LOUCOS E SANTOS NO SERTÃO

Siga-nos nas Redes Socias:
FACEBOOK
Instagram

Autoria de LuDiasBH

lobo1

Todos por ali eram pobríssimos, só
havia dor, desespero ou humilhação
nos rostos curtidos pelo sol ardente,
que alumiava a terra árida e sedenta,
na mais excruciante das estações.

Os casebres tinham paredes de taipa,
e o piso batido de terra avermelhada
estava trincado e cheio de ondulação.
Eram nichos modestos e ressequidos,
incrustados naquela densa solidão.

Fora, o queimor abrasava feito tição,
capaz de esbrasear o corpo demisso
de quem o desafiasse em seu reino.
Vertia brasume por todos os cantos
daquele fatigado e esquecido sertão.

A poeira avermelhada dos caminhos
subia em nuvens de redemoinhos, pra
depois entocar nos furos das paredes,
e se assentar sobre esteiras rasgadas,
espalhadas aos montes pelo chão.

Os animais esparramados no chão cru
traziam uma expressão de melancolia,
jamais vista em bicho de terra alguma.
A agonia daquela gente amara ofendia
os olhos e vazava qualquer coração.

Era possível ouvir gotas de suor caindo,
a escorrer por aqueles rostos acabados,
quando o sol grudava lá no meio do céu.
Ninguém, a não ser os loucos e santos,
viveria naquela fatigosa situação.

O miserê aniquilava tudo, olhos secos
assuntando o viver abrutado do sertão.
Gentes e bichos decaídos coa desgraça,
varavam o céu com um olhar cruciante
em busca de uma milagrosa viração.

Havia no rosto daquelas gentes um dó,
uma amargura explícita ou repreensão.
As enxadas, arriadas, aguardavam o sol
queimante amainar, e a chuvarada cair,
pra plantar a esperança no sertão.

Nota: obra do pintor cearense Aldemir Martins

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *