CLÔ E SEU DEUS GREGO

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Autoria de LuDiasBH

  clo

A minha amiga Clotilde dos Anjos, há mais de sete anos viúva, resolveu que já era hora de botar um ponto final no luto e buscar pelos regalos da existência, tamanha era a sua privação amorosa. Afinal, o falecido, em vida, não fora lá aquele exemplo de fidelidade suprema, sempre dando um jeito de pular cercas e cercados, ainda que por breve tempo.

O corpo enviuvado de Clotilde, ainda em pleno vigor físico e cheio de tesura, ansiava por uns acochos e certas partes precisavam de uma lubrificação, pois afinal ninguém é de ferro. E, se de ferro fosse, a ferrugem já teria se alastrado por todos os membros, inclusive pela arca onde se abriga o mais guardado dos tesouros. O fato é que a minha amiga ainda é um gazofilácio cobiçado por muitos marmanjos, em quaisquer que sejam as plagas, com sua anatomia bem distribuída, com duas arredondadas almofadas que dançam enquanto ela caminha e  seu sorriso enfeitiçante.

Clotilde dos Anjos foi aconselhada a fazer sua procura no site virtual Badoo, onde os corações solitários, e também os marotos e levianos, encontram-se, a princípio virtualmente e depois, só Deus sabe. E foi ali que ela ficou conhecendo o grego, naturalizado brasileiro, Anfilosófio. Sua foto impressionista, difícil de ser visualizada, aumentava ainda mais o mistério sobre aquele filho de Zeus. Suas palavras demonstravam uma inteligência afiada, coisa que ela sempre admirara num exemplar macho da raça humana.

Durante cerca de dois meses, Clotilde e Anfilosófio viajaram pelo Monte Olimpo. Acabados os deuses, partiram para os filósofos, de Anaxímenes a Anaxágoras de Clazômenas. A sabença de minha amiga avolumava-se proporcionalmente à sua vontade de conhecer o admirável e erudito mancebo. Só de pensar no dito, todos os fios de cabelo arrepiavam-se de puro desejo. Ela esperava, aflita, que o distinto sábio, gentil e idealizado cavalheiro tomasse a dianteira do encontro tão ardentemente desejado.

Anfilosófio, reunindo toda a coragem dos filhos de Esparta, convidou Clotilde para um cinema, o que já era um bom começo. Nervosa, a minha amiga vestiu uma calça de periguete fazendo par com uma blusa de seda lilás esvoaçante e um sapato dourado, salto agulha de 15 centímetros, sem falar nos vários adereços que compunham seu visual de perua deslumbrada. O medo de que viesse a cair do salto, tamanha era a expectativa para o encontro, fez com que ela, antes do imaginado “affair”, perambulasse pelo shopping, comprando tudo aquilo de que não precisava, enchendo-se de sacolas.

Cinco minutos depois da hora marcada, pois o excesso de pontualidade demonstraria sua ansiedade, lá estava Clotilde dos Anjos em frente à bilheteria do cinema. Seus olhos percorriam com sofreguidão tudo em volta, à procura do deus grego. Foi então que saiu detrás de uma pilastra o galã da noite. Ali estava Anfilosófio em carne, osso e feiura, tentando dar um ar de leveza ao primeiro encontro de ambos. Se a fealdade pudesse ser descartada, o tamanho não seria, já que minha amiga é bem fornida de corpo, um modelo ideal para Renoir. Anfi, apelido amoroso usado nas trocas virtuais, mais parecia um birro de coelho, alcançando-lhe a cintura. Era o que literalmente se chama “tampa de binga”, deixando Clô desolada.

Ao desconfiar que aquele era Anfilosófio, minha amiga tentou dar meia-volta e sumir shopping adentro, mas seu ex-deus grego foi mais rápido, segurando-a pelos braços e lhe mostrando os dois ingressos. Aliado ao desencanto, Clô tremia nas bases de medo de encontrar uma de suas amigas gazelas por lá. Com certeza iria mangar dela, dizendo que estava mesmo a perigo. A Maria Ernestina, debochada como era, seria capaz de espalhar aos quatro ventos que ela estaria matando cachorro a grito. Isso não!

Contudo, Anfi era só encantamento. Não desgrudava os olhos de minha amiga. Assim que se assentaram, ele lascou:

– Eu só assisto a  um filme de mãos dadas! Sou muito carente!

Desorientada, enraivecida e desapontada, Clotilde dos Anjos respondeu na bucha, sem desgrudar os olhos da tela, enquanto abraçava fortemente suas sacolas:

– É muito fácil! Você tem duas mãos, portanto, basta enroscar uma na outra, que fica de mãos dadas.

Ao final da película, Anfilosófio levou Clotilde dos Anjos até o metrô, onde ela achou que lhe devia, pelo menos, um abraço de despedida. Abaixou-se, despistadamente, e deixou que ele baforasse seu cangote com seu hálito de hortelã, pois na falta dos beijos sonhados, o grego chupou Halls durante todo o filme.

Depois de ter, durante dois meses, enchido-me os ouvidos com a sapiência e educação de Anfi, Clô desabafou comigo:

– Olhe amiga, descobri que só inteligência não dá para segurar um embeleco!

Nota: Imagem copiada de meire-pacheco.blogspot.com

4 comentários sobre “CLÔ E SEU DEUS GREGO

  1. LuDiasBH

    Ed

    Acabo de dar uma boa gargalhada.
    Você foi no cerne da questão.
    Eu tinha que contar o causo com fidelidade, mas sem ofender a minha amiga Clô… risos.
    E você acaba de me dizer que consegui.
    Logo, não serei amaldiçoada pela minha amiga.

    Abraços,

    Lu

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  2. Edward Chaddad

    LuDias

    Adorei este texto. Está mesmo muito divertido. No final, ainda, a Clô teve sorte de não encontrar alguém cruel e maldoso. Pelo menos o Filó era educado e não se atreveu a ir mais em frente.

    Gostei muito deste trecho do texto:

    “O fato é que a minha amiga ainda é um gazofilácio cobiçado por muitos marmanjos, em quaisquer que sejam as plagas, com sua anatomia bem distribuída, com duas arredondas almofadas que dançam enquanto ela caminha e seu sorriso enfeitiçante.”

    Dificilmente poderia encontrar alguém que, com autenticidade, fizesse uma narrativa tão hilariante e ao mesmo tempo elogiosa a alguém.

    Gostei demais.

    Responder
  3. celia

    Lu querida. Coitada da sua amiga Clo com o deus grego. A pobrezinha deve ter sofrido a maior decepcão e não resolveu seu problema. kkkkkkkk
    beijinhos

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Celita

      Eu adoro a Clô e fiquei morrendo de pena da coitadinha, embora ela tenha me contado a sua história sob uma chuva de sonoras gargalhadas.
      Aposto que já está pensando em encontrar um viking nas suas andanças.
      Você iria adorar conhecê-la.
      Com ela não tem tempo ruim.
      Agora está indo para as Antilhas.

      Grande beijo,

      Lu

      Responder

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