FILOSOFANDO SOBRE A VIDA

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Autoria de LuDiasBH

roca 

Nossa Senhora da Valia, este mundo de nosso Senhor Jesus Cristo parece que  endoideceu de vez. Tudo está ficando de reverso: bicho-homem, plantação e até mesmo os bichinhos. O que é desatinado é tido como certo e o que é acertado anda desusado. E eu estou aqui matutando com os dedos de prosa que acorrentam meu Compadre Isidoro e eu, em certas conformações da vida, na usança do pensar.

Meu Compadre Isidoro acha que eu ando lampeiro, que tudo é questão de conformidade. De modo que cada coisa vai entrando nos eixos, pois este mundaréu é de incumbência de seu Criador e Ele não há de deixar a malvadeza acabar com o que é Seu. Neste assunto, eu ando em desajustamento com meu compadre, pois, cá comigo, lucubro bem diferente. O Todo Poderoso botou tudo que fez nas mãos do homem para que das coisas fizesse serventia. Não faz nenhum arrecadamento por conta disso. Mas o pagamento vem no final dos tempos, que já dá sinais de avizinhação. E aí não sobra bafejo para corrigir o cepudo. O Julgador não vai dar conveniência para reparação. Tudo que é ser pensante neste mundo teve muito tempo e advertência para andar em conformidade com a querença do bem. Não vai adiantar deus-me-acuda ou escusação, quando chegar o julgamento derradeiro.

Meu Compadre Isidoro é católico dos bons, não é de perder missa ou reza. Tem entendimento com todos os santos e sua benquerença pelas palavras do Santo Padre o Papa é sabida em toda a freguesia. Não aceita reza que mana de outros templos. Neste ponto, apesar de nós dois andar feito carne com a unha, também carregamos obstância. Ele não carece de buscar consolo em outras freguesias, mas eu acarreto uma precisão danada de oração. Onde a porta estiver aberta e se pastorear no nome do Salvador, eu vou entrando, sem mesmo pedir aprazimento ao tribuno. Não me importa o nome escrevinhado na parede do templo. E olhe que não sou beato, padre, pastor ou obreiro, mas apenas um filho Daquele que vive no Céu. Se o Senhor meu Deus é um só, ele haverá de estar em tudo quanto é lugar, ou pelo menos ficar um tiquitinho de tempo em cada um, pois são muitas as igrejas, onde blateram por seu Santo Nome. É só na reza que eu encontro desfadiga para aguentar os endoidamentos deste mundo. Até fiquei sabendo que certo Coronel Ferreira acabou amalucado, endoidecido, azuretado mesmo, porque recusou receber uma bendição no Centro do Irmão Coreolano. Eu ceifo a palavra do Divino feito o meu feijãozinho na roça, em qualquer ramo em que ela brotar.

O povo fala no Pilão Sem Tampa, que nem se Compadre Isidoro fosse meu irmão, não seria tão meiguiceiro comigo. E eu sou também muito afeiçoado a ele. A gente vale um ao outro em qualquer peleja. Dias desses, ele estava me falando sobre pais e filhos na Terra. E que, quanto mais filhos tivesse um varão, maior era a sua fortuna. Nisso eu desacordo de meu compadre, pois um pai é para dez filhos, mas dez filhos não são para um pai. Quando um pai (ou mãe) fica um cacareco, um traste sem mais serventia, vira jogo de empurra entre os filhos, numa brigalhada dos infernos. Muitas vezes o chamado de Deus para que ele vá embora é de muito mais valia, tanto para o pai, que parte, quanto para os filhos que ficam. Também já vi homem, que tem um só rebento, ser tratado como rei na sua velhice. Vai mesmo é da sorte do pai na sua caduquice. E não tem essa de ter criado assim ou assado os filhos, pois filho quando é bom, já cresce assim.

Meu Compadre Isidoro não é achegado em coisas de política. Ele fala que isso é engenhoca para os “graúdos”, e que não tem serventia alguma para os pobres. No último pleito, nós até travamos um bate-boca, mas sem raiva, só um querendo demudar o pensar do outro. Eu disse pro meu compadre  que os pobres são a excelência de gente do mundo. E se essa gente quisesse, poderia alterar as passadas deste mundão de meu Deus. E que é nossa obrigação comparecer nos pleitos e escolher aquele que achamos de mais beneficiamento para o povo. Pois é melhor a gente cincar, achando que apontou um sujeito direito, do que depois dizer que não é responsável, pois lá nem foi votar. E, como ele é temente a Deus, precisa saber que o falimento também é um pecado grave. De modo que meu compadre acabou entendendo minha falação e deu o seu comparecimento nas urnas.

