Fábula – O MENINO E A SORTE

Recontada por LuDiasBH

OMESO

Um garoto, ao deixar a escola, vinha andando pelo campo, quando de pronto bateu-lhe o sono. Jogou os livros e o chapéu de lado e deitou-se na beirada de um profundo poço. E ali dormia um sono solto, quando foi acordado pela Sorte.

– Toma cuidado, meu filho, tu estás a dormir na beirada de uma profunda cisterna. Se no vazio tu te tombas, haverás de ser reduzido a pedaços. E toda a gente haverá de me culpar, dizendo que tua morte foi obra da malvada Sorte. Portanto, levanta-te e deita-te no relvado, onde poderás dormir um bom sono, sossegado e sem perigo.

Reflexão
Pessoas há que acreditam piamente na sorte. Dizem que ela determina e regula todo e qualquer acontecimento, pois é resultante do acaso das circunstâncias ou de uma suposta predestinação. Acham as tais que tudo está nas mãos do destino, cabendo ao homem um parco espaço para sua ação, como se ele fosse um brinquedo.

Confesso que não acredito que sejamos joguetes nas mãos da sorte. Se assim for, o homem não será responsável por coisa alguma, pois não passa de uma marionete manipulada de um lado para outro. Se tudo que lhe acontece é independente à sua vontade, ele deixa de ser sujeito para tornar-se objeto. Neste caso, a sorte torna-se o sujeito e o homem o objeto, devendo ela responder pelas ações de cada um.

Na fábula, a Sorte reclama da falta de prudência do garoto, que ali se deitara de livre e espontânea vontade. Ela o alerta para que saia da beirada do poço, para que sua falta de bom senso não venha a culpabilizá-la depois. No que ela tem toda razão, pois culpados são aqueles que agem imprudentemente, sem avaliar os riscos a que estão sujeitos. A propalada má Sorte não passa de uma desculpa para a imprudência humana.

Nota: Menino Dormindo no Feno, obra de Albert Samuel Anker

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