Fábula – A MORTE E O LENHADOR

Recontada por LuDiasBH

CarlenUm paupérrimo camponês, a quem cabia a triste sina de abater árvores e carregar seus galhos e troncos para aquecer os nobres do reino onde vivia, tendo para si e sua família apenas os gravetos que despencavam pelo caminho, certo dia, curvado pelo excessivo peso que carregava nas costas, parou para descansar. Mas sua exaustão era tamanha, que não conseguia voltar com o fardo para onde estivera. Inúmeras vezes ele tentou levantar sua carga, mas sem conseguir seu intento, mostrando-se cada vez mais esfalfado.

 O pobre homem, com o corpo moído, doendo-lhe das cabeças aos pés chagados, pôs-se a refletir sobre a miseranda vida que levava. Valeria a pena nascer para levar aquele tipo de existência? Por que alguns saboreavam a vida em toda a sua plenitude, enquanto a outros cabiam cargas como a dele? Onde estaria seu Deus que não via tanta desumanidade e injustiça grassando pelo reino? Se todos eram seus filhos, por que a uns cabiam as benesses do existir e a outros os encargos hostis e de cumprimento doloroso? Por que alguns enfeitavam o corpo com joias e outros com as cicatrizes do labor estafante? Concluiu o camponês que o melhor seria a Morte.

 Ao tentar levantar sua carga mais uma vez, o sofrido homem tombou junto com ela. Gemia tanto que até os pássaros, pousados nas árvores próximas, puseram-se a observá-lo condoídos. E foi aí que ele gritou pela Morte, que prontamente apareceu, inquerindo:

 – Você me chamou, meu filho, e eu estou aqui para botar um fim em sua atribulação. Siga-me!

 – Minha senhora, eu só a chamei para me dar um auxílio, ou seja, para ajudar-me a colocar esta carga nas costas, já que os passarinhos não podem me dar um adjutório.

 Reflexão

Não resta dúvida de que há momentos na vida do fraco em que o peso é infinitamente maior do que aquele que ele pode carregar. Ainda assim, caminha com passos vacilantes, cai aqui e acolá. E ao olhar para o topo da pirâmide social, revolta-se por ocupar sua base, sustentando aquele avultante pesadume em suas costas. E como tem consciência de que o topo de tal pirâmide humana jamais lhe dará um cantinho, questiona o ser abstrato que direciona suas ações – Deus. Cobra-lhe justeza no trato com todos os filhos que espalhou pela Terra. Renega sua vida sem sentido, norteada apenas pelo sofrimento. Também não se vendo contemplado com respostas paras suas indagações, parte em busca do que há de mais concreto na existência humana – a dona Morte. Ela não falha nunca.

Apesar da vida de pouca valia que o empurra para frente, o fraco também não quer morrer. E com toda razão julga que lhe é de direito permanecer no planeta em que nasceu, tal e qual as outras partes mais altas da pirâmide social. E, como o ser abstrato pelo qual clama não lhe deu resposta alguma, chega à conclusão de que é preciso lutar com mais empenho por uma fatia do bolo. Não mais adianta sonhar com um retângulo social em que todos, como iguais, perfilam-se lado a lado. Chega de utopia!  É preciso botar a mão na massa e cavar seu próprio espaço. Nada melhorará sua vida de mão beijada, pois assim o disse o poeta Gonçalves Dias : “Não chores, meu filho;/ Não chores, que a vida/ É luta renhida:/ Viver é lutar.”.

Embora nutra apreço pelo trabalho social, sem segundas intenções ou objetivos escusos, que fazem certas religiões, também não posso deixar de criticar a lavagem cerebral que fazem nas pessoas, ao tratar a vida na Terra como um lugar de dores e privações, mas que é preciso ser aceito, pois o paraíso virá depois da morte. As duas afirmações estão incorretas. 1- A vida na Terra é um verdadeiro paraíso para uns poucos, apesar dos contratempos, e um inferno para um sem conta de pessoas. Tudo depende da posição social em que cada um se encontra na bendita (ou seria maldita?) pirâmide social. A Terra, como continente (figura de linguagem) é maravilhosa, mas seu conteúdo é lamentável, principalmente no que diz respeito à vilania na divisão de riquezas. 2- A morte virá, isso é tão certo como o Sol que alumia o nosso planeta, mas o paraíso, após sua visita, ainda não foi confirmado cientificamente, existindo apenas em meio às abstrações religiosas. E entre o certo e o duvidoso, o melhor mesmo é tentar ficar o maior tempo possível por aqui, mas vivendo com dignidade.

Nota: imagem copiada de www.canstockphoto.com.br

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