Fábula – O AVARO E SEU TESOURO

Recontada por LuDiasBH

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Certo homem era de uma avareza a toda prova. Não vivia para si, mas para seu tesouro, durante anos acumulado. Junto a seu ouro enterrado estavam o suor de seus funcionários, a saliva de seus corpos famintos e a dor advinda das doenças não tratadas, em razão da miséria que recebiam como salário, pois o patrão era escravo da própria fortuna. O mais miserável dentre os miseráveis.

 O somítico nem mesmo conseguia dormir. Acordava-se à noite e punha-se a pensar em sua riqueza, amedrontado com a possibilidade que dele fosse tirada. Mal clareava o dia, dirigia-se ao local onde fora enterrado o baú. Cavucava a terra, mirava a fechadura para ver se estava em conformidade com o que  deixara, acariciava o baú e repunha a terra, não se esquecendo de botar folhagem seca por cima. Ao meio-dia voltava ao local e repetia o mesmo ritual. E assim também agia ao anoitecer.

 De uma feita, o sovina foi seguido por alguém, que acompanhou seu ritualístico proceder. Não é de se espantar que, ao retornar ao local, nada encontrasse.  Em flagrante desespero, pôs-se a bradar aos céus, como se alguém estivesse a tirar-lhe a vida. Um amigo, que pelo lugar passava, correu para acudi-lo. Ao ver que se encontrava só e sem nenhum perigo aparente, perguntou-lhe o porquê de tamanho desespero. Ao que ele respondeu entre gritos pungentes:

 – Roubaram o tesouro que aqui guardei. Sou agora um homem sem futuro. Minha vida não tem mais sentido. Prefiriria estar morto!

 – Amigo, não estamos em época de guerra, para que seu tesouro seja guardado debaixo da terra. Deveria estar a gastá-lo com sabedoria, usufruindo do que possuía. Por que está sentindo tanta aflição, uma vez que só o fato de observá-la já o deixava feliz? Se contemplação era o suficiente, poderá colocar uma pedra no lugar e imaginar que ele ainda continua aí. – respondeu-lhe o homem.

Reflexão
Nada pior do que conviver com pessoas apegadas à riqueza e desprovidas de qualquer generosidade. Isto porque elas são duplamente miseráveis. Apesar do excesso acumulado, vivem como se nada possuíssem. O apego doentio aos bens materiais e o medo de perdê-los é um fardo pesado que carregam ao longo da vida. A riqueza funciona como uma carga por demais perversa, que as tolhe e torna-as infelizes.

Muitos acham que o excesso de bens matérias é o passaporte para alguém ser feliz neste planeta. Ledo engano. Existem muitas pessoas pobres, mas que são dotadas de grande generosidade, e cuja vida é repleta de alegria. Repartem o que possuem com a grandeza peculiar aos espíritos iluminados, que sabem que nossa passagem por aqui é breve, e que não precisamos de muito nessa jornada.

Tudo o que conquistamos deve ser usado em benefício de uma vida melhor, em todos os sentidos. O acúmulo de bens não passa de uma luta inglória contra a fugacidade da vida. Com pouco ou muito, todos somos passageiros, com permanência definida. Daí a necessidade de buscar viver com decência em meio a um mundo tão desigual, onde alguns poucos são donos de tudo, e muitos outros nada possuem. O equilíbrio é o caminho da sabedoria plena.

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