MINHA ÚLTIMA ESMOLA

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Autoria de LuDiasBH

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Ele me toca o corpo com mãos macias.
Pelo correr dos dedos imagino a petição.
Meus desejos fecham-se em fortes elos,
corpo e alma refugam-se da relação.

Sinto-me só, desértica de sentimentos,
pois minha paixão esvaiu-se em fumaça.
Após aquela carta tosca rabiscada a mão,
resta-me a calma perversa da desgraça.

Martírio, inda não poder lhe jogar na cara
minha raiva soturna, transida de emoção.
Anelos são árvores de ramos retorcidos,
no bosque de cruéis e astutos artifícios.

Rompeu-se a cortina vaporosa e ilusória
de um grande amor por tolos acalentado.
Que retumbe a melodia vil do desespero,
e a desilusão ressoe forte pelos ares.

Não sei mais em que parte do caminho,
nós soltamos nossas mãos tão efusivas.
Hoje, ele vagueia feito um cavalo afoito,
abrasando o leito de muitas raparigas.

Mas a carta, com cheiro de perfume ruim,
boca grossa pintada com batom escarlate,
veio atada com uma fita de renda barata,
escrita: “Meu grande amor, morro por ti!”

Ele não viu a prova cabal de sua desdita,
pois a dita veio tombar em minhas mãos.
Amanhã é o dia fatal: ele e eu, cara a cara,
para o diabo com sua vida desmedida.

Cedo-lhe ora  meu corpo oco,  indiferente,
enquanto vago pelas asas aladas do tempo.
Com pena, inda lhe oferto a minha esmola:
pela última vez servir-lhe de recipiente.

Nota: a ilustração é obra de Amedeo Modigliani

2 comentários sobre “MINHA ÚLTIMA ESMOLA

  1. Pedrorui Rui

    Belo poema, pois quando damos como esmola o nosso corpo e nossa alma, não há maior esmola do que essa.
    O poema é uma história triste, até parece a letra dum fado, risos.

    Um abraço Lu

    Rui Pedro

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Rui

      HAHAHHAHAHHAHA
      Parece mesmo um fado.
      Mas não se preocupe, não passa de uma história… risos.

      Grande abraço,

      Lu

      Responder

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