Fábula – OS LADRÕES E O JUMENTO

Recontada por LuDiasBH

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Estava um luzidio jumento a pastar, sem nenhuma preocupação com a vida, quando foi avistado por dois ladrões. Com pose de quem não quer nada, os gatunos puseram-se a espreitá-lo, olhando de um lado para outro, de modo a não se deparar com qualquer testemunha, esperando o momento certo para roubá-lo. Certos de que não eram vigiados, os ditos apossaram-se do animal, que ainda esboçou um gesto de fuga, pois pressentira estar em péssimas mãos, mas o infeliz não conseguiu se safar. Restava-lhe apenas aceitar os contratempos e esperar a ocasião certa para debandar, depois de aplicar nos patifes uns coices bem fortes, ainda mais que estava com ferraduras novas.

Os dois marginais e o belo animal, estando o último atrelado a uma corda velha e fedorenta, caminhavam furtivamente em meio à vegetação. Assim que os malfeitores viram-se livres de qualquer risco à gatunagem perpetrada, amarraram o jumento numa árvore e sentaram-se para discutir sua sorte, sem que o coitado pudesse emitir qualquer opinião. Um queria que o animal ficasse com eles, para ajudá-los nos “serviços”, o outro queria vendê-lo para usufruírem da grana. Desse modo, o consenso anterior ao roubo transformara-se numa inimaginável contenda.

A desinteligência dos velhacos tomou forma, levando-os à agressão física, uma vez que não lhes era possível dividir o jumento ao meio. E rolaram os malfeitores pelo chão, enquanto a pancadaria comia de concha. Esfolados pela quizila, resolveram deixar a solução para outro dia, pois sempre há um dia seguinte. Porém, no momento em que se atracavam, um terceiro ladrão que por ali passava, bem mais esperto do que eles, desamarrou o pobre jumento, levando-o consigo, sem que os quizilentos biltres percebessem. O trabalho furto fora em vão.

Reflexão
Chega a ser risível a rotina dos velhacos. Antes de perpetrarem a pandilha, confraternizam-se como se fossem homens de bem, embora o pensamento esteja sempre voltado para o butim. Quem os vê tão amigos, sociáveis e solícitos, não imagina o que se esconde em meio à lama cinzenta e podre que lhes enche a caixa craniana. Tornam-se carne com unha, numa perfeita conjunção de ideias e ações direcionadas ao saque. Mas a vaca vai pro brejo depois que a pilhagem foi obrada. Cada um torna-se insatisfeito com a sua parte, querendo um naco maior. A vaidade entra em cena, o jumento berra e a cobra fuma. E não demora muito para que os tais “homens de bem” mostrem-se como realmente são: pandilheiros.

O mais engraçado entre esses tais é que a solicitude vista entre eles não passa de jogo de cena. A amizade regada a jantares, troca de ternos olhares, abraços e tapinhas nas costas é na verdade um verniz despudorado que cheira a putrefação, pois cada ladravaz não se importa ementregar o outro de bandeja para ser devorado, jogando na sarjeta as juras eternas de lealdade, desde que tenha a própria pele a salvo. Aí entram as manhas e artimanhas, coscuvilhice e mexinflórios, embófias e logramentos. Vence o mais esperto, até que outro sujeito, como na fábula acima, entra na história e passa a perna no suposto sabichão. E é nessa gangorra que segue a lida dos pandilheiros. Nem a velhice consegue impor-lhes o bom senso. Uma vez ardilosos serão eternamente maquiavélicos.

Ao jumento, definido pelo dicionário Aurélio como “facilmente domesticável, muito difundido no mundo, e utilizado desde tempos imemoriais como animal de tração e carga”, que tem tudo a ver com o trabalhador num país de Estado mínimo e capitalismo selvagem, resta esperar o momento certo para acertar seus coices, pois nada lhe será dado de graça. O povo tem que se conscientizar de que quem é usado como animal de tração e carga possui muita força física. E o melhor lugar para exibi-la é na rua, maciçamente. Somente assim será respeitado pela matilha audaz, voraz e feroz.

Nota: imagem copiada de mesquitacomovai.com.br

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