Fábula – O HOMEM E SUA IMAGEM

Recontada por LuDiasBH

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Certo homem convencera-se de que era o mais belo da face daTerra. E não apenas isso, achava-se também o mais aquinhoado pela sorte, em razão de sua vasta fortuna. Mas, como acontece com os seres fúteis, quando lhe diziam que lhe faltava inteligência, isso não lhe tirava um fanico de sono, pois tratava-se de uma coisinha à toa. Mas não se podia desacreditar sua beleza, que deveria estar acima da de qualquer mortal. Ele vivia uma vida risonha, mentindo para seu ego e seu ego mentindo para ele, numa inquestionável simbiose. Não dava crédito a nenhum espelho, todos eles estavam conspurcados por algum defeito de fabricação ou afeitos a bruxarias.

A dona Sorte, já cansada de acompanhar tamanho embuste, e com o objetivo de mostrar-lhe o outro lado da moeda, predispôs-se a colocar à sua frente a verdade nua crua: em todo lugar que o dito estava, quase que por magia, surgia um espelho. Eles eram dos mais diversos tipos, dos comuns aos mais finos, feitos com o mais puro cristal. Chateado com a tentativa de desmonte de seu ego, o narcisista comprou um castelo num lugar bem distante, colocou muros altíssimos em volta, e proibiu a entrada de qualquer objeto que pudesse refletir sua imagem. E ali sentiu-se feliz e completo, considerando-se o homem mais formoso do mundo.

Mas os contratempos da vida, que não desprezam nenhum dos mortais, naquele longínquo local fez-se presente, alguns meses depois. Eis que o empavonado, num dia de muito calor, resolveu buscar ares mais amenos em seu imenso jardim. E vendo um límpido riacho resolveu beber de sua água fresca. Mas eis que sua imagem combalida estampa-se no espelho cristalino do regato. Entra em pânico nosso Narciso, pois não queria que aquela representação fosse a dele. Até a natureza mentia para desacreditar sua beleza – dizia para si. Precisava fugir dali, antes que enlouquecesse de vez.

Reflexão
Existem pessoas que criam uma imagem falsa de si mesmas ou de indivíduos e fatos à sua volta, e são capazes de morrer, mas não se dão por vencidas, apesar de as provas estarem ali, diante do nariz. Agem como a história da “mulher do piolho” que, depois de ter a atenção chamada inúmeras vezes por ficar matando piolhos com as unhas dos dois polegares, e ao ver-se dentro de um profundo poço, onde fora jogada pelo marido, e mesmo já estando com a água a cobrir-lhe os cabelos, levanta as mãos e faz o gesto de matar piolhos. Pessoas assim morrem, mas não mudam de opinião.

A vaidade humana é a mãe dos piores vícios. É dela que nasce a desonestidade, a torpeza e a indignidade. Ela fomenta a sede de poder, a busca pelo aquinhoamento de riquezas – pouco importando os meios – e, sobretudo, a usurpação do bem público, fato que podemos resumir numa palavra tão nossa conhecida: corrupção. Que diabos passam pela cabeça de certas pessoas a ponto de perderem a noção de finitude da vida, deixando-se levar apenas pela vaidade, que na fábula sinaliza o nome de uma impiedosa doença denominada “falta de caráter” ou “falta de ética”, que grassa assustadoramente no nosso país, como a lama da Samarco a contaminar o Rio Doce, matando todas as suas formas de vida e acabando com a vida das pessoas que usavam o rio.

O fato é que os espelhos estão aí! Tanto os que mostram pessoas honestas, impolutas, não corrompíveis, encontradas em todas as camadas sociais, exemplo de vida e de amor ao país, assim como as que usam a veste da hipocrisia, trabalhando com vilanagens, roubando o povo, principalmente as camadas mais sofridas da população e que mais necessitam de ser olhadas. E a “dona Justa”? E eu sei lá, meu irmão! Acho que morreu!

Nota: Alter Ego, obra de René Magritte

2 comentários sobre “Fábula – O HOMEM E SUA IMAGEM

  1. Leila Gomes

    Oi, Lu

    Nada mais verdadeiro que esta afirmação “A vaidade humana é a mãe dos piores vícios”. As pessoas se coisificaram e acreditam depressivamente que coisas são mais importantes que causas, que gente, que Deus.

    Abraços,

    Leila e Pedro

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Leila e Pedro

      É incrível percerber que, em pleno século XXI, as pessoas pouco evoluiram espiritualmente. A tecnologia tem servido ao poder como um meio de ursupar os mais pobres. Muito triste!

      Abraços aos dois,

      Lu

      Responder

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