NEGRINHA

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Autoria de LuDiasBH neguinha

Negrinha era uma menininha órfã com sete anos,
de pele escura, olhos assustados e cabelos ruços.
A coitadinha nasceu na senzala, de mãe escrava, e
viveu seus primeiros anos pelos cantos da cozinha,
sobre uma velha esteira com seus trapos sujos.

D. Inácia, a ama, dama de poder e grandes virtudes,
esteio da fé e moral cristã, não gostava de crianças.
Não admitia choro infantil em seus sensíveis ouvidos.
Se não a aborrecera o choro de seu próprio recôndito,
não seria agora que aceitaria choro de carne alheia.

O choro da guria jamais vinha sem razão: fome ou frio.
Cresceu magra, atrofiada, com olhos sempre assustados.
Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono.
Batiam-lhe sempre: por ação ou omissão. O mesmo ato
ou a mesma palavra provocava ora castigo ora risadas.

A dita senhora punha-a na sala, a seus pés, e ordenava:
– Sentadinha aí, e bico calado! Nada de me incomodar!
A menina cruzava os bracinhos a tremer, com susto nos
olhos e se imobilizava no desvão da porta durante horas.
E o tempo corria, sem que se lembrasse de tirá-la de lá.

Negrinha nunca ouviu uma palavra de carinho: pestinha,
capeta, barata descascada, pinto gorado, mosca morta,
pata-choca, sarna, bisca, trapo, coisa-ruim, lixo, sujeira,
coruja, bubônica (que por sinal achou uma linda palavra).
Tiraram-na da lista. Não teria um só gostinho na vida.

O corpinho da menina era tatuado de cicatrizes e vergões.
Não havia um só fanico dele onde não se notasse um sinal.
A pobre carne exercia uma grande atração para sua sinhá,
com suas mãos branquelas, afiladas, de unhas agulheadas.
E lá vinha uma chuva de cascudos, cocres e beliscões.

A “bondosa” dona Inácia era mestra em judiar de criança.
Ex-senhora de escravos, nunca se afizera ao regime novo,
“Essa indecência de proclamar que negro é igual a branco.”
Deixava Negrinha na casa como saída pra seus tresvarios.
Era na coitadinha que dava viés à sua antiga sanha.

Com a cruel vieram passar férias duas de suas sobrinhas:
loiras, felizes, ricas, nascidas e criadas em teto de plumas.
Negrinha viu-as irromper pela casa como dois anjos do céu.
Sentiu vontade de entrar na festa infantil, mas a dura lição
da desigualdade humana chicoteou-lhe a alma em botão.

– Já para o seu lugar, pestinha! Não se enxerga? – uivou a ama.
A coitadinha da criança encurvou-se no cantinho de sempre,
com os olhos assustados e marejados de lágrimas dolorosas.
Sua dor física era imensamente menor que a angústia moral.
E entre lágrimas doídas mergulhou a martirizinha.

As meninas loiras mostraram uma boneca à pequena órfã,
que jamais vira uma em sua pequena existência de “coisa”.
Sem jeito, como quem segura o Menino Jesus nos braços,
ela ria para a boneca e para as meninas, de olho na porta,
vigiando para não ser pega desobedecendo a capitã.

Dona Inácia chegou sem ser vista e ficou espiando a cena.
Era tal a alegria das meninas ante a surpresa de Negrinha,
que seu coração tocou, e pela primeira vez se fez mulher:
apiedou-se de alguém. Varia a pele, a condição social, mas
a alma da criança é a mesma – na mendiga e na princesa.

Negrinha notou nesse dia que tinha uma alma. Era humana.
Mas essa consciência não trouxe nenhum bem pra pequena,
pois, terminadas as férias, as duas loiras meninas partiram,
levando consigo a boneca com a qual ela penetrara no céu.
Foi-se embora o pequeno anjo que no colo acalentara.

A casa voltou ao ramerrão habitual. Era tudo como dantes.
Mas Negrinha não mais retornou a si, pensando na boneca.
Não mais levava nos olhos a expressão de susto. Mal comia.
Trinta quilos mal pesados. Foi caindo numa tristeza infinita.
Seus olhos eram agora nostálgicos e cismativos.

