O CENTAURO, A VIRGEM E A DAMA

Siga-nos nas Redes Socias:
FACEBOOK
Instagram

Autoria de LuDiasBH

cent 

Permita-me o leitor, chamar o personagem central de Justino, pois ele ainda se encontra presente no mundo dos vivos, e não serei eu a lhe recordar a sua desgraça, vivida há alguns decênios atrás. Como dizia o meu avô, quem tem brio, não carece de envergonhar os outros.

Justino não era aquilo que se pode chamar de homem letrado, mas era bom em tudo que fazia, além de muito pelejador e destemido. Servia a todos que dele precisassem sem jamais investigar o tamanho do adjutório. Suas posses não eram grandes, mas vivia consideravelmente bem com os pais e três irmãos. Sentia prazer pela vida e era de bom trato para com todos. Muitas famílias tinham-no como um bom partido para suas filhas, mas seu coração ainda era virgem nas coisas do amor. Nunca se apaixonara por mulher alguma, embora muitas donzelas suspirassem lânguidas à sua passagem. Sua maior paixão era a Virgem da Bondade, a quem entregava sua vida todos os dias.

Era noite de lua cheia e de tempo quente. Incomodado com o calor, Justino resolveu refrescar-se na cachoeira próxima à sua cidadezinha. Com uma toalha nas costas lá se foi assobiando uma velha canção. Contanto, ao chegar ao local, emudeceu-se, ao ver uma bela mulher deitada sobre uma pedra. Ao se recompor de tamanho sobressalto, sua mente encheu-se de indagações. Seria uma nova donzela que chegara à cidade ou a sereia das histórias de sua mãe? Quiçá fosse uma deusa caída do céu. Ele só tinha uma certeza: alguém com tamanha formosura jamais lhe faria mal algum, de modo que seu coração foi se aquietando.

A Dama da Noite tomou Justino pela mão e o conduziu ternamente por entre um milharal já com as espigas à vista. Ele sequer esboçou um gesto de resistência, embriagado pelo perfume e maciez de sua mão. Tampouco tinha noção do lugar para o qual se dirigiam. Repentinamente, os dois adentraram numa gruta, nunca antes vista por ele, que se bifurcou e um grande salão surgiu diante de seus olhos. Muitas pessoas seminuas ali se encontravam em posições estranhas. No Salão de Veludo Vermelho, nome que Justino dar-lhe-ia depois, havia homens e mulheres em partes iguais. Tudo respirava luxúria. Os olhos suplicavam por deleite e os sorrisos eram ofertas generosas de lascívia. As gargalhadas ressoavam ali e acolá cheias de desejos incontroláveis.

Um copo de vinho foi trazido ao moço. E depois outro e mais outro, até que ele perdeu a noção de sua real existência. Sentiu-se excitado e um vagalhão de volúpia e prazer foi tomando conta de seu corpo. Ele se aviltou e se juntou com agrado ao grupo. Caiu no frenesi da depravação, copulando com mulheres pálidas, cuja pele parecia feita de cera. Os maus instintos atingiram o ápice. E o bom senso nada mais era de que uma amolação imposta pelos tolos. Tudo era permitido naquele ritual de gozo extremado.

Dez minutos antes da meia-noite, os convivas da orgia retiraram-se, ficando apenas Justino no salão, ainda sôfrego por lubricidade. Voltaram assim que o relógio marcou as doze badaladas. Todos usavam máscaras e fantasias completas. A Dama da Noite retomou o seu companheiro e, entrelaçados, puseram-se a copular freneticamente. Incomodado pela máscara de sua acompanhante que lhe feria o rosto, Justino, excessivamente excitado, retirou-a bruscamente. Foi esse o seu terrível erro.

O rosto da Dama da Noite nada mais era do que um amontoado de ossos, com dois buracos no lugar dos olhos e um maior no centro, onde fora o nariz. Mesmo assim, daquele esqueleto expandia um desejo bestial, com o intuito de continuar o cabritismo. Justino sentiu seu coração em descompasso e o sangue fluir desordenado por todo o corpo. Tremendo de terror e nojo saiu em debandada milharal afora.

Ao chegar à casa, todos dormiam. Entrou furtivamente no banheiro para tentar limpar a sujeira do corpo e da alma. Somente ali foi capaz de perceber sua mudança. Fora transformado num centauro (combinação de homem e cavalo), para que abandonasse o convívio com os humanos e não contasse a ninguém o ocorrido. O moço saiu silenciosamente de casa e passou a viver em cavernas, escondendo-se dos homens. Mas, condoída com a sorte de seu devotado amigo, a Virgem da Bondade levou-o para o Monte Olimpo onde, com a ajuda de Zeus e Hera, trouxe a seu corpo a antiga forma e o fez retornar à Terra.

Embora, às vezes, pense que tenha tido um pesadelo, Justino sabe, dentro de seu coração, que tudo foi perfeitamente verdadeiro, quer pelo tempo que esteve fora da cidade e pelo fato de que sua toalha jamais fora encontrada. E mais devotado se tornou à Virgem da Bondade que o salvara.

Nota: Pala Atena e o Centauro/ 1482/ Sandro Botticelli

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *