FICAR A VER NAVIOS
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Autoria de Alfredo Domingos

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Túlio Bacamarte, meu amigo escritor, recolhido feito bicho do mato lá pelas Gerais, de quando em vez, envia-me suas escrevinhações e cogitações. Ultimamente, anda muito meditabundo. Está igual ao poeta Manoel de Barros, deixando-se em pensamentos, afastado do movimento. Escreveu-me ele, cutucando em dois dedos as teclas do seu teclado jurássico:

“A matéria-prima da minha escrita é a ‘vida’, como Clarice Lispector também pensava. Não uso vieses psicológicos. Não faço arquitetura de tramas. Jogo a vida no seio das ideias, no colo dos meus textos. Não recorro a suspenses nem a dramas. Converso comigo e com os leitores. Imagino estarmos numa noite de queijos e vinhos ou à mesa, saboreando broa de milho com café. Aprecio o bate-papo vadio, que vai de futebol à literatura. Risada, muita risada, é o molho da conversa. Às vezes, surgem casos escabrosos, diferentes e complicados. Nesses casos, as testas franzem. Mas a prosa sempre é boa!

Interessantes são as intervenções dos tipos: você sabia que… Aconteceu com a minha tia, juro que foi assim… Vi o homem cair… Abri a porta do quarto, olhei o escuro… Pedi sanduíche de queijo, uma cerva gelada e… As pessoas empolgam-se e largam o verbo. Então, brotam as histórias. Ah, as histórias são ótimas! Fluem gostosas. Criativas. Cômicas ou trágicas. De amores ou de desilusões. De vitórias ou de derrotas. Sobre verdades ou mentiras.

Um sábado de chuva, após o retumbante cozido de Mariinha, estávamos a caminho dos braços de Morfeu, procurando cama pra encostar, quando foi trazida a ideia de enveredarmos pelas trilhas dos ditados, das expressões e dos provérbios. O tempo passaria sem lerdeza. Topamos. Cada um de nós dizia o seu e dava a explicação. Ficou animado.

Colhi nos meus botões a pérola: “ficar a ver navios”. Tive que de pronto oferecer interpretação. Pensei um pouco e revelei até duas:

– A expressão vem de Portugal. O rei, Dom Sebastião, morreu na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578, e seu corpo nunca foi encontrado. A morte causou uma grande crise sucessória. O trono ficou vago. Em consequência, houve a anexação de Portugal à Espanha, de 1580 a 1640. O orgulho e a dignidade dos lusitanos clamavam por resgate. O povo português sonhava com a volta do monarca. Assim, com frequência, havia visitas ao Alto de Santa Catarina, em Lisboa, para observar o mar, à espera do retorno do rei. Como ele não voltou, o povo, em vão, “ficava a ver navios”.

– Outra explicação, a qual cabe dar crédito, é que as mulheres ficavam aguardando a volta dos maridos, que tinham zarpado com as embarcações, nas grandes navegações portuguesas. Depois de muito tempo, as coitadas colocavam-se a espiar os navios que chegavam ao porto, para reverem seus amores, o que ocorria quase sempre sem sucesso. Então surgiu a expressão: “ficar a ver navios”. Ou seja, esperar por algo que não se realizava.

Atualmente, a expressão é usada no sentido de ser ludibriado, enganado. É tomada para realçar a decepção e a ausência de pessoas e de sentimentos. Para o emprego que não veio, uma nota de reprovação, o dinheiro negado, a empresa que faliu, e tantas outras coisas, exclama-se tristemente na representação da perda, seja ela qual for, “fiquei a ver navios”.

Diga-se de passagem, há mais expressões com o mesmo significado. Recordei-me de duas espetaculares. Querem dizer que, em síntese, nada aconteceu. Os sujeitos, por conseguinte, ficaram a “ver navios”. São um pouco esquecidas, puxadas para a comicidade, mas cheias de representatividade. São elas: “patavina” e “neres de pitibiriba”. Para entendimento de como são empregadas, o povo utiliza mais ou menos destes jeitos: sem que para ele acontecesse patavina do que estava combinado; e ela contentou-se em receber neres de pitibiriba em troca dos favores realizados.

No dia seguinte da falação e da exibição de conhecimento, sem esquecer-me da comilança, resolvi escrever sobre isso tudo e reportar-me ao amigo, que sei gostar daquilo que lanço neste velho troço enxerido, que repete o que remoo nos meus miolos. O tal do computador.”

Ao escrito resta-me, somente, acrescentar o seguinte: Eta, escritor porreta, o Bacamarte!

 Nota: Imagem copiada de www.proverbioefrase.com
F
ontes de consulta: Dicas de Português- Sérgio Nogueira e www.significados.com.br

2 comentários sobre “FICAR A VER NAVIOS

  1. Alfredo Domingos

    Lu,
    Agradeço a postagem deste texto.
    Há expressões, provérbios, etc., que estão em desuso, e não custa colocá-los na lembrança das pessoas.
    Eles têm conotação jocosa, mas camuflada.
    Está aí a graça.
    Abração, Alfredo Domingos.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Alfredo

      Adorei o texto.
      Tenho paixão pela seara dos provérbios.
      Eles são muito enriquecedores.

      Seus textos são sempre deliciosos.
      Conduzem o leitor até o final, ansioso para ver o desfecho.

      Grande abraço,

      Lu

      Responder

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