O ANJO DA MORTE E O CAVALEIRO

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Autoria de LuDiasBH

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As Potestades do Mal concluíram que o momento era-lhes benéfico para uma definitiva colheita. Então, resolveram agir. Procuraram a suprema Deidade do Bem e lhe expuseram os fatos:

– A violência devassa os quatro cantos da Terra. O homem negligencia as necessidades de seu coração, assim como as carências dos outros seres com os quais divide o planeta. Há muito jogou por terra o senso de reciprocidade. Suas forças deram lugar às suas fraquezas e faz mau uso do livre arbítrio. Desenvolveu uma grande capacidade para a destruição, o ódio, o ressentimento e a avareza. Exerce com prazer a inveja, a indiferença, a arrogância e a maldade. Sua evolução espiritual foi bruscamente interrompida, sendo vista apenas como atributo dos inatingíveis santos, moradores das esferas celestes, de modo que a luz do mundo esvaece rapidamente. A humanidade caminha a passos largos para as trevas, numa cumplicidade absoluta com o mal. Faz-se necessário exterminar esta raça vil. É nosso dever agir com rapidez. Tais almas pertencem a nós, por direito.

A Deidade do Bem compreendia a veracidade daquelas palavras, pois, as principais ameaças à sobrevivência do homem não provinham da natureza externa, mas de sua própria natureza humana. E pior, o seu descaso, hostilidade, egoísmo, orgulho e ignorância deliberada estavam pondo todas as outras espécies em perigo. Assim sentenciou a suprema Deidade do Bem:

– Nós, responsáveis pelo bem, temos plena ciência de que os fatos apresentados por vós são verdadeiros. A deificação do mal é evidente nos quatro cantos do planeta. O homem não tem a quem responsabilizar por seus infortúnios senão a si mesmo. Ele é a fonte de todos os seus males, mesmo quando, por vaidade, acusa a própria sorte. Mesmo assim, condoemo-nos por esta tola e mísera humanidade. Portanto, eu vos proponho uma negociação. Mandai um de vossos mensageiros à Terra para testar a bondade do primeiro varão que encontrar em seu caminho. Se houver uma fagulha de bondade em seu coração, haverá uma segunda chance para a espécie humana. Mas, se apenas o mal nele estiver solidificado, apressai-vos em fazer a colheita.

O Anjo da Morte foi o mensageiro escolhido. Ao chegar a seu destino, postou-se camufladamente atrás de uma árvore, à beira da estrada, esperando sua vítima. E ali ficou, até que uma camponesa, tangendo um pequeno rebanho de cabras, atravessou a estrada. Com um osso retirado de uma de suas pernas, o anjo espantou os animais que saíram em debandada e se atracou à pobre rapariga, que lutava desesperadamente para se libertar daquele feixe de ossos.

Não custou muito e um cavaleiro surgiu na curva do caminho. O Anjo da Morte imaginou que ele fosse passar indiferente, desprovido de qualquer compaixão pela moça. O que não aconteceu. O varão dirigiu-se ao anjo tenebroso e lhe pediu clemência pela donzela:

– Ó vós, que vindes de outras esferas, compadecei-vos desta pobre criatura que mal chegou à maturidade.

O Anjo da Morte questionou indignado:

– Por que te detiveste no caminho, homem tolo, se nada tens a ver com o acontecimento? Por acaso, sabes a diferença entre bem e mal? Como humano que tu és, não passas de um vil pecador. Todas as vicissitudes da tua espécie são uma consequência natural de seu próprio proceder: imprevidência, orgulho, ambição e tola vaidade. Sofômana, presunçosa e leviana, a espécie humana julga saber tudo aquilo que desconhece; sistemática, toma como verdades suas próprias ideias e se posta como irrepreensível, jogando por terra a prudência e o bom senso. Portanto, aconselho-te a seguir em frente.

O cavaleiro humildemente respondeu:

– Digo a vós que o conhecimento do bem e do mal constitui a parte mais íntima da alma. A linha que separa um do outro é muito tênue, mas atravessa o coração de todo homem, que há de conhecer o mal e o bem, de modo a evitar um, e a reforçar o outro. Ambos estão interligados entre si, assim como todas as coisas do planeta, sejam elas animadas ou inanimadas. Quanto a ser pecador, vós estais coberto de razão, pois o pecado faz parte de nossa humanidade. Somos seduzidos por suas falsas promessas e engodos. As decepções, os desencantos e o desespero são o nosso maior castigo, por nos deixarmos transviar pelo mal. E eu vos digo que não pode haver castigo maior. Quisera eu ser uma árvore, um bicho, uma pedra a ter que enfrentar a minha condição humana, feita de dubiedades. Embora faça parte de uma minoria, ainda luto tenazmente, para vencer a batalha contra a malignidade presente em mim. Talvez eu seja um visionário, mas sonho com o dia, em que todos os homens unir-se-ão para combater todos os vícios a que estão sujeitos, em favor de um mundo mais humano, em que respeitem a si mesmos e a todas as formas de vida, por mais insignificantes que possam parecer.

Enquanto ouvia as palavras do varão, o Anjo da Morte foi soltando de suas mãos esqueléticas o corpo da camponesa, que foi alçado pelo bravo moço e colocado na parte traseira de seu cavalo. As pessoas que vieram a seguir, passando por aquela mesma estrada, juraram ter visto, ainda, a bocarra de tal anjo segurando, entre os dentes, a barra do vestido da rapariga. A seguir, foi tragado por um raio e desapareceu.

E, mais uma vez, a humanidade foi salva pelo amor solidário.

Nota: O Cavaleiro, a Mulher e a Morte – c. 1501, Hans Baldung

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