MEU PRIMEIRO PILEQUE

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Autoria de  LuDiasBH

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Caminhava eu lá para os meus nove anos, quando a lequéssia fez-me a sua primeira visita. Até então, minha vida de menina bem comportada fluía entre guaranás e sucos. Nunca havia feito uso de qualquer bebida imprópria para menores até aquele fatídico dia, em que Ilka literalmente me derrubou.

Lembro-me de que era um sábado, dia em que minha mãe saía cedo para a feira com o intuito de encontrar carne boa, verduras, legumes e frutas frescos, pois, conforme dizia, quem vai à frente bebe água limpa. Contudo, nunca consegui entender tal ditame, já que dois terços da cidade iam à feira no mesmo horário. Meu pai, por sua vez, cuidava de seu pequeno empório, de onde tirava o sustento da família. De modo que as manhãs de sábado ficavam inteiramente livres para as minhas estripulias, inclusive essa que ora narro. Mas quem era Ilka? O leitor poderá arguir com toda a razão, pois não faz parte da boa educação ir jogando pessoas na história sem primeiro apresentá-las. Ilka era a funcionária para assuntos domésticos, que há muito tempo trabalhava em nossa casa. Era também meu modelo de moça perfeita no trato com os namorados e minha mestra em assuntos que eu não ousava perguntar à minha mãe na minha aparente precocidade.

Naquele fatídico sábado, Ilka chegou mais cedo do que de costume. Trazia os olhos vermelhos e inchados. E, na sua linguagem realística, contou-me que levara um “pé no traseiro” que, trocando em miúdos, concluí que fora trocada por outra pelo namorado. A coitadinha queria morrer e eu não poderia deixar minha grande amiga morrer sozinha. Voltando ao passado, revejo com clareza como esse meu senso de solidariedade sempre me trouxe mais prejuízos do que lucros. E pior, ainda me acompanha até os dias de hoje, apesar das muitas lambadas recebidas. Vamos ao resto da história sem choramingas, pois a culpa é somente minha.

Minha divina musa resolveu que antes de morrer, iria “encher a cara”, o que me levou a surrupiar um litro de Cinzano das pequenas posses de meu pai. Amigas solidárias, começamos um vira-vira que resvalou depois para uma branquinha de vinte anos, muito bem guardada. As três primeiras doses foram um tremendo sacrifício para o meu paladar e para o meu pobre estômago ainda virgem. A quarta já desceu bem mais conformada. Sobre a quinta em diante, nada posso falar, já que delas não tive conhecimento. Enquanto isso, minha mãe resolveu passar pela casa da minha avó, demorando mais do que o previsto. Ou seja, o campo continuava livre para nossa despedida daquele mundo cruel e desalmado para com os corações apaixonados.

Peço permissão ao leitor, para saltar a parte em que entrei num “quase” coma alcoólico, já que me ausentei do mundo durante o resto do dia e a noite inteira, embora meu corpo continuasse trabalhando no sentido de expelir tudo, inclusive a alma. Dizem que fiquei molenga feito gelatina, sem jogo em nenhuma parte do corpo, mais parecendo uma boneca de pano. Do outro lado, Ilka botava para fora os próprios bofes, ainda meio consciente.

A cura de minha pequena e pobre figura foi um caso à parte. Cada pessoa que entrava em nossa casa ensinava um remédio caseiro diferente: chá de gengibre com mel, chá de casca de salgueiro, chá de boldo, café forte, água de fubá… Mal vomitava uma “iguaria”, outra entrava no lugar. Segundo meu irmãozinho, eu mais parecia um laboratório de experiências antirressaca. Mas o pior estaria por vir, pois desgraça pouca é bobagem.

Mil anos que eu viva, não poderei me esquecer de ter me acordado no dia seguinte, sentindo-me como um peixe no limão. Para qualquer lado que virasse, um cheiro acre entrava-me pelas narinas. Fiquei sabendo depois, que uma vizinha, já se aposentando na arte de curar as ressacas do marido, ensinou à minha mãe que cortar um limão ao meio e esfregar cada parte nas axilas era um santo remédio. Não sei se foi pela afobação, ou pela raiva, ou para se verem livres de tamanho incômodo, ou por tudo isso junto, o fato é que minha mãe e minha tia deram-me, literalmente, um banho cítrico. No mínimo, duas dúzias de limões foram usadas no meu corpinho inocente e puro como uma flor de laranjeira. Haja judiação!

Um chicote aguardava-me no dia seguinte, mas ao me verem tão abatida feito uma sanfona velha escangalhada e com uma dor de cabeça do cão, meus pais acharam por bem ficar apenas no sermão. Eu não merecia aquilo. Sermão e dor de cabeça não interagem em lugar algum do mundo. A surra teria sido melhor e menos demorada. Já que estava moída pela ressaca, nem iria sentir as lamboradas do relho. A partir daí veio a sessão de sucos de frutas. Estavam gostosos no início, mas, em excesso, tornaram-se abomináveis. Eu só ouvia “Abra a boca, pestinha! E sem reclamar!”. Sentia como se a minha boquinha fosse um funil por onde tudo escorria. Ao término do dia, já estava melhor, mas cabisbaixa, pois a rua toda soubera do vexaminoso acontecimento.

E a Ilka? – deve estar perguntando o leitor. Bem, a minha musa foi perdoada, mas seus serviços dispensados. Coitada, sem namorado e sem trabalho. Um mês mais tarde convenci minha mãe a aceitá-la de volta, contando que fora eu a incentivadora da beberronia. Ela retornou para nossa casa, depois de ouvir uma cansativa ladainha e fazer mil e uma promessas. Reatou com o namorado, responsável por nossa derrocada, e anos depois se casaram.

O fato, meu caro leitor, é que aquele fogaréu me marcou para sempre. Não suporto nenhuma bebida doce. Passo longe de Cinzano, Caldezano, Cortezano e qualquer outro indivíduo que faça parte dessa família desgraçada. Para dizer a verdade, não gosto nem de seus parentes mais distantes e chiques como Martine doce e os licores. Até mesmo o vinho branco escorraça-me. Mas o tinto… aí é outra história.

(*) Imagem copiada de
http://portaldajapa.blogspot.com.br/2011/04/bebe-pra-esquecer-os-probremas.html

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