Embora Compadre Isidoro e eu tivéssemos medrado no mesmo pedaço de chão, aprendido a leitura no mesmo grupo do município e casado na mesma data, a gente tinha um ponto de vista diferente, quando o assunto era estudo de mulher. Meu compadre achava que fêmea só precisava ter sabença para subscritar a graça nos documentos do marido. Aprender mais do que isso era arriscado para os homens da família. Foi uma peleja danada para tirar essas caraminholas da cabeça do meu compadre, desempanar as mordenices para ele, de modo a intrujir que, nos dias de hoje, mulher e varão têm as mesmas regalias. E foi por isso que Liana, minha afilhada de batismo, Zulmira e Veridiana estudaram no ginásio e arranjaram serviço com muito desempedimento, do mesmo modo que minhas duas moças, Rosalina e Lucena. Hoje, as meninas adjutoram nós dois, bem mais do que os meninos, já embelecados nas famílias de suas companheiras.

Meu Compadre Isidoro é um sujeito benfazejo. E é por causa de sua deferência para com as pessoas que ele acha que todo vivente tem o coração cheio de brandura. Nisso nós dois somos adversativos. Nesta minha caminhada, já levei mais topada do que os meus pés calejados aguentam. Já fiz muita bondade por aí, mas sempre marisquei desagradecimento, até com meninote que ajudei a ficar homem. De modo que, no meu matutar, a vida é roliça de conveniência. A gente só carece de importância enquanto tem alguma serventia. Aí se é tratado, como se fosse um bibelô de porcelana, com uma mão em cima e outra embaixo. Mas, quando não mais carece de servidão, é baldado sem dó e nem piedade. E, como diz um velho ditado, o dia do benefício é véspera de ingratidão.

Por isso, não tenho mais chegança com as pessoas, embora não deixe de acolitar quem de minha demão carece. Mas o afervoramento há muitas transladações deste planeta enfeneceu. Não adianta mentir, eu ando muito decepcionada com a ingratidão do ser humano. E tanto faz ser rico ou pobre, cai tudo no mesmo balaio. Em contrapeso, meu amor pelas criaturas sem sabença é cada vez mais elegido. Quem inferna uma delas, para mim é pior do que bandoleiro matador de gente. Pois gente tem esperteza para se defender, mas as criaturas do Todo Poderoso são indefensas.

E por falar nos animaizinhos, outra desavença entre Compadre Isidoro e essa minha desataviada pessoa, é quanto a manducar carne de qualquer ser. Desde menino, nunca

tive coragem tirar o respiro de uma rolinha, ou de ver decapitar uma galinha ou sangrar um porco, e depois da comilança ainda lamber os beiços. No dia de matança de animais, eu fugia da casa de meu avô, como o diabo foge da cruz. Meu desacerto com essa crueldade começou, quando, ainda nos meus sete anos de idade, passei uma noite com o balir agoniado de um carneiro, que ia ser morto, no dia seguinte, para a festança de casamento de minha tia Tiana. Ele pedia que alguém o adjutorasse, pois não queria morrer de morte matada. Eu me levantei, na calada da noite, e fiquei acarinhando o bichinho, falando-lhe do céu das criaturas de Deus, onde ele teria muito capim verde e muitos companheirinhos para brincar. Juro que ele me escutava e sopitava seu coraçãozinho doído. Ainda hoje, quando vejo carne, esse carpido lamentoso toma conta de meus ouvidos e chaga a minha alma. Se meu compadre quiser comer carne, é problema dele com seus sentimentos, mas eu cá nem provo a panela. Cada um é cada um.

Meu Jesus Sacramentado, num é que hoje eu estou ruminando mais do que vaca no pasto? Acho que é o abrasamento do sol, que anda esquentando o tutano desta minha cabeça sem cobrimento. E aí foi chegando um apinhado de pensamento, sem maneira de eu botar uma brida neles. Chega de falar de meu Compadre Isidoro e eu, na usança de assuntar a vida. Agora vou arriar a enxada e voltar para casa. Antes, vou passar na casa do meu Compadre e tomar dois dedos da branquinha, acompanhados de três dedos de prosa, para poder descansar o esqueleto com prazimento. Fé em Deus e pé na estrada!

2 comentários sobre “FILOSOFANDO SOBRE A VIDA

  1. Mário Mendonça

    Lu

    Porque será que filosofamos sobre deus quando estamos sozinhos e raramente sobre nós…???…

    Mário

    Responder
    1. LuDiasBH

      Mário

      Poucas pessoas conseguem viver sozinhas.
      Elas têm necessidade de uma companhia, ainda que abstrata.
      Enfrentar o nosso “eu” também não é tarefa fácil.

      Abraços,

      Lu

      Responder

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