HISTÓRIAS DE ONTEM E DE HOJE

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Autoria de LuDiasBH

musca

Às vezes, nas minhas lembranças, encontro-me a alçar voo em direção à cidadezinha mineira onde nasci, como se o menino tivesse tomado o tapete mágico das Mil e Uma Noites emprestado. As lembranças vão surgindo aos borbotões, como se ali ainda vivesse. Na impossibilidade de manter as palavras nos limites do cérebro, e incapaz de conter meus dedos que teimam em dançar no teclado do computador, vou tomando carona nas lembranças, que não deixam de ser, no fundo, as mesmas de muitos que me leem.

Na minha mais tenra infância, vivendo num lugarejo onde não havia luz e tampouco chegara a caixinha mágica (TV) e, onde ainda se imaginava que “comunista” comia gente e que “judeu” significava capeta, o divertimento predileto da meninada era ouvir histórias, com predileção para as de piratas, princesas, monstros e assombrações. A criançada reunia-se harmoniosamente em volta de um bom contador de histórias e ali ficava até que as mães chamassem para dormir.

A velha Joaquina, personagem principal de minhas lembranças, piladora de arroz e café de nossas famílias, descendente de gerações e gerações de escravos, livre por direito, mas escrava de fato, era a nossa historiadora noturna, quando nossas famílias, acotoveladas em frente ao rádio, ouviam alucinadas as novelas radiofônicas. Momento em que a criançada aproveitava para viajar pelo mundo fantasioso da preceptora “habilitadíssima” para lidar com aquelas cabecinhas, que ainda não conheciam o limite entre realidade e fantasia. Causavam-nos terror, principalmente, as histórias de assombrações com seus zumbis e mortos-vivos. Não sei o porquê, mas a turnê pelo desconhecido acabava sempre com uma história de arrepiar os cabelos da cabeça, uma vez que não os tínhamos em outro lugar.

Já cansada, Sá Joaquina tacava-nos uma história de “fazer xixi na cama”, para se livrar mais cedo de nossas choramingas sempre pedindo mais uma, e descansar o corpo dolorido de moer os alimentos da burguesia do lugar. Hoje, imagino que a nossa habilidosa historiadora já manejava, embora de uma forma empírica, a tal psicologia infantil.

Dentre as histórias narradas pela nossa Joaquina (que Deus a tenha num bom lugar), uma ainda arrepia a alma de todos os seus antigos protegidos. Contava ela que nas sextas-feiras a mula-sem-cabeça, após a meia-noite, entrava na cidade para levar crianças com ela, principalmente as desobedientes (trocando em miúdos: todas nós). O sinal seria dado quando uma cancela batesse. E, para se livrar do feitiço da endemoninhada, nenhum menino ou menina poderia deixar dentes ou unhas de fora (não sei o porquê de a boa Joaquina não gostar de dentes, uma vez que os seus, contrastando com sua pele de ébano, pareciam um colar de pérolas brancas, quando sorria. As unhas, sim, eram encardidas e quebradas pelo manejo diário da mão de pilão.)

Meu Deus, qual era o vilarejo que não tinha uma cancela por perto? Assim, passamos longas e calorosas noites de sextas-feiras de olhos esbugalhados, com meias nos pés e mãos e com uma fralda na boca, debaixo de um suarento cobertor de lã, quer fizesse frio ou calor. De modo que o medo foi nos acompanhado desde a mais tenra idade.

Hoje, as histórias infantis são contadas num outro contexto, em que até o lobo mau não é mais cruel. E as crianças deixaram de acreditar em bicho papão, lobisomem e outras crendices. Nem mesmo o Predador é capaz de assustá-las. Contudo, aquele medo que carregávamos, enchia-nos de adrenalina e nos levava a sempre buscá-lo.

Nota: Imagem copiada de
http://lendasfolcloricas.blogspot.com.br/p/mula-sem-cabeca.html

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