os que estavam dormindo e arregalando os olhos de quem estava acordado. Uma moça, parecendo um anjo de formosura e com uma voz de curió, pediu calma. Avisou aos passageiros que o avião estava atravessando uma zona de turbulência e que logo tudo voltaria à normalidade. Todos deveriam permanecer em seus lugares, atrelados aos cintos de segurança. Inclusive eu com a minha bexiga estourando.

Meus irmãos, a tal turbulência não passava coisíssima nenhuma. Ao contrário, só ia aumentando. O avião vascolejava de ponta a ponta feito caminhão velho. Eu me sentia como um limão sendo bamboleado para uma caipirinha. Já estava para lá de tonto. E a bexiga querendo se arrebentar. Não sentia nem um tico de medo do chocalhado, pois sou muito macho. Fui criado enfrentando touro. Mas eis que chegou certo momento em que o bicho começou a descer a trancos e barrancos. A tripulação pedia calma com voz tremida, enquanto a gritaria das gentes enchia o recinto. E eu querendo urinar. Nenhum arrepio de acovardamento existia em mim. Só a moringa danada de cheia querendo estourar.

Então, amados amigos, “piscologiei” e descobri a causa do problema daquele avião: estava pesado demais. Não havia um assento vazio e, pelo tanto de malas que vi botarem nele, estávamos todos num espaço sem cachorro. Mas eu precisava urinar. Foi aí que tomei tenência e resolvi que não iria contribuir com mais peso, enchendo o vaso com meus três litros ou mais de urina, pois lá em casa, a mulher sempre falava que eu mijo do tanto de um boi. Quanto menos peso no avião melhor seria para ele voltar a aplainar. Não sei por que essa gente metida a besta, que constrói essas máquinas que cortam o ar, não deixam um buraco para sair o mijo e seu acompanhamento. Vai ver que tem medo de sujar os anjos que adejam pelo céu.

A máquina continuava desembestada. Gritos e uma barafunda dos diabos tomavam conta de tudo, e eu necessitando de mijar, mas não queria ser responsável por uma fatalidade. Tranquei os dentes, enrosquei as pernas uma na outra e segurei fortemente o bico do penoso, para impedir a saída de uma gotinha que fosse. Afinal, todo macho é dono de sua própria vontade. Só não sei o que sucedeu depois que o avião ficou de bico para baixo, como gaivota pescando sardinha, pois perdi a noção de tudo o mais.

Hoje, caros amigos, eu lhes narro o sucedido daqui da zona de espera, aguardando São Pedro dar seu veredito sobre minha vida aí na Terra. Enquanto isso, meu irmão, aquele cabra da peste, já se recuperou de sua moléstia e está visitando minha família lá no Nordeste, para consolá-la pela minha partida inesperada.

Assim que cheguei a este lugar, encontrei certo guardião e lhe perguntei se eu havia apeado com as calças molhadas. Ele disse que não. Como vocês veem, eu fui muito macho aí na Terra, pra macho nenhum botar defeito. Se todos nós fomos para o Beleléu, a culpa não foi minha, pois eu não mijei para não pesar mais o avião. Vai ver que outro safado encheu o vaso e deu no que deu.

Eu sou mesmo é muito macho! Morri, mas não provoquei uma fatalidade!

8 comentários sobre “O MACHO QUE NÃO URINOU NO AVIÃO

  1. Patrícia

    RSRSRRRS

    Lu,

    que conto ótimo. Me diverti muito. Na hora em que o cabra macho tomou quatro canecas de leite de cabra, imaginei uma série de situações e não conseguia parar de rir.
    Sua criatividade é fantástica.
    Adoro este regionalismo!

    Muitos beijos

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Pat

      Já tomei muito leite de cabra quando criança.
      É uma delícia.
      Essa prática ainda é comum no Nordeste brasileiro.

      O cabra macho ficou com medo de ter que descer na viagem, para se alimentar… risos.
      Ainda tenho muitos causos para contar.

      Beijos,

      Lu

      Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Mário

      O macho morreu na queda do avião… risos.
      Mas saiba que ele não urinou no avião.
      Agora está esperando o julgamento de São Pedro… risos.

      Abraços,
      Lu

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  2. LuDiasBH Autor do post

    Hermes

    Eu gosto muito de trabalhar com a linguagem regionalista.
    É uma forma de provocar boas risadas nos leitores, pois os termos estão cada vez mais distantes de nós, que vivemos nas grandes cidades.

    Confesso que ainda luto com o medo e o prazer de estar acima das nuvens.
    Tenho um amigo, que tem medo de avião, que diz:

    “Se Deus tivesse feito o homem para viajar pelo céu, teria lhe dado asas.”

    Gostei muito de seu comentário e de sua presença aqui no blog.
    Saiba que a casa é sua.
    Volte sempre!

    Abraços,

    Lu

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  3. Hermes Marcondes Lourenço

    Adorei o texto, principalmente uma mulher criando pensamentos em protagonistas masculinos, e olha que não é uma tarefa fácil! Amei o regionalismo. Deu vida ao personagem. Particularmente odeio aviões e em meu ponto de vista, já vi muita gente amarelar na hora da turbulência. Penso da mesma forma que o Mr. Sthephen King: “Enquanto houver ao menos uma pessoa em voo que tenha medo de avião, certamente a viagem será segura”.
    Com base nessas palavras, lhe asseguro que já salvei a vida de muita gente.
    Um forte abraço!

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