Fábula – O SAPATEIRO E O BANQUEIRO

Recontada por LuDiasBH

osaeoba

Certo banqueiro passava, quase todos os dias, diante da pequena tenda de um humilde sapateiro. Ali o via sempre a cantar ou a sorrir. E inveja a tranquilidade daquele homem simples, sempre de bem com a vida, enquanto ele voltava para casa com tantas preocupações, que na maioria das vezes nem conseguia dormir, passando a noite em claro e levantando com um terrível mau humor. Como era contrastante a vida dos dois!

O ricaço foi ao encontro do sapateiro para descobrir qual era o motivo de sua alegria. Esse lhe explicou que apenas vivia um dia de cada vez. Nada tinha para economizar, pois cada dia de trabalho dava-lhe o pão suficiente para seu sustento e o de sua família. O endinheirado, estupefato, ao ver tanta gratidão para com a vida, resolveu tornar o sapateiro um homem de recursos. Entregou-lhe uma quantia, que ele jamais sonharia em obter trabalhando durante toda a sua vida. Exortou-o para que a usasse só em caso de necessidade.

O sapateiro guardou o dinheiro num velho baú, escondendo-o no porão. Preocupado em ser roubado, não mais cantava e não mais sorria. À noite também lhe fugira o sono, substituído pela inquietação. Qualquer ruído colocava-o alerta, com medo de ter sua fortuna afanada. Insatisfeito com tamanha agonia, aguardou o pobre sapateiro a passagem do banqueiro. Quando o viu, entregou-lhe o pacote de dinheiro, dizendo:

– Senhor, aqui está vosso dinheiro, que à minha vida só trouxe apreensão e agonia, roubando meu sono, canções e alegria. De bom agrado volto à minha vida de antes.

Reflexão
Quem coloca na riqueza o motivo de sua alegria, está fadado a passar a existência no maior dos infortúnios, principalmente quando se é alguém que tem por meta ajuntar mais e mais. Embora se contrastem, o excesso abusivo de bens e a miserabilidade proveniente de sua extrema falta colocam os sujeitos na mesma situação. O primeiro peca pelo exagero e o segundo pela falta.

Que vida inglória é não poder dormir ou comer, preocupado com mil e uma transações financeiras, subidas e descidas das aplicações! E que vida miseranda é não ter que comer ou onde dormir, quando não se tem um teto e a rua é a morada! São esses os dois lados perversos de uma mesma moeda. O equilíbrio entre os dois faria do mundo um paraíso.

O sapateiro fez bem ao devolver ao banqueiro o presente recebido, que estava a perturbar-lhe o espírito, tirar-lhe uma de suas riquezas – o sono. É melhor o pouco de cada dia, acompanhado de tranquilidade e paz, pois riqueza alguma e poder valem a paz de espírito.

2 comentários sobre “Fábula – O SAPATEIRO E O BANQUEIRO

    1. LuDiasBH Autor do post

      Mário

      É verdade. O ideal é que essa moeda tivesse uma face única, tendo como motivo a igualdade.

      Abraços,

      Lu

      Responder

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