MEUS ANOS DE CATECISMO

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Autoria de LuDiasBH

cat.

“Condena-se o pecado, não o pecador”,
dizia Frei Peregrino a nós, menininhos,
nas aulas dominicais de catecismo.

A partilha de santinhos era o momento
mais aguardado, depois da tediosa lição.
E, se o dito na nossa coleção era repetido,
travávamos um troca-troca desenfreado:
Santa Lúcia por São Sebastião, São José
por Santa Rita, São Pedro por Damião…

Foi assim que essas criaturinhas crédulas,
singelamente aprenderam a fazer escambo.
Como todo comércio passa por mudanças,
o produto de nosso câmbio acabou trocado:
em vez da coleção dos inocentes santinhos,
passamos ao troca-troca de namorados.

Mas o nosso bondoso padre, preocupado
com a salvação de nossas tolas alminhas,
levou o caso a uma estância mais severa –
os pais, que puniram os puros “pecadores”,
e não os seus pueris pecados, como dizia
a lição da doutrina a nós ensinada.

Revelo que foi dessa desdita que nasceu
a minha discordância com a religião, que
expunha as crenças, conforme a ocasião,
sem levar em conta a lição das aulas de
catecismo a seus devotinhos ministrada.

2 comentários sobre “MEUS ANOS DE CATECISMO

  1. Edward Chaddad

    LuDias
    Há uma distância entre as palavras e a ação. E ela – para a grande maioria das pessoas – é muito grande. Imensa.

    Quando criança, embora cercado de amor e muita alegria, vivi um mundo de sombras e trevas de informação, o conhecimento não chegava talvez por medo de que fosse destruir os fundamentos sociais daquele tempo. Não pensava, assim, quando me dirigia ao catecismo. Ouvia tudo que o padre falava, que entrava por um ouvido e saia por outro. Só tinha que decorar as orações, se não – como você muito bem versou – os pais vinham com tudo.

    Os pecados – ora vejo-me como criança, ser humano ainda pouco desenvolvido, que buscava o aprendizado e muita brincadeira, coisa do espírito lúdico que nos habitava, as desobediências infantis, frutos de um limitar incessante e necessário, acredito – mas… pecados. Que pecados?

    Logo depois lá no confessionário, as mesmas perguntas e o pedido do religioso para se arrepender e rezar muito – no meu caso – tinha que ficar mais de um hora rezando, recitando as orações ensinadas. Será que era tão terrível e pecador assim ou tinha a coragem de contar tudo? Assim, demorava muito. Acho que os meus amigos – demoravam alguns minutos nas suas orações diante do altar e logo saíam tinha a esperteza do lado (rsrsrs).

    O certo é que, no entanto, aprendi com tudo isto que as palavras e as ações podem estar muito distantes. Ali, no púlpito, o padre fazia o sermão. Logo depois, no entanto, tocava do templo os mendigos que buscavam abrigo para a noite. Reparei nisto muitas vezes. As portas se fechava e uma vez deparei-me com uma família de pobres e desamparados dormindo bem na entrada do templo, em local onde não batia o vento frio que soprava do sul. Estavam necessitando de cobertores. Corri até minha casa e pedi aos meus pais. Deram-me cobertas. Levei-as imediatamente e fiquei muito feliz ao vê-los mais protegidos das agruras do frio daquele inverno intenso.

    Na verdade, Lu, entre as palavras e a ação há uma distância muito grande. E foi esta distância que me afastou da igreja. Ainda tenho e muito o cristianismo em meu coração, não posso confundir a Igreja dos homens com o cristianismo. Acho que devemos, ao nosso modo, quietos no canto e incógnitos, fazer com que o espírito cristão atue mais nas ações do que nas palavras.

    Não vou esquecer as palavras: eu sou o caminho, a verdade e a vida!

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Ed

      A Igreja Católica é hoje bem liberal, se comparada à sua rigidez daqueles tempos. Acho que é uma das poucas que vem acompanhando o desenrolar da história. Enquanto isso, as ditas “evangélicas” são horrorosas nas suas cobranças e na maneira como vê o mundo. E pior, os pastores podem tudo e os fieis nada podem.

      O Frei Peregrino, um franciscano que veio para o Brasil aos 20 anos, era um homem bom, humano e muito fervoroso, que acompanhava as famílias nos nascimentos e mortes. Estava presente em todos os momentos de alegrias e tristezas. Era de verdade um guia espiritual. Devotávamos-lhe um grande amor e respeito. Ainda hoje, é a minha referência de pessoa sábia e amiga.

      O fato é que, quando começamos a desaparecer do catecismo, ele procurou saber o que estava nos acontecendo. E comunicou o fato a nossos pais. Daí para a frente, íamos sempre acompanhados por alguém da família… risos.

      Abraços,

      Lu

      Responder

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