Fábula – OS DOIS GALOS RIVAIS

Recontada por LuDiasBH

odogari

Durante muito tempo viveram dois galos na mais perfeita harmonia. Mas isso até que um rabo de franga, de outro terreiro, chegou ao poleiro. A danadinha era uma belezura só, além de muito inteligente. Imediatamente os dois puseram-se a cortejá-la e disputá-la. Acabaram numa briga ferrenha pelo amor da franguinha airosa. Ganhando um deles, o outro se retirou humilhado para um cantinho do quintal.

O vencedor jubiloso procurou o lugar mais alto à volta, para dali cantar seu amor e o heróico feito. Em cima do telhado da casa da fazenda, observado por todosos animais do terreiro e da vizinhança, abriu as asas e inflou o peito. Porém, antes que se ouvisse um pio de seu canto, um gavião, que por ali voava, alçou-o pelos ares, indo devorá-lo bem longe.

Prazenteiro, o vencido corre para o quintal, onde é recebido com afagos pela franga galante e com os aplausos de todo o galinheiro.

Reflexão
Por maior que seja o nosso sentimento de vitória é sempre bom temperá-lo com uma dose de equilíbrio, pois nunca se sabe o que vem pela frente. A vitória de hoje poderá ser um grande desatino amanhã. A temperança vai bem em qualquer ocasião.

Diz o poeta Kalil Gibran que o homem está completo, quando não se encontra tomado pela alegria ou tristeza, ou seja, quando se encontra em equilíbrio, livre do adormecimento das emoções. Para ele, o comedimento é o caminho para a felicidade. Os extremos nunca fazem bem a ninguém.

As pessoas moderadas nunca se deixam levar pelas emoções, pois possuem um completo domínio de seus atos, agindo sempre com sabedoria. Elas jamais são pegas pela armadilha do destempero. E, consequentemente, possuem uma vida melhor.

Nota: imagem copiada de normadaeducacao.blogspot.com

7 comentários sobre “Fábula – OS DOIS GALOS RIVAIS

  1. Oswaldo Correa

    Lu
    O equilíbrio emocional é realmente é muito necessário. Adorei o texto, pela sua excelência, e pela oportunidade de contribuir com algo da minha vivência e que tem a ver com este tema.

    Ao tempo em que trabalhei como advogado, já estável, concursado para a Prefeitura, fui presidente de um partido político e acabei sendo candidato a vereador. O candidato, que eu apoiava, perdeu a eleição. Para mim faltaram alguns votos e não consegui eleger-me vereador. O certo é que era, para os vencedores, um inimigo político que se encontrava dentro da Prefeitura, mas de lá, ninguém poderia me remover. Logo que o novo prefeito tomou posse, os seus partidários mais influentes fizeram reuniões. E um dos assuntos decididos é que teriam que me exonerar, no entanto, havia dificuldades pois tinha estabilidade. No dia seguinte à reunião, retiraram de minha sala de advocacia a funcionária que me auxiliava na datilografia e na organização dos meus serviços. Encheram-me de serviços, de forma que, além de confeccionar as leis, decretos e portarias, além de ingressar com ações fiscais e outros de origem cível, além de defender a PM das ações em andamento, dar pareceres e auxiliar todos os setores administrativos, tinha que datilografar todo o serviço, antes feito pela minha auxiliar. Fiquei frio. Cheguei até o prefeito e lhe disse que decidira sair da política e continuar na prefeitura. Ele me disse que não era culpa dele o que estava acontecendo, mas “deles”, seus companheiros. Passados dois meses chegou a hora do aumento dos vencimentos. Deram-me apenas 1% de aumento geral, enquanto aumentaram todos os salários e vencimentos dos funcionários. Sai com 1% de aumento e os demais com a tal restruturação, com vencimentos e salários praticamente atualizados diante da inflação. Eu sabia quem eram as pessoas que me queriam fora dos serviços e que odiavam-me, pelo adversário político ferrenho, mas respeitoso que eu fora.

