O PERCUSSIONISTA NANÁ VASCONCELOS

Autoria de LuDiasBH

nana

Aperreei tanto batendo nas panelas e caçarolas de casa que meu pai me deu um bongô, umas maracas e um afoxé. (Naná Vasconcelos)

Fama é besteira. A fama só importa na cabeça de camarão (Naná Vasconcelos)

O pernambucano Naná Vasconcelos (1944-1916) foi eleito oito vezes o melhor percussionista do mundo e ganhador de oito “Grammy”. Seu nome verdadeiro era Juvenal de Holanda Vasconcelos, mas gostava de ser chamado pelo apelido que a mãe, dona Petronila, deu-lhe: Naná. Seu pai, Pierre, era tocador de manola, em Recife. E o filho, mesmo aos 11 anos de idade, já desejava ser percussionista (naquele tempo não se falava “percussionista”). Aos 12 anos, ele recebeu autorização do Juizado de Menores para tocar na banda, desde que obedecesse a condição de jamais descer do palco. Ao terminar o ginásio, Naná, um autodidata que nunca frequentou escolas de música, tocava boleros, mambos e chá chá chá para as pessoas dançarem nos bailes.

Ao perder seu pai, o músico entrou para a Banda Municipal de Recife, no lugar dele, onde trabalhava como arquivista e distribuía partituras para os músicos, mas o fato de não tocar incomodava-o. Para Naná, o ritmista vinha depois do baterista. Comprou então uma bateria à prestação, e deu início a seus ensaios nas suas horas vagas, sem professor, no camarim do teatro. A música a que tinha acesso era a que ouvia através do rádio, em sua casa, na emissora A Voz da América. O garoto, contudo, repassava para o samba aquilo que ouvia pelo rádio. No primeiro festival de bossa nova em Recife, Naná, com apenas 17 anos, foi aceito como baterista que sabia tocar e solar “Adriana” (canção de Roberto Menescal e Lula Freire). E acabou na conta de melhor baterista do ano.

Mais tarde, junto com três músicos, Naná formou o “Quarteto Yansã”, indo tentar a sorte em Portugal. Na cidade de Lisboa, ele se encontrou com o cantor Agostinho Santos, que se uniu ao grupo, pois também se encontrava em apuros. Fizeram muitos shows, tendo muito sucesso. Ao voltar ao Brasil, Naná procurou Capiba, dizendo-lhe que era o único capaz de tocar o maracatu que ele compusera, para apresentar Pernambuco no festival “O Brasil Canta no Rio”. E para lá partiu, levando apenas passagem de ida e volta. Ao se despedir da mãe, ela lhe disse, com os olhos molhados: “Você não volta mais. Deus o Abençoe!”.

No Rio de Janeiro, tornou-se amigo de Geraldo Azevedo e, com ele, foi até a casa de Milton Nascimento, sendo convidado a gravar com o mineiro (a pegada percussionista de “Sentinela” é dele). Depois de participar de alguns grupos de MPB, recebeu um convite para fazer shows em Buenos Aires, onde se aprimorou no berimbau. De lá, com Gato Barbieri, saxofonista argentino, foi para Nova York, onde morou um ano com o cineasta brasileiro Glauber Rocha, convivendo com os cineastas Bertolucci e Jean Luc Godard. Tocava no famoso Village Vanguard, onde era muito aplaudido. E assim, junto com Airton Moreira, que tocava com o trompetista Miles Daves, expandia o sucesso da percussão brasileira pelo mundo. Ao fazer uma turnê pela Europa, Naná ali resolveu permanecer, fixando residência em Paris, onde veio a gravar mais de 30 discos, além de muitas trilhas sonoras para cinema e balé. De Paris foi trabalhar em vários países, como Japão, Dinamarca, etc. Foi depois para os Estados Unidos.

Naná Vasconcelos viveu 5 anos em Paris e 27 nos Estados Unidos, mas terminou voltando para Recife, onde nos carnavais regia um grupo com mais de 500 batuqueiros, originários de diversas nações do maracatu. Possuía uma carreira vitoriosa, tendo ganho 8 “Grammy”, e recebido o apelido de “Fenômeno”. Fez parcerias com músicos famosos em diversas partes do planeta. O guitarrista Pet Metlieny chama-o de “Doctor”; o percussionista indiano Trilok Gurstú apelidou-o de “Paxá”; a revista Down Beat tinha-o com “o melhor percussionista do mundo”.

Naná Vasconcelos, o Doctor,  morreu hoje, 09/03/2016, aos 71 anos, deixando um grande vazio na música brasileira e também na internacional. Também foi um dos responsáveis pela trilha sonora da animação brasileira “O Menino e o Mundo”, que concorreu ao Oscar deste ano.

Fonte de pesquisa
Folha de São Paulo/ 12-05-2013

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