Fábula – O CÃO E SEU REFLEXO

Recontada por LuDiasBH

idade12

Um cão, que levava na boca um suculento pedaço de carne, ao cruzar uma ponte sobre um riacho, deparou-se, repentinamente, com sua imagem refletida na água. Incapaz de reconhecer seu próprio reflexo, logo imaginou tratar-se de outro cachorro com um pedaço de carne bem maior do que aquele que ele carregava. Guloso e ávido pelo que julgava pertencer ao outro animal, jogou o pedaço que carregava no rio e, ferozmente, lançou-se sobre sua imagem refletida na água.

Molhado e sem graça, depois de quase morrer afogado, acabou por perder o alimento real que transportava,  em razão de sua glutonaria e tola ignorância.

Reflexão
Assim como o cão, muitas pessoas passam pela vida tentando abocanhar tudo que possa engrandecê-las diante de outros homens, sem pensar na efemeridade da existência. Jamais se contentam com o que possuem e, portanto, estão sempre de olho no que pertence aos outros. Não há limite para a voracidade de seus desejos. O filósofo Nietzsche ensina que “Apenas devia ser possuidor de riqueza quem tem espírito: não sendo assim, a fortuna é um perigo público.”

O comportamento dos coronéis sem divisa, que obrigam os pequenos posseiros a lhes entregar, pela força das armas e das ameaças, seus pequenos lotes de terra, que se avizinham com as terras dos ditos, ainda é uma questão séria no país. Tudo com a finalidade de ampliar o império e o poder desses sacripantas que, ilusoriamente, acham-se eternos. Os coronéis de hoje são bem mais sagazes do que os de outrora, ao fazerem uso de testas de ferro. Muito são políticos, eleitos com a finalidade de proteger sua gente, a mesma que rouba e despreza. Também encontram-se nas grandes cidades, desapropriando casas humildes para transformá-las em arranha-céus, escorraçando os pequenos para as periferias, ou estocando alimentos para fazê-los subir no mercado e os expor no comércio, quando o preço estiver alto.

Como o tolo cão, essas pessoas, que buscam o maior bocado das riquezas do país (onde apenas 10% são donos de 90% das riquezas) brigando por posições elevadas dentro da sociedade, insaciáveis no “ter”, guiadas pela ilusão da eternidade, somente a visão da morte poderá alertá-las quanto à inutilidade de tamanho ajuntamento. Tolas, não percebem que ninguém é dono de nada, e, que tudo não passa de um empréstimo. A existência nada mais é do que o fluente rio, onde o cão, ilusoriamente, viu a sua própria imagem e tentou abocanhar um maior pedaço. Ao final, foi-se seu quinhão, depois de quase perder a vida.

Nota: Imagem copiada de http://sitededicas.ne10.uol.com.br

4 comentários sobre “Fábula – O CÃO E SEU REFLEXO

  1. Pedro Rui

    Realmente a ganância é tão grande, que eles por dinheiro e poder são capazes de matar. Como tu dizes, tudo o que temos é por empréstimo, mas esses sujeitos gananciosos não conseguem enxergar tal coisa, a ganância fá-los cegos.Tanto querem, que ficam com uma mão cheia de nada. Enquanto olharem para o umbigo, serão muito pobres de espírito.
    Abraços

    Rui

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Rui
      A ganância e a busca por poder são dois grandes males da humanidade.
      O ser humano, quando não dotado de caráter e humanidade, faz tudo para ser “grande”.
      E, como bem diz você, acaba, no final da vida, com as mãos vazias.

      Abraços,

      Lu

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  2. Edward Chaddad

    LuDias

    A fábula traz sempre um grande ensinamento.
    Lá nos tempos de minha adolescência e inclusive juventude, tinha o hábito de ler fábulas, máxime estimulado pelos meus professores. Hoje, ao que parece, o hábito passou para smartphone, totalmente sem sentido, para o facebook ou twiter, tudo na base de conversa mole para boi dormir. Não há, infelizmente, espaço para refletir e pensar, ilustrar-se, melhorar a sabedoria e o conhecimento. Sei que a fábula, desde os gregos e orientais, foi uma mestra maravilhosa, que nos traz todas essas operações mentais que mencionei.

    No caso, a fábula focaliza a ilusão. Não podemos confundir nossos sonhos factíveis, possíveis, que, ao persegui-los, estamos determinados a atingir nosso potencial com a ilusão. Vi muitos que ninguém dava nada até se tornar extraordinários profissionais. Isto porque lutaram e tiveram um grande sonho, mas não viveram só de ilusão. Para isto tiveram a determinação incansável para atingir seus objetivos.

    Alguém me disse um belo dia que “somos o que desejamos ser”. Acho que isto não é totalmente possível, mas podemos ser muito melhores. Não podemos, como o cão da fábula, buscar um sonho impossível e irreal, que não tem fundamento. É importante entendermos quando tudo não passa de uma ilusão, como nos mostra esta maravilhosa fábula – em seu sempre admirável texto.

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Ed

      Você deixou bem clara a diferença entre sonhos e ilusão.
      Sonhar é necessário, sempre.
      Não me refiro ao sonho que se processa durante o sono.
      Foi através dos sonhos que muitas descobertas foram feitas.
      O perigo está na tola ilusão, nos castelos feitos na areia.

      Você diz com muita propriedade:

      “Alguém me disse um belo dia que ‘somos o que desejamos ser’. Acho que isto não é totalmente possível, mas podemos ser muito melhores.”

      Também acredito nos limites que nos são impostos… mas podemos ser melhores… de verdade.

      Abraços,

      Lu

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