Morreu Negrinha na esteira rota, abandonada por todos.
Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza.
O delírio rodeou-a de belas bonecas e de muitos anjos,
que dançavam à sua volta, enquanto subiam para o céu.
Abraçada àquelas mãozinhas de louça ela era só leveza.

Nota: este poema tem por base o conto Negrinha, de Monteiro Lobato.

10 comentários sobre “NEGRINHA

  1. Patricia

    Oi Lu,
    fui lendo, e a imaginem de muitas Negrinha com seu olhos negros tristes e corpo franzino perambulando por todos os cantos, apertou meu coração.

    O tempo passa, o homem diz-se evoluído, mas continua carregando o histórico de desigualdade e descriminação.
    A verdade é que a maioria de nós continua a ser e viver como pré-históricos (trogloditas) em nossos sentimentos, em relação ao nosso próximo.

    Um grande abraço

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Pat

      A negrinha do poema continua por quase todos os cantos do mundo, como se pertencesse a uma outra espécie. Certos homens ainda se consideram seres especiais, carregando a sua bagagem de menosprezo por aqueles que não são como eles.
      Malditos sejam!

      Beijos,

      Lu

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  2. Matê

    Morro de vergonha quando vejo que existem pessoas que humilham outras pelo tom da pele. Pura maldade. Ainda há muito a fazer para apagar essa mancha do racismo. Ainda que disfarçado, ele ainda se manifesta, infelizmente.

    Abraços
    Matê

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Matê

      Tenho o mesmo sentimento que o seu. É como se nos tornássemos menores, ainda que não sejamos donas da ação. Mas ainda é uma triste realidade. E saber que ao final, todos nos transformaremos em pó…

      Beijos,

      Lu

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  3. LuDiasBH Autor do post

    Ju

    O mais triste é saber que a escravidão ainda continua fazendo parte da vida dos trabalhadores das fábricas, das lavouras, das empresas diversas, da Educação, da Saúde, e em muitas outras frentes de trabalho. Agora, junto ao negro também se encontra o escravo branco, enquanto seus senhores dobram suas fortunas. Refiro-me também ao poder público, sobretudo o municipal e estadual, que sugam seus servidores.

    Obrigada pelas palavras generosas e a lembrança de nosso grande Castro Alves.

    Abraços,

    Lu

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  4. Julmar M. Barbosa

    Uma das maiores demagogias de nosso país é exatamente a “ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA”. Na verdade ela foi imposta pelo poderio inglês e americano que queriam alavancar as suas indústrias, nada diferente de hoje.

    A singularidade da beleza de seu poema supera – sem demagogia – os poemas de Castro Alves. A leveza e suavidade por ele transmitidas iguala-se à leveza e pureza de “NEGRINHA”.
    Lindo! Simplesmente lindo!

    Responder
  5. Alvimar

    Lu,
    Você traduziu em beleza o drama da condição da menina. Eu quis trazê-la comigo, tirá-la do seu tempo. Carregar a negrinha no colo e dizer a ela: “Está tudo bem agora…” Nós vimos a criança triste, e vimos o mal do coração dos homens. E queria que o mundo fosse feito de negrinhas. Queria vê-las felizes, correndo pela casa, segurando nas mãos as bonecas.

    “…a alma da criança é a mesma – na mendiga e na princesa.’. É uma bela frase, é verdadeira. No entanto a mesma alma não garante a mesma vida. O que parece ter passado ainda é realidade. Pois negrinhas ainda existem nos sinais e nas ruas frias. Agora eu me pergunto quem sou. Eu não estou ao lado delas. Passei por ela hoje cedo, mas estava ocupado, olhando o celular, pensando no boleto, dirigindo apressado. Então não sou diferente da ama D. Inácia. Porque eu não vejo a negrinha, e porque não me importa se ela sonha com a boneca, ou se tem fome, ou se estuda.
    Eu sou também culpado pelas negrinhas. Fui eu que as amei em discurso, mas nada fiz por elas.

    Há algo lindo em você. Por ter lido e escrito. Você se doou para a menina, e fez muita gente lembrar dela. A beleza mais sincera está no espírito e vem à tona. E revela a alma da poetisa, mais humana que a dos homens, transparente como a água… Corajosa e audaciosa.

