ÍNDIA – A LUTA DOS PANTERAS DALIT

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Autoria de LuDiasBH

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Em Bombaim, o poderoso discurso do dr. Ambedkar, ao se converter ao Budismo, é adotado pelos intocáveis instruídos, num movimento militante que se autodenomina Panteras Dalit.

 Cansados, após longos séculos de sujeição a todas as castas, esses dalits rebelam-se, usando o mesmo caminho de Gandhi: a desobediência civil. Conscientizam-se de que não é mais possível aceitar o engodo de que inexistem. Truque usado pela fraqueza das autoridades indianas e pelo poder do braço forte do hinduísmo, para lhes negar qualquer tipo de direito, quer como cidadãos ou como seres humanos. Não é mais possível serem fantasmas que necessitam de comida, abrigo, saúde e educação.

Os Panteras Dalit reagem contra o entulhamento subumano em que se encontram nas favelas e calçadas das ruas de seu país, fazendo uso da água de esgoto, limpando excrementos humanos, trabalhando como coveiros, lixeiros e vendo seus filhos e idosos mendigarem pelas ruas, sendo enxotados como cães sarnentos, onde quer que estejam. Eles possuem agora a consciência de que “não” valem muito menos de que uma vaca, um macaco, ou outro bicho qualquer, dentro do próprio país. Reagem à cegueira que lhes impõe a sociedade indiana em relação ao saber, quando os impede de ter acesso à educação, como se fossem animais soltos no mato.

Não é mais possível aceitar viver num país que se diz democrático, sem usufruir dos direitos de cidadãos livres.  Lutam para romper com um sistema de servidão, que dura mais de 3.000 anos. Não dá mais para ser “a poeira debaixo dos pés de Brahma”, ou o desaguadouro dos dejetos da estupidez humana, que lhes nega até mesmo o acesso aos templos hindus, onde poderiam descarregar suas dores diante do que consideram divino. É preciso reagir contra os estupros feitos contra suas mulheres e crianças, contra os barracos queimados, porque a crença diz que não podem ter moradia e é preciso pagar a dívida do Karma. Dívida essa, nunca contraída, mas criada pelos poderosos espertalhões das castas altas.

 A vigência da Constituição, em todos os seus artigos, precisa ser efetiva. Chega de leis que não passam de espectros, quando o que vigora de fato é o poder dos brâmanes e dos xátrias em todo o país, que eles ousam, absurdamente, chamar de democrático. A luta pelos direitos civis dos intocáveis encontra motivação nas campanhas dos negros americanos e na dos sul-africanos. Se eles podem, os dalits também podem e devem lutar pela  dignidade de serem respeitados como cidadãos.

As raposas vorazes não querem dividir o osso, é fato, e ainda contam com a cegueira do Ocidente, que age como se fora os três macaquinhos chineses (não ouço, não vejo, não falo), optando por não se intrometer. A omissão é a resposta certeira dos egocêntricos. É preciso colocar-se em guarda contra a possibilidade de “essa gentalha” ter direitos, pensam os finórios encastoados, alegando que essa gente não existe, não ocupa lugar no país, é invisível, fantasmagórica e deverá continuar a sê-lo, pois é poeira  e no lixo deve ficar. A luta é encarniçada, com o sangue dos intocáveis banhando o solo do país da suposta “espiritualidade”, num paradoxo maluco e bizarro sem precedentes na história humana.

Juntos ao dr. Ambedkar, centenas de milhares de párias convertem-se ao Budismo. Muitos outros buscam o Islamismo e mais outros o Cristianismo. E, mesmo ali, ainda sentem o peso velado do preconceito. Pois as tradições hindus possuem tentáculos nas entranhas de toda a sociedade indiana. O sistema, dirigido pelas castas altas, usa suas garras afiadas para não permitir o rompimento dos elos da corrente de aço que separam os grandes dos pequenos. Há muito poder em jogo. A partilha mudaria a direção da correnteza. É inadmissível a mudança da ordem das peças do tabuleiro indiano, pensa os grandes. Não se permite alteração no jogo, quando se está ganhando. Rei é rei e peão é peão. E a rainha (Constituição) tem medo de usar sua liberdade de movimento.

 A poeira é apenas pó e pronto! É preciso dizimá-la antes que se transforme numa tempestade como as vistas no Saara. Para isso, o ódio sai a campo na terra da “espiritualidade”, fazendo dezenas de milhares de vítimas, que novamente voltam ao pó, de onde jamais deveriam ter saído, pensam eles – os ricos. Qualquer tipo de atrocidade é justificável, para escorraçar os cães nauseabundos e famintos, de modo que reconheçam o lugar que lhes foi reservado há mais de 3.000 anos. É muita  cara de pau,  exigirem o que não  merecem, se nada são, como definem os  costumes e as tradições  de um povo tão  “espiritualizado”.

Aldeias dalits são incendiadas. Mulheres e crianças estupradas. Homens dalits são aprisionados em emboscadas. Seus líderes ameaçados de terem a cabeça decepada, se continuarem a insistir na busca por direitos que nunca possuíram. A poeira tenta resistir ao vendaval, invadindo templos, tentando quebrar o elo de milhares de bizarras tradições, paridas para tornarem os dalits, párias de um país, onde abunda a “espiritualidade”, somente visível para os tolos. A poeira torna-se mais densa dando cria a líderes dalits em todo o país.

 Dalits são queimados, mas do pó de seus ossos nasce a coragem de seguir adiante e a certeza de terem sido os primeiros habitantes da Índia, muito antes da invasão do país pela raça ariana. Não mais aceitam a inferioridade como uma causa divina, mas como uma cilada preparada pelos descendentes da raça branca em conluio com o hinduísmo. Tampouco, aceitam a dor e o sofrimento como únicos direitos que possuem em vida. Exigem o cumprimento da Constituição indiana. Mas as castas ricas não arredam pé. São mais fortes, possuem o comando do país.

 Uma tocante “Carta dos Direitos Humanos dos Dalits” foi redigida com fortes apelos à ONU e à Comunidade Internacional. Acreditavam os intocáveis que o mundo, ao tomar conhecimento das atrocidades por eles sofridas, tomaria posição.  Expectativa que não se consumou. As leis do país continuam imorais, de modo que as sentenças variam de conformidade com as castas. Tampouco a Constituição garante aos intocáveis os direitos mais elementares necessários a um ser humano.

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