Fábula – A PANTERA E OS HOMENS

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Recontada por LuDiasBH

pantera

O bom do mundo é que grandes e pequenos correm os mesmos ricos, sendo tudo questão de tempo, embora seja fato que os pequenos estejam sempre na linha do perigo. E foi dentro desta perspectiva que uma pantera, que andava meio afaluada, caiu dentro de um profundo poço. Muitos fazendeiros e lavradores testemunharam tamanho infortúnio, mas foram poucos a condoer-se com a desgraça da Phantera pardus. Alguns a cobriram de pedras, enquanto uns poucos, compadecidos, jogaram-lhe nacos de pão, imaginando que assim poderia manter pelo menos seu espírito livre.

A noite desceu. Todos os presentes retornaram-se para suas casas, deixando o pobre bicho à própria sorte, em agonia. Contudo, os nacos de pão, a suavidade da noite e a claridade da lua refizeram suas forças, dando-lhe vigor para que conseguisse sair do poço, pois, como lhe ensinara seu avô, podemos aguentar mais do que pensamos ser capazes. E assim, voltou a seu covil, onde se revigorou plenamente.

Dias depois, fazendeiros e lavradores passaram a encontrar muitas reses mortas, espalhadas pelo campo. Dentre essas se encontravam também muitos lavradores. O animal mostrava-se possesso com os homens, matando tudo que encontrava pela frente. Amedrontado, um grupo de lavradores e fazendeiros resolveu ir até à toca da pantera, para lhe pedir clemência. Como resposta ouviu da fera:

– É durante o medo que os nossos sentidos ficam mais aguçados. Naquele poço, eu me encontrava indefesa e frágil. Enquanto alguns homens cobriram-me, viva, com pedras, uns poucos me atiraram pedaços de pão. Os últimos nada terão a temer, mas serei inimiga tenaz daqueles que me feriram, quando me encontrava indefesa.

Reflexão
Por mais que saibamos que o perdão é necessário para continuarmos sadios física e mentalmente, nosso subconsciente acaba registrando os acontecimentos desditosos de nossa vida, pois eles são indeléveis. Ainda não existe uma borracha capaz de apagá-los por completo, no muito, ficam adormecidos. E, quando menos esperamos, eles voltam à tona, com uma força inesperada.

Muitos indivíduos há que tratam seus subordinados e pessoas mais simples, como se fossem senhores absolutos de seus destinos. Humilham-nos, subestimam-nos e enganam-nos, jamais lhes passando pela cabeça que a vida é uma gangorra, que ora sobe e ora desce, sem levar em conta o status social de ser algum. E é nisso que se revela sua justeza. Ninguém é capaz de avaliar em que degrau da escada encontrar-se-á amanhã. Se a mudança não é feita pelo amor, que o seja pela dor.

Confesso que me encanto com esse sobe e desce de nossa existência, essa imprevidência que não assina para ninguém o termo de posse da felicidade, da permanência da riqueza, da imutabilidade do poder e da supremacia sobre os mais humildes. Por isso, caem reis de todos os naipes, pois no baralho da vida somos todos iguais. Com a pantera, nós aprendemos que a vida é uma balança. Quem se encontra num buraco hoje, amanhã poderá estar acima e negar-nos sua mão. Nada como a generosidade, em quaisquer que sejam as situações, pois o dia de amanhã é um jogo, mas sem cartas marcadas.

Nota: imagem copiada de criancafelizealfabetizada.blogspot.com

2 comentários sobre “Fábula – A PANTERA E OS HOMENS

  1. Edward

    LuDias
    Maravilhosa a sua compreensão da fábula. Realmente, e esta expressão eu a guardarei, “a vida é uma gangorra, que ora sobe e ora desce, sem levar em conta o status social de ser algum”. Já presenciei muitos e muitos casos assim. Pessoas que não pedem, mandam. Batem. Destroem amizades e famílias, como se a imutabilidade existisse.

    Tudo pode mudar. E, por vezes, encontram-se em posições adversas. O maltratado agora tem o poder. Aquele que maltratou perde todas as suas forças e condições de vida. Esta é, de fato, a vida, como a fábula deixou claro. E a pantera – o homem que se torna poderoso – realmente tem todas as condições de perseguir aqueles que o maltrataram, inclusive com crueldade. Porém, levantar, dar as mãos ao derrotado, caído ao chão, pode ser nossa grande virtude, quando principalmente há dentro nosso coração muito amor. Assim, embora possamos ter ressentimentos em relação às pessoas que nos trouxeram sofrimento, o importante porém, e a fábula não nos mostra, é termos condições de deletar o que passou, e buscar sempre a reconciliação, uma nova vida. Talvez, amanhã possamos cair novamente no fundo do poço e nos arrepender, mas eu creio que é o que temos que fazer.

    Abraços

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Ed

      As fábulas possuem o dom maravilhoso de nos trazer belas lições de vida. E, para se ter coerência, o mundo dos bichos é tal e qual o dos humanos. Por isso, é tão difícil esquecer as ofensas recebidas, pois as cicatrizes ficam para sempre, ainda que haja o perdão.

      Gosto muito quando você analisa as fábulas, pois acrescenta a elas sua grande sabedoria.

      Abraços,

      Lu

      Responder

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