O CEGUINHO E N. SRa. APARECIDA

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Autoria de LuDiasBH

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Ai daquele que faz pouco das promessas feitas, como se estivesse tratando com crianças, a quem é possível ludibriar com um pirulito ou um brinquedinho à-toa. Uma promessa é um vínculo selado com todas as forças poderosas que existem entre o céu e a Terra, ficando sujeita à aprovação do bem ou ao castigo do mal. Quebrá-la é escrever o nome no livro dos grandes mistérios, desconhecido pelas gentes deste mundo, e ficar esperando os desarranjos do destino, que chega mais cedo ou mais tarde, sem dó ou piedade.

O que conto a seguir é um fato ocorrido no Vale do Jequitinhonha, região sofrida, cheia de encantamentos e mistérios. Não sei se o leitor já reparou como as grandes forças do imponderável escolhem mais as pessoas simples e as regiões mais isoladas para se materializarem. Dificilmente designam as grandes cidades para se corporificarem. Penso que a alta tecnologia, encontrada nesses lugares, impede, muitas vezes, que elas atuem com a presença física. Não que os habitantes citadinos estejam imunes aos castigos ou às benesses das promessas. De maneira alguma. Apenas não veem o mentor desses.

Peço ao leitor que me permita omitir o nome do lugarejo onde se deu o acontecido, pois em nada altera o fato. Além de não permitir que levas de esmiuçadores para ali sigam, perturbando a existência daquela gente simples e trabalhadora. Como diz meu sogro, na sabedoria de seus 97 anos, testemunha de muitas ocorrências sobrenaturais: pode-se contar o pecado, mas sem jamais se referir ao nome do pecador, pois somente ele tem contas a prestar ao Onisciente, Onipresente e Onipotente. E assim farei.

Não há vivalma que não conheça o Ceguinho, no Vale do Jequitinhonha. Sua fama já atravessou todas as fronteiras terrenas e aquáticas daquela região. Sua graça está na boca de adultos e crianças. Alguns dizem que à sua passagem até os bichos sussurram seu nome. E alguns outros ainda completam dizendo que nas noites de trovoadas e relâmpagos, tão comuns à região, é possível ver seu nome escrito no céu ou retumbando pelos ares. E, pelos prodígios testemunhados, eu creio piamente em tais ditos.

Sebastiana de Zé do Açougue, mulher conhecida pela força com que carregava a metade de um porco massudo nas costas e pelo olhar de cão em alerta no peso da balança, para que nenhum grama ficasse com a casa e tampouco fosse parar na sacola do cliente, adoecera da noite para o dia. Mal conseguia levantar aqueles olhos esfogueteados para as comadres que a visitavam no quarto do casal, cheirando a sebo de boi. Alguns, revoltados com a imolação de Pé-Quente, um porquinho serelepe que andava por todo o povoado e que, de uma feita, riscou com o casco na areia o número 11, número esse que foi usado por muitos moradores no jogo do bicho e, que por “bestunta” (acaso) ou sabedoria do bichinho, deu burro na cabeça, diziam que ela fora amaldiçoada pelo deus dos animais, pela maldade com que furara a jugular do animalzinho. Não sei se há parecença entre a doença de Sebastiana de Zé do Açougue e a morte de Pé-Quente. O fato é que ela piorava a olhos vistos.

A doente foi levada, às pressas, num carro de boi para uma consulta com o Ceguinho, depois de duas horas e quarenta minutos e três segundos de viagem, horas essas reveladas pelo olho do sol. E logo após despejar no bucho um copo de beberagem feita pela mão do bom homem, Sebastiana de Zé do Açougue abriu suas butucas, deu uma sacudidura de braços e se pôs de pé. Nunca estivera tão acoroçoada e pronta para lavar barrigadas, encher linguiça e fazer chanfana, sarrabulho e sarapatel como então. Era preciso recompensar seu grande benfeitor. Poderia lhe dar um porco, um carneiro ou até mesmo uma vaca, tamanho era o beneficiamento. Ao ficar sabendo que o santo homem não comia carne de animal algum, como também não o conservava preso, pois, considerava todo e qualquer bicho como criação do Altíssimo, disse para si mesma que voltaria no dia seguinte com um presente.

A promessa foi cumprida por Sebastiana de Zé do Açougue com toda a vênia. Mal o sol encontrava-se na sua culminância, sem um fiapo de nuvem para lhe dar refresco, lá estava a mulher no biango do Ceguinho. Da sua ensebada bolsa de algodão cru ela tirou uma corrente grossa de ouro e a fez descansar nas mãos de seu salvador. Apalpando o ganho, o bom homem disse-lhe que ele não precisava de ouro, pois já estava muito feliz com o que lhe cabia neste mundo. Mas, que gostaria que ela o desse para a primeira mulher que encontrasse no seu caminho, seja ela quem fosse. Sebastiana de Zé do Açougue prometeu cumprir fielmente o pedido do santo homem.

A estrada estava desértica, talvez pela crueza do sol que massacra o Vale do Jequitinhonha em vários períodos do ano. Destarte a mulher do açougueiro andou muitos quilômetros a cavalo até encontrar uma mulher na estrada. A infeliz estava enrolada numa coberta esmolambada apesar da quentura do dia. Na cabeça, um trapo sujo mal cobria os cabelos que saíam espevitados pelos buracos. Os pés descalços não pareciam sentir o abrasado da terra. Nas costas, trazia um saco de linhagem cheio dessas coisas estranhas que ajuntam os loucos: papelão, papéis velhos, farrapos e embalagens de plástico. Tudo sem qualquer serventia para os sãos.

Ao se deparar com aquela abilolada, Sebastiana de Zé do Açougue não viu razão alguma para lhe botar nas mãos um cordão de ouro trançado, herança de sua bisavó portuguesa. Seria como jogar pérolas aos porcos. Assim, resolveu dar para a próxima mulher que encontrasse. Ai, como nós somos ingênuos nos nossos julgamentos! De modo que a ganhadora foi uma senhora que vinha a cavalo para uma cidade próxima.

 Mal chegou à casa, Sebastiana de Zé do Açougue começou a sentir todos os sintomas de antes. Arruinava a cada minuto. Nem conseguia balbuciar algumas palavras. De novo foi levada à presença do Ceguinho que tocou a sua cabeça e disse:

– Aquela primeira mulher que você encontrou no caminho, e que julgou ser uma demente, era na verdade Nossa Senhora Aparecida, pois os seres dos Céus tomam qualquer forma para testarem a bondade dos seres da Terra. A promessa não foi cumprida. Agora, nada mais posso fazer. Espero que a mãe de Jesus tenha piedade de sua desastrosa ação e perdoe o seu preconceito contra os miseráveis.

A mim não foi dado mais conhecer sobre a sorte de Sebastiana de Zé do Açougue com certeza plena. Algumas poucas pessoas dizem que ela ficou entrevada na cama durante muitos anos, até morrer. Mas a grande maioria diz que Nossa Senhora Aparecida apiedou-se dela e, desde que ela não matasse mais nenhum de seus bichinhos, ficaria curada, promessa que ela nunca quebrou nos seus longos dias de vida no Vale do Jequitinhonha.

Nota: Imagem copiada de http://blog.marciafernandes.com.br

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