Fábula – OS ALFORJES E OS DEFEITOS

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Recontada por LuDiasBH

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Não sei que mania era essa de os deuses sempre intrometerem na vida dos mortais. O fato é que nelas interviam e ponto final. E quem sou eu para dar pitacos na vida desses seres tão poderosos? Vou me recolher à minha insignificância, detendo-me apenas aos fatos, como deve fazer um bom jornalista, sem qualquer sombra de parcialidade. Prestem bem atenção.

Júpiter, o todo poderoso, alcunhado de “o deus dos deuses”, que em tudo mandava, acordou de bem com a vida e, por isso, resolveu permitir que todo ser vivente pudesse reclamar dos defeitos com os quais não se achava satisfeito. Ele haveria de encontrar uma solução para agradá-lo. Para tanto bastava apenas que uns reparassem nos outros, e, baseando-se em tal observação, enumerassem o que  faltava ou sobrava em suas constituições (naquela época não havia modelos de passarela e tampouco cirurgiões plásticos).

O primeiro a ser consultado foi o macaco, que logo de cara foi falando que tudo nele o agradava. Possuía cabeça tronco e membros perfeitíssimos, incomparáveis. E, por mais que procurasse, não via em si incorreção alguma. E ainda teve o desplante de complementar, dizendo que achavam os ursos muito deselegantes.

O urso foi chamado logo a seguir. Caminhou ainda mais imponente do que o seu costume. E também de nada se queixou. Ao contrário, ainda incensou seu porte físico, sua elegância genuína e sua pelagem densa. Contudo, não pode deixar de criticar os elefantes com suas orelhas desproporcionais à cauda minguada, o que os transformava em seres bizarros à vista de todos, segundo o seu modo de pensar.

E veio o elefante tecendo loas à sua forma física, principalmente ao seu invejável porte. Mas, segundo ele, apesar de ostentar tão grande formosura, não poderia deixar de referir-se à gordura das baleias, sempre tão obesas. A formiga não fez por menos ao ser chamada. Gabou-se de seu corpo minúsculo e bem feito, com sua cinturinha fina, antenas bem posicionadas, porém complementou com seu desprezo pelos ácaros.

Enojado diante de tanta vaidade e da pequenez dos que até ali questionara, Júpiter enxotou-os de seu jardim, pedindo que ficassem apenas os feridos e aleijados.

Reflexão
Ainda bem que Júpiter, em suas indagações, não chegou até os humanos. Se os animais, que falavam pouco e eram bem mais sensatos, foram capazes de proferir tantas asneiras, imagine o homem, que se acha o senhor absoluto de todas as coisas, o manda-chuva do planeta! Não resta dúvida de que o vexame seria imensamente maior, acompanhada de grande verborragia.

Não há objeção ao fato de que a espécie humana é a mais bizarra, tendenciosa por excelência, sempre agindo em conformidade com seus próprios interesses, ainda que para isso tenha que destruir tudo e todos à sua volta. Nada há que lhe bote um freio na ambição, ou que resguarde o planeta contra sua maléfica impetuosidade. Se antes, ela se via amedrontada pelos deuses mitológicos, hoje não se curva a deus algum, embora diga que sirva a esse ou àquele.

Diz um velho ditado que o ser humano carrega dois alforjes, sendo um na frente e outro atrás. No da frente carrega os defeitos dos outros e no de trás leva os seus próprios. E é por isso que sempre julga não ter incorreção alguma, pois nunca vê o alforje que se encontra às suas costas. Mas, como as desvirtudes dos outros se encontram empilhadas no alforje à sua frente, não há como não enxergá-las, expandindo-as o quanto possam.

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