    Passei a receber os vencimentos mais baixos de toda a prefeitura e trabalhar dobrado. Até o sábados, que todos folgavam, eu lá comparecia para cumprir a agenda. Não poderia dar motivos para ser punido, mediante inquérito administrativo, e, com certeza, exonerado, pois esse era o plano dos políticos vencedores. Resolvemos, durante estes dois anos, eu e minha família, enfrentar a coisa, pois “tudo passa na vida”, pensamos, como ensinara Chico Xavier. Fui lecionar à noite, minha esposa também, e com a soma dos parcos vencimentos e salários, tivemos que enfrentar a vida com filhos doentes. Meus pais e os da minha esposa ajudaram-nos a olhá-los à note. Eu sabia quem, nas reuniões, planejava me prejudicar. Poderia tratá-los mal, poderia mostrar a todos o que estava me acontecendo. Porém, calei-me. Foi uma decisão importante, pois tinha que ter um equilíbrio. Sempre que os tais líderes políticos me encontravam, eu os cumprimentava, tratando-os como amigos. Compreendia que eu fora um político de outra posição, tendo que suportar tudo. Mas sabia que, cada vez que os encontrava, deixava-os diminuídos diante de minha atitude, jamais esperada por eles. Eu os estava vencendo.

    Continuei a trabalhar de forma entusiasmada, atendendo a população com muito carinho. Eu e minha esposa ficamos conhecidos na escola. Dentro do quadro da prefeitura eu já fizera muitos amigos. A situação começou a ficar insustentável para aqueles que me queriam fora do cargo, pois não lhes dera, após a eleição, nenhum motivo para se queixar de meu trabalho. E ficara insustentável, pois os fatos começaram a vir a público, visto que os meus vencimentos eram parcos diante dos demais servidores. Perseguição, dita pelos cidadãos, servidores e jovens alunos, passou a ser entendida pela população. Nosso equilíbrio emocional, meu e de minha família, estava ganhando o jogo. Passaram mais alguns meses e, diante das necessidades de meu trabalho, acabaram devolvendo a minha auxiliar. Mais um tempo, e fiquei sabendo que os meus adversários jogaram a toalha, não aguentaram, e propuseram que no aumento seguinte iriam recuperar meus vencimentos. E isso aconteceu de uma forma ainda não correta, mas que trouxe melhores condições de vida para a minha família. Venci.

    Passei a ser visto com um funcionário eficiente, honesto e capaz, atendendo a todos, sem exceção, máxime os cidadãos mais necessitados e com menor importância social. Por sinal, sempre estive ao lado desses últimos. Os anos passaram-se e eu me tornei um funcionário respeitado por todos os políticos. Ninguém, nunca mais, tentou fazer qualquer coisa contra mim. Pelo contrário, fui festejado como bom e honesto funcionário, respeitado e querido pelos meus colegas de trabalho. Acabei agraciado, ao final de minha carreira na PM, com o título de cidadão emérito. Esse título deveu-se, não só ao trabalho na prefeitura, mas também às múltiplas atividades que empreendi, junto a associações e entidades sociais, bem como partícipe nas atividades administrativas de todos os prefeitos com quem convivi, sempre objetivando o bem estar do povo.

    Perdoe-me por estender-me. Contei um pequeno trecho da minha vida, para demonstrar que o equilíbrio emocional é fundamental para lutar contra a intolerância, a maldade e as adversidades, que encontramos na estrada de nosso viver.

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Oswaldo

      Parabéns pela dignidade com que fundamentou momentos tão difíceis em sua vida. Assim deveríamos agir todos nós. Fica registrado o seu exemplo.

      Abraços,

      Lu

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        1. LuDiasBH Autor do post

          Leila

          Nada como as fábulas para dizerem-nos grandes verdades.

          Beijos,

          Lu

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