O BARRO DE SÁ QUELEMENÇA

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Autoria de LuDiasBH

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Hoje eu acordei nas asas do tempo, e fui parar lá, onde a vista não alcança, mas o coração nunca perde o rumo. Este danadinho, de braços dados com as lembranças, finca suas cordas no mundo e sai desembestado, atravessando pontes e porteiras. E não há quem o engrife num arrocho.

Sá Quelemença Vasieira era uma mulher pequenina de pele escura e cabelos crespos, enrodilhados num sempiterno coque nem um pouco meticuloso e bem parecido com um ninho de xexéu. O que lhe faltava no tamanho, sobrava-lhe na voz parruda, capaz de ser ouvida a duas léguas de distância. Bem, não devia ser apercebida tão longe assim, mas é como os pensamentos da mulher traduzem as lembranças da menina.

A rapidez com que a nossa artesã, responsável pelos mais bonitos pratos, potes, panelas, tigelas e outras peças de barro, lidava com o caulino, era para nós, crianças, um encantamento só. Suas vasilhas eram afamadas em toda a região. Não havia uma só casinhota, que não tivesse um pote de Sá Quelemença Vasieira, aboletado numa isidora.

A nossa artista estabelecia-se na Rua do Pilão Sem Tampa, na rabeira da cidadezinha, já virando para a Rua do Vai-quem-quer, onde moravam as mulheres de vida livre. Mulheres essas que nos impediam de visitar Sá Quelemença Vasieira, tamanha era a má reputação de que gozavam tão libertárias damas, diante do julgamento de nossos pais. Portanto, a nossa presença no seu rude ateliê, não passava de escapadelas sorrateiras e bem intencionadas. Queríamos aprender a arte do ofício.

De uma feita, Sá Quelemença Vasieira havia tomado umas jurubitas e se encontrava naquela modorra própria dos espíritos desencalmados que nunca se preocupam com o dia de amanhã, pois o hoje já lhes é o bastante. Eis que adentraram pela casinhola um bando de crianças curiosas, ávidas por novidades. O sol estava rachando. No terreiro, um monte de vasilhas secava sob um calor intenso. Inconsequentes, como são todos os filhos da infância, nós corríamos entre potes, panelas e vasos, numa risadagem só, sem ninguém para nos deter. Uma de nós errou o passo, e a outra caiu em cima num efeito dominó, resultando em vários tombos e num monte de cacos de barro espalhados pelo quintal. O espatifar dos objetos acabou acordando a grande mestra artesã. E foi aí, nessa tribulação, que a porca torceu o rabo.

Sá Quelemença Vasieira, aniquilada com a nossa malfeitoria, assegurou-nos de que levaria a conta de nossa danação para nossos “responsave”, apesar da amizade que nos congregava. Iria fazer aquilo pro nosso bem, “pra mode” a gente aprender a labutar com as coisas dos outros e ser bem “inducado”. E arrematou:

– Se fosse numa loja de “vrido”, seus pais nem “tinha” dinheiro pra pagar o tamanho do estropício.

Amedrontadas, as cinco anjinhas passaram a fazer à artesã várias promessas que ela, na sua sabedoria empírica, tinha a certeza de que jamais seriam cumpridas. Mas apiedada com nossas lágrimas e com o castigo que receberíamos, incluindo aí umas boas lambadas, ela mesma deu o veredito: teríamos que ajudá-la a amassar o barro, para repor os objetos quebrados. De modo que, sem mais delongas, fomos tirando o uniforme e, de calcinha apenas, caímos no barro, ou melhor, na farra.

Mas que gostosura! A gente escorregava aqui, caía acolá, levantava, cambava, lambuzava e ria… ria sem parar. Alegrada com a laúza, Sá Quelemença Vasieira também entrou na fuzarca. Só que ela era bem mucuda e não tombava nunca. Só nos empurrava e dava gargalhadas. Depois de um bom tempo no amassa-amassa, fomos tomar banho da cabeça aos pés no riacho que passava no fundo do quintal da artífice do barro. E, para arrematar, nossa mestra ainda nos deu um gole de engasga-gato para nos livrar da friagem do barro, para evitar “pilumunia”. Esse foi um dos melhores dias de minha vida.

Quanto eu não daria hoje, para de novo amassar barro no quintal de Sá Quelemença Vasieira

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