O BENZIMENTO DE SÁ JOVENA

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Autoria de LuDiasBH

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Sá Jovena é uma das muitas figuras a povoar as lembranças de minha infância. Era uma espécie de autoridade principal do lugarejo e ficava abaixo, apenas, do auxiliar de farmácia e do padre, quando por lá aparecia. Era benzedeira, rezadeira, curandeira, parteira e depositária das ladainhas dos mal-amados, de modo que sua pequena morada mais parecia o Oráculo de Delfos, com as pessoas se amontoando nos três bancos de madeira que ficavam na entrada de terra batida, com uns pés de hibisco em volta.

Aquela sibila jamais cobrou pelos serviços prestados, embora as pessoas nunca chegassem de mãos vazias: biscoito, legumes, galinha, fumo, pinga, ovos, roupas e tudo o mais que se pudesse doar, menos dinheiro, coisa que ela se recusava a receber. Alguns havia que até presenteavam a maga com revistas ou livrinhos de orações, que ela ficava virando página por página, sem entender uma palavra, pois era analfa.

Para nós, crianças criadas a anos-luz da tecnologia, Sá Jovena era a pitonisa de nosso mundinho insignificante. Tinha na palma da mão o destino de cada um dos seres viventes daquela cidadezinha. Diziam até que São Jorge e N.S. Aparecida falavam com ela toda noite, e que vivia rodeada por uma legião de anjos do bem.

Normalmente, nas famílias do lugar, a meninada abaixo dos doze anos tinha que receber o benzimento contra mau-olhado ou olho gordo, pelo menos uma vez por mês. Só não sabíamos de quem, pois o olho mais gordo que conhecíamos era o do primo Gélson, de quem minha tia sempre falava que “tinha o olho maior do que a barriga”.

Sá Jovena, durante a benzeção, botava cerca de seis a sete crianças juntas, molhava os ramos de arruda com a água benta que ela derramava numa pequena bacia de alumínio, e espargia nas nossas cabeças. Os mais espertinhos abaixavam-se ou se escondiam atrás dos outros, de modo que recebiam menos respingos, enquanto ouviam as imprecações da douta mulher, sob as risadas do grupo.

Até hoje, nunca entendi o porquê de as crianças rirem de tudo. E nós não fugíamos á regra, com nosso riso solto. Havia vezes, de acordo com o elenco reunido, que tínhamos que manter os olhos fechados durante o ritual, para que um não visse o outro e desandássemos num “fogo de guinchos”, de modo a aperrear a ilustre sibila.

Certo dia, Sá Jovena foi presenteada com quatro frangos bem encorpados.  As aves foram colocadas na cozinha, bem longe do reboliço, enquanto na sala os anjinhos-de-pau-oco recebiam a bendição contra quebranto. Mas eis que alguém deixou a portinhola da cozinha aberta e Ofrázio, o cachorro, entrou colocando as penosas em debandada. Acuadas, elas saltaram sobre nossas cabeças e, em meio ao bafafá, benzeram-nos com alguns respingos de cocô, enquanto Ofrázio latia e Sá Jovena, a piedosa, vociferava:

– Vamos lá, molecada, não deixem esses bichos fugir. Pega elas, seus molengas! Saia da frente Ofrázio, filho do capeta! Bicho desgraçado, gente!

Moral da história: nunca mais pudemos ser bentos, pois mal Sá Jovena sacudia os ramos de arruda, assentávamos no chão de terra batida e rolávamos de tanto rir. E foi assim que deixamos de frequentar o Oráculo de Delfos, apesar das chineladas ganhas de nossos pais insatisfeitos com o nosso procedimento.

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