O SERTANEJO E A SECA

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Autoria de LuDiasBH

seca

Que vergonheira, meu bom Deus,
tanto pra mim e para vossa mercê,
mendigando uma cuia de comida,
pra poder matar a chibateira fome
neste meu agourento e cruel viver.

Eu, moço, com as mãos calejadas
de tanto trabalhar naquele roçado,
agora, forçado, estou cá na cidade,
lembrando que já fui bom homem,
dono de muita força e de muita fé.

Perto de mim, meus companheiros
de tão cainha e miseranda fortuna
erguendo cuia, tigela e lata na mão,
afilhados da mesmíssima desgraça,
camaradas do mesmíssimo sertão.

Meu pai, ao lado, velho e cansado,
estende vergonhoso sua lata, e coa
outra mão, tapa o rosto descarnado,
abastado de vergonha e desalento,
nesta vida ignara de tanta vexação.

Peço ao Deus, Pai dos miseráveis,
que tudo sabe, que tudo sente e vê,
que olhe pra nossos pés chagados,
pela terra urente tisnados, imolados,
na carência de uma alpercata, sequer.

De tudo que tinha sobrou a enxada,
a boa companheira de cada dia, meu
puído chapéu e a vestidura rasgada.
Todo o resto queimou-se na fogueira
do descaso dos donos deste Estado.

Deus, Senhor de tudo, tende piedade!
Será que nossa indigência é tamanha
que vossa mercê nem mesmo  vê?
Se demorar muito vai ficando difícil
de ter fé e de acreditar em Vosmicê.

Ficha técnica
Foto: Pierre Verger
Ano: 1950
Localização: Fundação Pierre Verger

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