O CORRIMENTO DE D. DALGINA

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Autoria de LuDiasBH

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Contou-me o compadre Devas, homem douto no uso das palavras, um acontecimento que o deixou avexado por muito tempo, uma vez que o presenciara em corpo e alma. Para sua notória pessoa, melhor seria que ali tivesse sido desfigurado, ou jarretado por um raio. Assim, não teria sido personagem de tão vexatório sucedimento.

O acontecido tomou forma lá pelas bandas do Vale do Mucuri. Eram tempos de eleições, quando a valentia das gentes desfrecha pelas ventas e os candidatos desagarram a trava da língua, cada um querendo ser mais tranchã do que o outro, na tenção de abocanhar o voto dos belisários eleitores.

Diodato Galo, o prefeito do lugar, já dobrando o Cabo da Boa Esperança, lutava com unhas e dentes para perseverar na mamata, apesar do labor “fadigoso” que era administrar a pequena Bertionópolis, como cacarejava aos quatro ventos. Mas a confrontação não estava para galo, já que o opositor, conhecido por Jacaré, ia aos poucos tomando a dianteira. E foi no acobardamento que Diodato Galo deliberou tirar Neco Mocinha e botar dona Dalgina Pinhé, mestra com muitos anos de ensinamento na região, para ser a vice-prefeita de sua chapa.

Para o lançamento da candidatura da nobre educadora, foi escolhido o município de maior densidade eleitoral: Oropa. Para o evento foi armado um palco na praça, com distribuição de pés-de-moleque, algodão doce, pirulitos, traques e balões para a meninada, que não votava, mas fazia muita latomia. Para os adultos, a branquinha e a farofa de bode corriam soltas. Onde coabitam comida, bebida e meninada, o reboliço fica com vergonha e pede licença para ir embora. A barafunda rolou solta até meia-noite quando o prefeito, Diodato Galo, em trajes de gala, aparelhado com dona Dalgina Pinhé, também em trajes de festa, sofraldou-se até o palco. De pança cheia e desmilinguidas pelo cansaço, as gentes foram-se aquietando. E, finalmente, começou a tão esperada palração do prefeito:

– Gente catita, lustrosa e arrebatante de Oropa, eu escolhi dona Dalgina Pinhé para vice-prefeita na minha chapa, porque quero homenagear a educação na pessoa desta altaneira e conspícua dama, que nunca teve antelação no adestramento das pessoas. E nunca se queixou do ministério e da fadiga que é labutar com gentes de tudo quanto é feitio. Todo mundo aqui já testemunhou dona Dalgina Pinhé na observância de seus deveres. Na sala de aula, ela é um exemplo de devotação no atendimento de seus escolásticos. Ela corre aqui e ensina um, corre ali e ensina outro, corre acolá e ensina mais outro. É um corrimento prazenteiro de se ver, para homem nenhum botar defeito. Esta mulher é uma pelejadora incansável, pois durante o dia está educando e à noite …

Foi nessa parte que o som escafedeu-se. O prefeito segurava o microfone com uma das mãos e ficava dando aqueles toques característicos no aparelho com a outra, esperando o retorno do som, enquanto continuava…

– … e à noite… e à noite … e à noite…

Um sujeito gritou lá do meio do comício, possivelmente alguém da oposição:

– E à noite ela dorme com o prefeito, apesar do corrimento!

O meu compadre Devas, o mesmo que me contou o causo, ficou enfuriado e acabou no palanque com um trabuco em punho, pensando que sua esposa andasse de sem-vergonhice com o prefeito. Aí foi um deus nos acuda, com uma correria por todos os lados, num salve-se quem puder.

O discurso deu fama a Diodato Galo e a sua vice Dalgina Pinhé, a dupla D+D. A vitória foi acachapante. Tudo acabou passando, menos a vexação de meu compadre Devas, pois, quando passa com a mulher na rua, ouve dos adversários:

– E aí, Dona Dalgina, como vai do corrimento?

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