GERÓ E O “DESCIMENTO” DA CRUZ

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Autoria de LuDiasBH

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Geronildo Cuia Cheia era um fervoroso devoto, desses que não mais se vê nos dias de hoje. Dentre todas as celebrações religiosas, nenhuma despertava mais piedade nele de que o “descimento” da cruz. Era o primeiro a chegar ao local, desde que se entendera por gente. Postava-se na frente, bem próximo ao palco, de modo a não perder uma só palavra da apresentação. Sabia as falas de todos os artistas de cor e salteado. Até seus sete anos, Geró, como era chamado, lembra-se de ter sido levado à solenidade por sua avó, Sá Ana Rezadeira, perita no ofício de tirar mau-olhado, mas daí para frente passou a ir com seus colegas de escola, disputando o melhor lugar junto ao tablado. Com o passar dos anos, foi deixando a “companheiragem” de fora, para fervorosamente prestar sua homenagem Àquele que morreu para salvar os homens, dentre os quais imaginava estar presente. E isso já ia lá para uns 34 anos.

No último “descimento” da cruz, Geró foi o protagonista de uma cena que não apenas saiu no jornaleco da cidadezinha de Araçandi, como foi contada na rádio do município. Muitos até dizem que ouviram falar sobre o assunto na capital, e outros, mais mentirosos e metidos a biscoito de sebo, dizem que chegou até o estrangeiro. Mas, deixemos de blá-blá-blá, pois conversa fiada não dá camisa a ninguém e vamos ao acontecido.

A cidade de Araçandi preparava-se com esmero para o teatro religioso, como fazia todos os anos. A praça já se encontrava apinhada de gente. As árvores, cheias de meninos nelas aboletados, mal se sustiam de pé. A bandinha já estava perfilada para tocar a marcha fúnebre. O prefeito e a primeira-dama já se encontravam a postos, emperiquitados em fatiotas novas, empertigados em duas cadeiras de pau-ferro maciças com almofadas de veludo vermelho. Todos esperavam ávidos que a cortina de alpaca roxa se abrisse para iniciar a encenação. Enquanto isso, no camarim, o clima era de desespero, pois o soldado que bateria em Jesus havia adoecido repentinamente, não dando tempo para treinar outro ator. Ninguém sabia o que fazer com a ausência de tão necessária figura. Foi então que Pilatos lembrou-se de Geró, que ele via, ano após ano, bem lá na frente, engolindo com os olhos toda a peça. Inclusive, jurou tê-lo visto chorar, muitas vezes, com as lágrimas descendo abundantemente pelo rosto e pescoço.

Geronildo foi chamado até o camarim e, todo orgulhoso, recebeu a incumbência como se estivesse substituindo o prefeito da cidade. Recitou as quatro falas de seu personagem, que sabia na ponta da língua, inclusive com uma entonação bem melhor do que a do ator doente. Imediatamente foi aprovado com louvor e alívio e, enfiado numa vestimenta da época, com a gálea a lhe tirar metade da visão, pois o soldado anterior tinha a cabeça bem maior. Recebeu a advertência de que deveria bater em Jesus suavemente, pois aquilo era um faz de conta. O novo astro só não podia imaginar que Jesus não era o mesmo dos anos anteriores. A mulher do antigo ator fora acometida por certa enfermidade, de modo que o marido teve que acompanhar a doente até a capital. E, assim sendo, outra pessoa havia assumido o seu lugar no papel do Crucificado.

Rufino Rapadura, o novo Jesus, estava atrasado para a cerimônia. Ainda bem que seu personagem não entraria no primeiro ato. Ressabiado, com medo de fazer um papelão, o moço resolveu tomar primeiro uns dois conhaques para ter coragem de aparecer em público como ator. Quando chegou, os demais atores já se encontravam a postos.

Eis que a cortina abre-se. Todos os olhares voltam-se para o palco. Judas, o delator, é vaiado pelo público com xingamentos indizíveis. Pilatos lava as mãos. A sentença é dada: Cristo será crucificado. Geró, o soldado, tem nas mãos um enorme chicote de couro cru. O elmo continua lhe tapando a visão. Só distingue Jesus pela coroa de espinhos. Mas, lá pelas tantas, incomodado com aquilo, levanta a gálea com a mão esquerda para ver melhor os colegas de cenário. É aí que a cobra fuma, pois Rufino, o Jesus, não era outro senão o filho de uma égua que há 11 anos havia fugido com sua noiva para São Paulo. E tão pesaroso e envergonhado ele ficara, à época, que nunca mais olhou para mulher alguma com enfeitiçamento, continuando na sua solteirice. A raiva de Geró voltou vivinha naquele momento. Parecia que aquele fato danoso de mau, havia acontecido ontem. Tudo rodou na sua cabeça. Perdeu a noção de tempo, de lugar e de seu papel de ator, quando ouviu a “deixa” de outro soldado:

– Agora, soldado, você tem que bater em Jesus!

Geró nem pestanejou. E foi lept-lept-lept, cada vez com maior força, sem dó e nem piedade. Quanto mais lhe pediam os colegas de palco para que maneirasse a mão, mais ele a pesava. A plateia gritava enraivecida com o a tirania do soldado. Jesus gemia e o soldado açoitava-o de verdade. Mas reconhecendo o tal soldado e vendo que o couro não teria fim, pois era fruto da raiva de certo acontecido, Rufino, o Jesus, resolveu tomar um tino e salvar a própria pele. Soltou-se das correntes, pulou do tablado e saiu em debanda no meio do povo com o soldado atrás dele. Muitas pessoas puseram-se a correr atrás dos dois, para salvar Jesus, num deus nos acuda. Foram precisos muitos homens para segurar o “malvado” soldado romano, para que esse não matasse o crucificado.

Na mesma noite Jesus, digo, Rufino, voltou para São Paulo com medo de ser assassinado por Geró. E, pela primeira vez, não houve o “descimento” da cruz em Araçandi, em mais de 60 anos.

Nota: Encenação da Paixão de Cristo em Nova Jerusalém

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