LUXÚRIA NÃO VEM DE LUXO

Autoria de LuDiasBH

pelada

Ainda ressoam na minha mente as palavras de Frei Peregrino, professor de Religião, ao receber a minha redação sobre um dos Sete Pecados Capitais. E eu tinha que escolher essa tal de Luxúria, com tantos pecados à solta? Talvez tenha achado o nome mais pomposo. Coisa de criança de outrora, cuja vida norteava-se pela mais deleitosa inocência.

Naquela época, tudo nos era passado como dogma de fé, sem necessidade alguma de compreensão. E com isso, a gente acabava usando o famoso método da “decoreba”, por sinal muito leve, pois a “sabença” logo era jogada fora pela mente, assim que tivesse cumprido o seu papel nas provas ou arguições. Nada de carregar um fardo desnecessário. O fato é que não sei o porquê de a Luxúria não ter sido comentada pelo padre professor. Ou talvez tenha sido e eu cabulei aula no exato dia, para meu azar. Somente me lembro de ele ter dito que a tal “senhora” era o pecado que o diabo mais gostava, sendo a mãe de todas os outras transgressões do espírito. Se era a preferida do diabo, deveria ter um peso enorme.

A nossa prova final consistia de uma redação sobre um dos Sete Pecados Capitais, à escolha dos aluninhos, que preferiam um jogo de queimada. Optei pela LUXÚRIA, coisa muito fácil de ver nas famílias mais ricas do lugar. Bastava explanar sobre o modo como viviam esbanjando riqueza e luxo, menosprezando as pessoas pobres. Coisa que muito me incomodava, já naqueles tempos. Iam todas se queimar nos quintos dos infernos, pensava eu. Por que alguns tinham tanto, enquanto outros precisavam mendigar pela rua? Era ali que Satanás fazia a sua morada, listando os luxuriosos nos seus anais, enquanto Jesus anotava o nome dos mendigos.

Eu fiz minha redação com o mesmo gosto de um juiz dando sua sentença. O lápis deslizava pelo papel desancando aquela gentalha metida a biscoito de sebo, a chamada “elite”. Falei sobre joias, carros, excesso de comida, roupas caras, menosprezo pelos pobres e mais um mundaréu de maldades feitas pelos ricos opulentos, prepotentes e gananciosos. Enchi duas folhas com louvor. Sentia-me vingada. Só nada comentei sobre sexo, coisa muito comum entre os endinheirados, que pulavam de galho em galho no cair da noite, pois isso não era da minha conta. Minha mãe nunca aceitou que falássemos da vida íntima das pessoas, e aquilo não era assunto para uma criança da minha idade, que ainda cheirava a leite nos meus sete anos.

É verdade que existiam as mulheres do Pilão Sem Tampa que recebiam inúmeras visitas masculinas. Muitos homens preferiam conversar com essas verdadeiras damas, sobre seus negócios e educação dos filhos, a conversar com suas esposas rabugentas. Tais mulheres estavam sempre sorridentes e vestiam-se de acordo com o clima quente da região, propício para pouca roupa. Eram uma espécie de gueixas da época, mulheres que conheci através de uma revista, com seus cabelos pretos como as noites sem lua. Cheguei até a pensar em ser uma delas, tal era a liberdade de que gozavam. Tratavam ricos e pobres, que delas se aproximavam, com o maior carinho. Coisa de gente boa, simples, cordial, amiga e amorosa. Além do mais, durante a missa, o frei dizia que “Deus era amor” e que todos deviam amar uns aos outros. Assim sendo, achava a maior maravilha saber que elas viviam de fazer amor, o que para mim estava relacionado com a bondade suprema.

O fato é que, dois dias depois da prova, eu fui chamada à sala do vigário, após a leitura de minha redação. Ali adentrei orgulhosa, de cabeça erguida. Pensei que fora convidada para receber os mais do que merecidos parabéns. Mas que triste engano! Ele se pôs a explicar-me o real sentido da palavra “luxúria”, ou seja, libertinagem, lascívia e coisa e tal. Acreditei, mas não muito! E até hoje brigo com o dicionário, pois “luxúria” deveria derivar de “luxo”. Não sei quem arranjou essa bobice de trocar o certo pelo errado, só para confundir a cabeça das crianças.

E, para encurtar esse papo libidinoso, frei Peregrino deu-me a oportunidade de fazer outra redação. Dessa vez optei pela Gula, pecado tão conhecido, principalmente entre nós, crianças. Mas falar da gente mesma é uma coisa muito chata. Foi aí que escolhi Lucrécia, uma moça bonita, um pouco gorducha, muito famosa na cidade. Todo mundo dizia que ela   “traçava” todos os homens do lugar. Era uma comilança sem fim. Acho que ela e eles comiam o dia todo. Ou será que isso era Luxúria?

Ilustração: Vênus, Cupido e as Paixões do Amor – c. 1543, Agnolo Bronzino

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