Fábula – O LENHADOR E O DEUS MERCÚRIO

Recontada por LuDiasBH

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Certo lenhador estava a cortar galhos secos na floresta, a fim de esquentar sua cabana naquela estação invernosa, que estava deixando sua família enregelada. Ao tentar friccionar os dedos endurecidos pelo gelo, que despencava dos galhos, o homem acabou perdendo seu único machado. Em profundo desespero, pôs-se a pedir ajuda aos deuses. Júpiter, o deus dos deuses, lá do Monte Olimpo ouviu seus rogos. Pediu então ao deus Mercúrio que o socorresse.

 Mercúrio apareceu, junto ao lenhador, com um machado de ouro na mão, dizendo-lhe que o havia encontrado. Mas de pronto o homem recusou-o, dizendo-lhe que não era aquele o seu machado. O deus desapareceu e, num segundo, voltou com um machado de prata, que foi prontamente repelido pelo lenhador, sob a alegação de que também não era o seu. Mercúrio então lhe mostrou seu verdadeiro machado, que ele recebeu com imensa alegria e agradecimento. O deus então se dirigiu ao homem sincero dizendo-lhe:

 – Caro humano, como és um homem honesto e puro, em vez de um só machado, agora terás três.

 A notícia do acontecido espalhou-se entre os camponeses. E no Monte Olimpo só se ouvia o grito de humanos na floresta que, em simulado desespero, diziam ter perdido seus machados, que, na verdade, encontravam-se escondidos. Mas os deuses, sempre brincalhões, apareciam com um machado de ouro nas mãos. Os aflitos logo diziam: – É o meu! – mas os deuses, entre risadas, davam-lhes com o cabo do machado na testa. Embora não os matessem, deixavam ali a marca da mentira e da desonestidade.

 Reflexão
Diz o provérbio que, quando a esperteza é grande demais, ela acaba comendo o dono. O que me faz lembrar as enrascadas em que se meteu certo político, que depois de começar roubando poucas quantias, na falta de fiscalização, pulou para altos montantes. E ainda assim não se viu satisfeito. E foi com segurança que meteu a mão no eito, dele retirando somas fabulosas, cifras desconhecidas dos mortais comuns. Se antes ainda lhe sobrava um pouco de receio, com a impunidade, acabou se sentindo infalível, o deus dos deuses na saga da ladroagem que infestava seu pobre país.

Diz outro provérbio que o hábito de fumar cachimbo deixa a boca torta. Em assim sendo, o referido homem, já calejado pela roubalheira, não via nisso mal algum. Não lhe importava afanar o erário público, quando sua família com ele se locupletava, usufruindo das benesses do poder. Quem pudesse que roubasse mais. Sua consciência não lhe dizia que estava roubando, a gente mais desvalida de seu país. Roubava-lhes a escola, a saúde e o futuro. Mas o homem com nada se importava. Continua impune!

Diz mais outro provérbio que um dia é da caça e outro é do caçador. E, como a lei de causa e efeito é mais séria do que a da Justiça terrena, o homem viu-se encalacrado, quando foi pego com a mão na cumbuca. Hoje ele nega, nega e nega, ainda que sua conta no exterior tenha seu nome, e sua senha seja o nome da própria mãe. Alguns piadistas contam que, ao ser indagado sobre quantas vezes roubou, ele respondeu: “Não tenho conta!”, imaginando estar dizendo que não era proprietário de conta alguma. Seu subconsciente foi tão honesto quanto o homem do machado de nossa fábula. Poxa, a palavra “machado” lembra-me o nome de outro corrupto e  algoz do ladravaz. Mas aí já é outra história.

Nota: imagem copiada de www.pinterest.com

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