O PATINHO FEIO E O PAI HOMOFÓBICO

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Autoria de LuDiasBH

patinho

Dona Patonilda fazia parte de uma família extremamente radical e conservadora. Seu marido Patolísio era membro da assembleia federal de Patolândia e, além de arrogante, era um homofóbico perigoso, capaz das maiores crueldades contra aqueles que não rezassem de acordo com a sua cartilha. A senhora pata, ao lado do dito, esperava com muitas pompas o nascimento de seus trigêmeos. Fora lhe reservado um apartamento especial na maternidade que já se encontrava cheio de flores e presentes diversos, pois quem de nada precisa é quem mais recebe dos bajuladores.

Chegando o momento tão esperado, rodeada de uma enorme equipe médica, dona Patonilda nem precisou fazer força para que dois meninos botassem os pezinhos no mundo, num berreiro capaz de competir com as britadeiras. Mas o terceiro serzinho ficou lá, escondido num cantinho do útero, sem querer deixar aquele lugar, onde se sentia tão seguro, como se vaticinasse a sorte futura. Uma enfermeira, adivinhando  a sorte do pequenino, sapecou:

– Será que este molequinho está com vergonha de enfrentar a vida aqui fora?

Alguns minutos depois, nasceu o patinho, numa feiura de fazer dó. Mas dona pata olhou com carinho para seu filhote, imaginando que, com o tempo, ele haveria de se transformar num belo pato e, como o pai, haveria de ajudar a mudar o destino de seu povo galináceo, principalmente quanto a certas “modernidades”, que o marido tanto lutava para erradicar. É fato que ele era amado por uma minoria de seus concidadãos, e odiado pela maioria absoluta, que o via como um radical, um retrógrado, um patológico caso de insanidade.

O patinho crescia diferente dos demais irmãos, que tinham a mesma intransigência e despotismo do pato pai. Excetuando a mãe, todos se importavam com a aparente feiura pequeno, mas odiavam, sobretudo, seus gestos delicados e seu temperamento amistoso e conciliador. Diziam eles que aquilo não era comportamento de macho, mas de fêmea oferecida. O pai, por isso, castigava-o diariamente, inclusive na vista de terceiros. Enquanto dona Patonilda chamava-o de Patinho Feio, o pai e os irmãos apelidaram-no de Patinho Boiola.

Por todos os lados da mansão que o Patinho Feio passava, só ouvia zombarias, pois seu pai se encarregara de tornar público a sua ojeriza pelo filho, levando seus amigos a zombarem dele, achando que assim mudaria seu comportamento. Até pensara em consumir com ele durante uma pescaria, sob a desculpa de que morrera afogado, mas como se dizia temente a Deus e um grande defensor da família, pegaria mal se fizesse aquilo. O que pensariam seus fiéis e radicais eleitores? E, além do mais, todos sabem que patos nadam muito bem. Veria o que poderia fazer no futuro, para que o filho não derrubasse sua plataforma eleitoral.

Não mais suportando tanto castigo e sarcasmo, o patinho resolveu abandonar a vida de luxo que levava sua família, com o dinheiro público, é bom que se diga, e partir para um lugar onde fosse amado e respeitado, apesar de que o desconhecido sempre o apavorara. Mas nada poderia ser pior do que a vida que ora levava. Iria para um país chamado Suécia, onde, segundo lhe disseram, as pessoas eram respeitadas, indiferentemente de serem isso ou aquilo. E assim, com a ajuda da mãe, rumou para lá, em busca de uma vida nova.

Na Suécia, o pato em questão, arranjou um emprego numa fábrica de tecidos, onde passava o dia criando estampas para novas padronagens, pois sua criatividade era sem limites. Embora não fosse ridicularizado por ninguém, sentia-se muito só naquele país estrangeiro. E foi assim que resolveu aproveitar o domingo para conhecer um dos parques de Estocolmo, onde um lago de águas azuis enfeitava a paisagem de grande beleza.

O Patinho Feio começou a observar outros patos que ali se encontravam e reparou que todos eles tinham os mesmos movimentos delicados que ele, e não sentiam nenhuma vergonha de serem assim. Ao contrário, mostravam-se muito alegres. Eram belos e majestosos, além de sorrirem muito, como se o mundo fosse para eles um paraíso.  Alguns patos rodearam-no e lhe disseram:

– Você é um dos nossos!

– Não, não sou! Eu sou um pato desengonçado e esquisito. Meu pai até me chamava de “boiola”, porque sentia vergonha de mim – retrucou o patinho.

– Nada disso! – respondeu um dos presentes no grupo – Seu pai é um homofóbico. Um ser grosseiro e rude, fora de seu tempo, assim como os que o aplaudem.

O patinho, com os olhos marejados, tentava sorrir, ouvindo as explicações dos novos amigos. Um deles complementou:

– Companheiro, nós somos diferentes, é verdade. Nossos movimentos são graciosos e nossa beleza e inteligência chamam a atenção, onde quer que estejamos. Nós somos cisnes!

O Patinho Feio mirou-se nas águas azuis do lago e concluiu que também era um cisne. E se pôs a imaginar como seu pai poderia ocupar um cargo tão alto no seu país, em pleno século XXI, desrespeitando as diferenças, enquanto no país que escolhera para viver, a igualdade estava exatamente no reconhecimento e respeito pelas diferenças, o que tornava todos iguais diante da vida.

O patinho-cisne partiu de mãos dadas com o seu novo amigo. Talvez começasse ali uma linda história de amor.

(*) Imagem copiada de depressaoepoesia.ning.com

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