O ZUMBI E A CARTOMANTE

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Autoria de LuDiasBH

cartom

Valdir de Sá Firmina era um dos moços mais bem cotados da cidadinha de São João da Boa Sorte, quer fosse pela belezura de suas feições quer pelos seus modos distintos no tratar as gentes, não diferenciando ricos de pobres e tolos de letrados. Dos mais velhos às crianças de colo, todos tinham afeiçoamento pelo rapaz. Sua fama era tamanha que a cartomante do lugar, dona Eufrosina Borbagato, dizia aos quatro ventos que o destino ainda iria fazer dele um homem proeminente. Mas nem o tal prognóstico mudava o comportamento de Valdir, que não carregava nenhuma afetação. Estava muito satisfeito com seu ofício de escrevente da pequena delegacia, onde atuavam um cabo e três soldados. Assim que algum vagabundo era preso, após lavrar a ocorrência, o escrevente chamava o meliante no aconselhamento, muitas vezes levando o indivíduo às lágrimas e a prometer que nunca mais voltaria a fazer isso ou aquilo.

Aquele era um dia de muito calor em São João da Boa Sorte, com o sol andando esbaforido no alto do céu. Os bichos, deitados na sombra, só abanavam o rabo vez ou outra. Nenhuma vivalma ousava passar debaixo daquela bacia emborcada de quentura. A delegacia estava com porta e janela escancaradas e Valdir de Sá Firmina ali, sentado à sua mesinha, tiquetaqueando na sua velha Olivetti. O cabo Genivaldo dormia um sono solto no quartinho do fundo. Os três soldados deviam estar descansando numa sombra. A quentura trazia um silêncio inquietante no pensar de dona Eufrosina Borbagato, a cartomante. Mal começara a jogar suas cartas para entreluzir sua agoniação, uma notícia transpassou o coração de São João da Boa Sorte: Valdir de Sá Firmina fora encontrado morto sobre sua máquina de escrever.

Nenhum boassortense jamais veria uma comoção como aquela. Todas as gentes, até mesmo as acamadas, foram à pracinha da delegacia, condoídas com o passamento de tão bom rapaz. Os suspiros de dor tomaram corpo, e chegaram até aos animais e às árvores da cidade. Os animais passaram a gemer e elas tombaram e murcharam suas folhas, como se estivessem desalentadas. O vento zunia de uma forma malincônica, coisa de doer o coração de qualquer vivente. São João da Boa Sorte podia ser chamada agora de São João da Tristeza.

O enterro foi marcado para a manhã do dia seguinte. Tirando as crianças de colo e os idosos, ninguém mais dormiu naquela noite. Como podia uma coisa daquela acontecer com um moço tão bom? Com certeza o Criador estava com falta de pessoas benfazejas no Céu. Mas dona Eufrosina Borbagato não havia falado que no futuro ele iria ser uma pessoa muito importante? Doido varrido é quem acredita em conversa de cartomante, que na verdade deveria ser “cartomente”. Mas era bom deixar a disquisição e o palavrório e rezar pela alma de Valdir, coisa que, a bem da verdade, não se fazia necessária, pois o moço já devia estar ao lado de São Pedro, assim que exalara o último suspiro. Se era um anjo na Terra, no Céu já deveria ter recebido a patente de santo.

O enterro mais parecia a procissão de Senhor Morto, no modo de dizer, de tão silenciosa, sendo seguida até pelos cachorros da cidade. Um vento forte começou a bulir com as pessoas arrancando-lhes os chapéus e os véus. O céu mudou-se de uma hora para a outra. Dona Isidra resmungou baixinho dizendo que “com o perdão da comparação, fora daquele jeito o dia em que Jesus morrera no Horto das Oliveiras”. Já dentro do cemitério, grossos pingos de chuva caíram. O vigário, no seu sermão, disse que até a natureza chorava a falta de Valdir de Sá Firmina. Alguém jogou um véu sobre o caixão, para não molhar o morto.

Mesmo em meio ao barulho da chuva repicando forte, foi possível ouvir um grito e um ranger de unhas, vindos de dentro do esquife. Silêncio geral. Quando o caixão mexeu, foi o sinal para que todos botassem o pé no mundo. O vigário e o cabo Genivaldo foram os primeiros a caírem na capoeira. Só se viam sapatos e chinelos perdidos em direção à saída do cemitério. Somente dona Eufrosina Borbagato não correu. Ela foi até o esquife, abriu-o e deu a mão ao rapaz para que ele se levantasse. Ainda meio atoleimado, Valdir de Sá Firmina não tinha a menor noção do que lhe acontecia. E assim, saiu conduzido pela cartomante, vestido um camisolão marrom, amarrado com o cordão de São Francisco, para sua casa. Sua mãe ao vê-lo, saiu esbaforida porta afora, o que fez com que a cartomante levasse o “santo morto-vivo” para sua própria casa e dele tomasse conta.

Infelizmente, tudo não terminou aí. As gentes presentes ao enterro não queriam voltar para o povoado com a presença de um cazumbi ali, pois, segundo os apedeutos e crendeiros, ele voltara para buscar companheiros para a viagem ao mundo do além. Ninguém mais se lembrava do comprazimento do rapaz. Foi necessário que doutor Honestino Barbosa, médico de Arançandi, fosse até ao povoado para explicar que o rapaz tivera um ataque de catalepsia. Ainda assim, ninguém mais quis saber daquele que passaram a chamar de “Cazumbi Cataléptico”, que acabou se mudando para o estrangeiro com a belezura de suas feições e seus modos distintos no tratar as pessoas.

Dez anos depois, um moço bem apessoado, desceu de helicóptero em São João da Boa Sorte. Viera como enviado da Nasa a seu país de origem, e ali fora fazer uma visita a sua amiga Eufrosina Borbagato.

Nota: imagem copiada de videntesonline.org

6 comentários sobre “O ZUMBI E A CARTOMANTE

  1. Patricia

    Lu,
    muito bom. Fiquei com dó do rapaz bem abençoado duas vezes: primeiro quando morreu e depois ao saber que tinha sofrido um ataque de catalepsia. Nos finalmente tanto a cartomente quanto Valdir se deram muuuito bem.

    Beijos

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Pat

      Dá para se ver como a espécie humana é inconstante.
      O moço era muito querido na cidade e era amável com todos.
      Bastou um contratempo, para as pessoas mudassem em relação a ela.

      É um retrato da realidade: você pode fazer o bem milhares de vezes, mas se uma única vez não sai como o esperado, é então colocada de escanteio.

      Daí, o meu apego aos animais “ditos” irracionais.

      Beijos,

      Lu

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  2. Arlene de Lucena Ferraz

    Então Lu, cartomante ou cartomente? E desta vez ela acertou, pois o moço voltou bem apessoado mostrando valor. Mas muito interessante é toda a história com gosto de tragédia cômica.
    Abraços!

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Leninha

      Você viu como a espécie humana muda de direção com facilidade e como as crendices ditam o modo de agir de muita gente..
      O mesmo moço que era amado por todos, virou depois motivo de dispersão.
      Vá lá confiar na humanidade… risos.

      Abraços,

      Lu

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