Fábula – O BURRO E A TOGA

Recontada por LuDiasBH

Obuto

A certo burro foi dada a missão de carregar as relíquias de uma festa religiosa. Quanto maiores eram os aplausos recebidos, mais o vaidoso animal estufava o peito. Dentre os presentes na multidão, apenas um rapazinho observava a empáfia do animal. Temendo que a vaidade do burro acabasse por explodi-lo, acercou-se desse e murmurou-lhe aos ouvidos:

– Deixe de ser tolo, burro presunçoso, não vê que os aplausos, incensos e cânticos não são dirigidos a você, mas sim ao padroeiro da festa? Saiba, pobre coitado, que, quando o magistrado é ignorante, são da toga as saudações. Portanto, apague o seu facho!

Reflexão
Em um país como o nosso, os cargos públicos não são ofertados conforme o conhecimento em cada função, ou seja, de acordo com a meritocracia, mas distribuídos como bônus partidários, como recompensa pela ascensão do chefe mor ao poder. Presenteia-se a esses ou àqueles, que não têm a mínima noção do cargo ocupado, sem se importar com a avaliação do povo. E esses, por sua vez, nomeiam outros tantos amigos e parentes, que são tão crus no ofício como eles próprios. E assim gira a ciranda da incompetência, afetando o país e sua gente. Haja marcha ré!

É de causar espanto o grande número de pessoas incapazes que habitam os três poderes de nosso país (Executivo, Legislativo e Judiciário). O mérito cedeu lugar ao conluio, à maquinação, à trama e à conspiração. Infelizmente, a prevaricação tem sido a bandeira. São poucos os que se levantam contra este sistema totalmente enlameado, conspurcado, desonrado, difamado e desacreditado. O povo não sabe que é ele quem, ao final das contas, acaba pagando o pato, quer seja pela diminuição de verbas na saúde, na educação, na retirada de benefícios sociais e na entrega das riquezas do país. Eles acham que tudo podem, sob o manto da impunidade.

Como o burro vaidoso da fábula, muitos dos que comandam os destinos de nossa pátria, são totalmente despreparados, e só ganham relevância em razão do cargo ocupado ou pela toga que vestem, e noutras vezes, pelos escândalos que cometem. Ainda assim, jamais se questionam ao dirigirem uma determinada pasta, pois se acham ungidos pelos deuses. Eles tudo sabem, eles tudo podem! Pobre país!

2 comentários sobre “Fábula – O BURRO E A TOGA

  1. Mário Mendonça

    Lu Dias
    No país do moralismo seletivo, normalíssimo. Pertinente sua reflexão.

    Abração

    Mário Mendonça

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Mário

      Muito obrigada pela leitura e comentário, meu amigo querido. Tenho usado as fábulas para trabalhar com uma linguagem mais contundente sobre o que anda pelo nosso país.

      Abraços,

      Lu

      Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *