Fábula – OS DOIS TOUROS E A RÃ

Recontada por LuDiasBH

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Num viçoso campo, dois touros arremetiam-se um contra o outro, disputando uma bela novilha cor de ouro desmaiado, que alegremente pastava nas redondezas, sem nenhuma preocupação com os arrelientos. Bem mais distante, num brejo, sobre uma pedra próxima a um riacho, uma rã, entre profundos suspiros, acompanhava com circunspeção a contenda, como se fosse ela a musa responsável pela indócil competição. Ao ouvir os suspiros ressentidos da  colega, outra rã indagou-lhe:

– Que respiração doída é essa, minha amiga, se nada há que nos perturbe? Veja como cresce a vegetação de nosso pântano, nossa lagoa encontra-se mais aprazível do que nunca. E nossos girinos desenvolvem-se tão depressa, que logo estarão a fazer-nos companhia no banho de sol.

– Amiga, com você é ingênua, só vê o que está em torno de si! Observe aqueles dois touros brigando no campo ao lado. Logo um deles será o vencedor e banirá o outro de lá. Uma vez repelido, será aqui, em nosso meio, que o vencido irá se acastelar. Muitas de nós haveremos de perecer debaixo de suas patas insensíveis – ponderou a rã aflita.

E foi exatamente o que aconteceu, perecendo inúmeros anuros por onde o perdedor libidinoso passava com seus cascos brutais.

Reflexão
Esta fábula, aparentemente singela, contém em si inquestionáveis verdades. Os dois touros, ainda que trocando chifradas entre si, representam os poderosos, que apenas revezam de lugar no poder, jogando sempre com a memória fraca do povo. O touro, que se deu por vencido, não tardará a buscar outras forças para ajudá-lo, ou até mesmo poderá aliar-se ao vencedor, para gozar das mesmas benesses oriundas do domínio, usufruindo assim do viçoso pasto, por algum tempo deixado.

À desinteressada novilha cor de ouro desmaiado não importa quem seja o vencedor, contato que seja o mais poderoso, o que daria “maior relevância” à sua prole, podendo suas crias frequentar os estábulos mais ricos do mundo e, num efeito bumerangue, serem elas a dominar aquele prado, num futuro não tão distante. Para tanto, basta ver como os poderosos dão crias que seguem os seus mesmos passos no campo da dominação, enquanto o povo apenas procria operários para receber ordens e trabalhar.

As duas rãs são o povo, sempre dividido. Existe uma parte dele que é  comprometida, enxerga longe, bem além das aparências, quer lutar e conquistar o lugar a que tem direito, abominando a cruel pirâmide social, onde ocupa a base, carregando todo o peso nos ombros. E  há a outra metade que não está nem aí, sempre voltada para o seu mundinho, incapaz de qualquer reflexão, atrelada à futilidade que os fortes enviam para entretê-la e impedi-la de gritar por seus direitos. Como não possui unidade, ao contrário dos poderosos, o povo torna-se fraco, ainda que seja a imensa maioria. Assim, por mais besteiras que os grandes façam, quem acaba pagando o pato são sempre os pequenos, como aconteceu com os anuros.

Nota: imagem copiada de rezboa.blogspot.com

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