Fábula – O HOMEM E O PARDAL

Recontada por LuDiasBH

pardal

Certo homem, cuja crença em seus deuses não era mais efetiva, em razão das dificuldades pelas quais passava em seus ricos negócios, e ainda que suas preces tenham repassado todo o panteão do Monte Olimpo, resolveu ir à cidade grega de Delfos, e ali botar à prova o belo Apolo, também conhecido como Febo (brilhante), deus da juventude e da luz. Fora para ele que vinha devotando, durante anos e anos, suas preces e oferendas, portanto, nada mais justo, – pensava ele – do que testar a sua real divindade e sabedoria.

 O ousado sujeito tomou nas mãos um diminuto pardal, e em sua companhia rumou para Delfos, à procura do cintilante deus. Ao defrontá-lo, estendeu-lhe a mão fechada, perguntando-lhe, com certo ar de deboche e descrença:

 – Senhor deus da juventude e da luz, se realmente estais à altura de minhas preces e dádivas, com as quais venho honrando vosso nome, dizei-me agora, se o que trago na mão direita está morto ou vivo? Caso contrário, vós não tereis mais em mim um fiel devoto.

 Apolo, ainda que visivelmente irritado com o atrevimento daquele humano, pois aos deuses todo o poder fora dado, respondeu-lhe:

 – Maior do que tua petulância deveria ser o teu castigo. Contudo, alerto-te para o fato de que poderás matar o pardalzinho que se encontra sufocado entre teus dedos. Saibas, porém, que se vai longe a visão, mais distante irá a punição que te darei, caso o mate.

Reflexão
Assim como o incréu da fábula, certos homens e mulheres, em nosso país, ávidos por riqueza e poder, usam o deífico apenas como um meio para sustentar a usura desmedida. Se aos céus clamam, fazem-no apenas para dar credibilidade a seus atos nefastos, ou, para tentarem esconder suas tramoias debaixo das asas do divino, quando na verdade, alçam voo sob o comando pérfido de Lúcifer e sua gangue. Segundo os crédulos éticos, que buscam a justiça, os céus tudo veem, ainda que a Terra tenha uma visão míope. Porém, isso não me basta.

O que mais me espanta no caos é o fato de esses homens e mulheres dizerem que fazem parte das hostes do divino e com ele comungam a própria vida. Como esses canalhas podem respeitar o divino, distante e abstrato, se jogam na miséria seus irmãos terrenos, seres concretos? Ao primeiro, ofertam templos e dízimos, enquanto dos segundos, roubam-lhes o pão da boca, a educação e a saúde. Em suma, retiram-lhes a vida digna que poderiam ter.

Confesso que me sinto sufocada e machucada como o pardal na mão do incrédulo. As quantias roubadas do povo brasileiro, principalmente dos menos favorecidos, clamam aos céus por justiça. O país descamba para uma agonia atroz diante de tanto descalabro e, sobretudo, ante a morosidade da Justiça. Os ratos afundam nossa pátria, pois continuam no comando do leme. Malditos sejam todos eles! Que pereçam na maldade que cavam!

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