MINHA DOCE MARIA ROSA
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Autoria de LuDiasBH

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A chuva descia tecendo um cálido cendal de lágrimas.
Na plataforma, pessoas encolhiam-se frientas e tristes,
esperando a partida do trem a lhes levar parte da vida.
Maria Rosa e eu estávamos no rol dessa expectativa.

O trem chegou nubloso, uivando sobre trilhos molhados.
Alguns viajantes desceram e sumiram em meio à neblina.
Anunciaram vinte minutos de espera naquela estação fria.
Minha alma rasgava-se de tristeza junto a Maria Rosa.

Ative as mãos de minha musa nas minhas com ardor, e
fui o último passageiro a embarcar sua triste e oca figura,
enquanto deixava pra trás o coração nessa noite chuvosa.
O que seria de mim sem a minha adorada Maria Rosa?

O trem apitou e lançou para frente o seu rude corpanzil,
ficando pra trás a estação e minha amada, entre lágrimas.
Através das vidraças molhadas pela chuvinha incessante,
ainda que por um instante, vislumbrei minha Maria Rosa.

Quando o trem margeava próximo a uma e outra cidade,
era possível ver as luzes dos postes, ruas e muitas casas,
mas meus olhos só viam a feição amorosa de Maria Rosa,
tal como uma joia preciosa ou uma obra-prima de Goya.

O trem foi rasgando as trevas da noite com seu estridor,
acordando campos, bichos, homens e rangendo trilhos.
O meu coração cada vez mais se adensava e comprimia,
lamentando a falta de minha bela e meiga Maria Rosa.

Maria Rosa, ua junção de castidade mística e alegria pagã,
eu a queria tanto pro deleite de meu corpo e minha alma.
Por que não me esperou? Queria ter perecido na guerra,
mas foi ela, minha amada, a ser escolhida pela morte.

Desci naquela mesma estação como um farrapo humano,
um cão sem dono, um muro sem prumo, um doido varrido.
Conselho algum me convence por ter sido salvo da morte,
pois preferia estar morto ao lado de minha Maria Rosa.

Nota: Retrato de Antonia Zarate – Francisco de Goya

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