    Obrigado querida escritora, mil vezes… Obrigado. Sem vocês essas crianças estariam sozinhas e esquecidas, e o mundo cada vez mais frio, e o homem mais degradado. Cada vez mais aumenta meu orgulho por estar aqui com você. É um prazer que você exista, e um conforto para aqueles que buscam justiça, igualdade. Meu sorriso agora é seu, por ter me acendido a esperança.

    Obrigado.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Alvimar

      Se o seu coração não carregasse tamanha sensibilidade com certeza não seria o grande pintor que é, pois a arte só o é, para mim, quando é capaz de tocar o coração das pessoas, numa troca entre emissor e receptor.

      O seu texto daria um outro poema, encharcado de sensibilidade e amor à humanidade. Sentimentos tão peculiares ao artista que é, capaz de condoer-se com cada “negrinha” que encontra pelo caminho, seja ela negra ou branca.

      Não, você nada tem da dona Inácia. Ainda que não as tome pelas mãos, sua obra dá-lhes vida e escancara-as diante dos olhos do mundo. O que é “Menina Chupando Cana” senão uma “negrinha” da vida.

      Não sou isso tudo que você imagina. Também tenho as minhas falhas em relação às tantas “negrinhas” que encontro pela vida, mas tento me redimir mostrando-as ao mundo, pois cada um deve usar o dom que tem em prol da humanidade sofredora.

      As suas palavras:

      ““…a alma da criança é a mesma – na mendiga e na princesa.’. É uma bela frase, é verdadeira. No entanto a mesma alma não garante a mesma vida.” são cheias de verdade e sabedoria. Realmente apesar da mesma alma, imensamente díspar é a vida.

      Obrigada pelo seu carinho. Cada comentário seu é uma aula de humanismo.

      Abraços,

      Lu

      Responder
  6. Marcos Antonio M. Vidinha

    Lu
    O que dizer?!… Enquanto para você sobram palavras para escrever esse texto maravilhoso, humano e social, para mim, pobre dotado de poucos recursos literários, me faltam palavras para expressar a beleza e a importância desse seu texto. Quem sabe, ele não alcança corações endurecidos pela discriminação e pela maldade, transformando pessoas? As palavras têm esse poder!…de transformar, de amolecer corações!

    Embora esse cenário possa ser do passado, infelizmente ele ainda é bem presente nos dias atuais. Não sei quantos séculos ainda serão necessários para que o ser humano entenda que a maior unidade que temos em comum é a nossa alma, e que a diversidade dos nossos corpos, das nossas preferências, das nossas crenças, das nossas condições sociais são motivos de beleza de nossa espécie e não motivos de separação, de discriminação, de ódio, ou de qualquer outro aspecto negativo de nossas personalidades. Enfim…quem sou eu, para julgar ou mudar o mundo?…Que cada um possa viver a sua vida de acordo com a sua consciência…

    “A menina negrinha morre (na Terra) e no seu delírio é levada para o céu…”, mas…como só acredito na justiça divina… lá será recebida como rainha.

    Lu, que Deus te abençoe e te inspire, cada vez mais, na tua missão de levar através do seu blog, arte, cultura e humanidade a todos nós.
    Fique com Deus.

    Abraços
    Marcos Vidinha

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Marcos

      Às vezes lemos algo que nos toca profundamente. E foi isso que me aconteceu ao ler o conto de Monteiro Lobato. Imediatamente pus-me a escrever o poema, totalmente tomada pela emoção, lembrando-me das inúmeras “negrinhas” que encontrei e continuo encontrando pela vida, vítimas do preconceito humano.

      Fico feliz que tenha tocado o seu coração, e, possivelmente, o de muitas outras pessoas, mas duvido que seja capaz de tirar o cadeado dos corações preconceituosos e frios. Mas, como a vida dá muitas voltas, o sofrimento é responsável por fazer muitas mudanças naqueles que pensam ter poder de dividir o mundo a bel-prazer.

      Creio eu, que somente a educação será capaz de dar fim ao sofrimento das “negrinhas” da vida. Somente ela é capaz de igualar e trazer respeito.

      Agradeço suas gentis palavras e digo-lhe que, enquanto manuseio as palavras com certa facilidade, você maneja a imagem com maestria.

      Grande abraço,

      Lu

      Responder

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