Fábula – A ANDORINHA E AS OUTRAS AVES

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Recontada por LuDiasBH

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Certa andorinha, que em suas migrações cruzara variadas latitudes, trazia consigo um grande saber sobre as coisas do mundo. Até mesmo os viajantes dos mares levavam em conta o seu aparecimento, predizendo, muitas vezes, grandes tempestades. De uma feita, estava ela num campo arado, quando viu um grupo de trabalhadores ali lançarem sementes.  Chegou mais perto e reconheceu tratar-se das sementes do cânhamo. Chamou as aves que  viviam no local e também as dos arredores e explicou-lhes pacientemente:

– Amigas, um grande flagelo ameaça a vida de vocês. As sementes que foram jogadas na terra são do cânhamo. Elas logo ganharão vida, crescerão e alastrar-se-ão por todos os lados. E darão vida a cordas, com as quais serão feitas redes, laços e balaios capazes de prender a ave mais vigorosa de todas vocês. Juntem-se em grupos e comam todas estas sementes, enquanto é tempo. Previnam-se antes que a desgraça ganhe corpo.

Indiferentes, as aves não levaram a sério as palavras da andorinha. Havia muito o que comer naquelas bandas para se preocuparem com umas sementezinhas à toa. Além disso, a andorinha viajava tanto, que já devia estar misturando alhos com bugalhos. Suas predições não eram para ser levadas a sério. Sem que nada fosse feito, a plantação brotou exuberante. E novamente a andorinha chamou as aves para um alerta:

– Amigas, eu não falo por mim, pois posso viajar para outros lugares distantes, de um hemisfério a outro, mas por vocês que aqui vivem. As plantinhas encontram-se ainda tenras. Arranquem cada talo delas, para que não venham a crescer e tirar-lhes a vida ou a liberdade.

E novamente as aves mostraram-se indiferentes. Agora eram também zombeteiras, chamando a andorinha de agourenta adivinhadeira, sibila de araque.  E quando as plantas cresceram, a compassiva andorinha alertou as aves para que fugissem daquele campo, recolhessem seus ninhos e botassem-nos em outros lugares. Elas eram incapazes de sobrevoar os mares e desertos, mas poderiam se esconder até mesmo nas brechas das paredes das casas e igrejas ou no oco das árvores mais altas das redondezas, mas que ali não permanecessem.

Já sem paciência com a andorinha, as aves puseram-se a piar em conjunto, fazendo um alarido geral. E entre bicadas, expulsaram-na do local. Mas não demorou muito para que o bicho-homem, com suas cordas, laços e balaios, um sem conta de aves encarcerasse,  aprisionando-as para comer ou por sádico divertimento. A andorinha encontrava-se agora, no hemisfério norte, longe de todo aquele flagelo por ela vaticinado, lembrando-se de que quem não ouve conselho, ouve “Coitado!”.

Reflexão
Na essência, o ser humano parece ser o mesmíssimo de priscas eras. Por mais que tenha aprendido a racionalizar, certos comportamentos continuam arraigados no seu inconsciente. Apesar dos avanços da Ciência, o passo humano, no que se relaciona consigo mesmo, é ainda muito debilitante, pois o sujeito da ação ainda não conseguiu derrubar as amarras do egocentrismo. Ainda não foi capaz de ajustar ética com amor-próprio.

Um desses comportamentos é o fato de o homem só dar ouvidos àquilo que lhe interessa, ou, melhor dizendo, ao que serve a seus propósitos mais imediatos. Por isso, não procura fazer uma análise mais apurada dos fatos, colocando na mesa os prós e os contras, para daí tirar uma conclusão. O interesse próprio e imediatista vem em primeiro lugar. O ser humano não é afeito aos resultados em longo prazo, talvez pelo medo de que não esteja vivo para deles aproveitar. Nem mesmo o argumento de que sua descendência irá usufruir das coisas boas que virão é motivo para, pelo menos, nublar seu interesse próprio.

Outro aspecto paradoxal é o fato de que o homem é o único animal que possui fé e, portanto, crê na existência do bem e do mal. A grande maioria da humanidade possui crenças e com elas comunga os mais variados preceitos. Contudo, essa fé no divino conspurca a fé no terreno, de modo que um esmagador número de pessoas somente crê no mal quando esse se encontra à sua porta, e nada mais se pode fazer, como aconteceu com as aves de nossa fábula.

Nota: imagem copiada de femmbiologia.blogspot.com

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