OS DOIS MOLEQUES E SÃO BENEDITO

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Autoria de LuDiasBH

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São Benedito é, ao lado de São Judas Tadeu, um dos santos mais populares dentre os muitos que povoam afé católica no Brasil. Sua devoção foi trazida pelos portugueses. Conta uma das versões sobre sua origem que seus pais eram escravos, e que foram levados da Abissínia (atual Etiópia) para a Itália. Como era de se esperar, o santo em questão sofreu, desde pequeno, os preconceitos da cor. Em razão de sua pele negra chegou a ser chamado de “o mouro”. Trabalhou como pastor de rebanhos e, mais tarde, transformou-se em irmão franciscano. Apesar de analfabeto, o santo tornou-se superior do convento onde vivia. Ali, terno e sábio, dedicou um grande amor às pessoas, sendo sempre compreensivo com as faltas e fraquezas humanas e generoso para com os doentes e necessitados.

Levando em consideração a vida exemplar e dadivosa deste santo, não é de se estranhar que tenha sido eleito padroeiro em várias cidades do Brasil. Se político, figuraria como um dos mais votados senadores, numa comparação esdrúxula, pois homem que é santo não se mete em política. Feito o preâmbulo, penso que não muito longo, a ponto de enfastiar a cachola de quem me lê, vou agora contar um fato, que me trouxe até aqui e que, como já percebeu o leitor, traz o santo negro na história.

Na cidade de Ginkobiloba, nome falso, pois não vou submeter os habitantes de Maranta ao constrangimento das risadas do leitor, São Benedito era venerado por 2/3 da população local e dos arredores, de modo que o dia 31 de março era a data mais esperada e festiva do ano, pois nela se comemorava o dia do querido padroeiro, que tantas bênçãos trazia ao povo do lugar, livrando-o de muitas tribulações.

A cidade, uma semana antes, entrava num vai e vem sem fim nos preparativos para a festa, que era aberta com uma procissão em que seis homens circunspetos e impecavelmente paramentados conduziam o andor de São Benedito. Um grupo de devotas era responsável pela ornamentação do andor. Tudo começava com um banho de flor de Pseudranthemun atropeurpureum na estátua negra, que tinha o tamanho de um menino de sete anos, seguido de salpicos de Lavandula angustifólia. Depois vinham as vestes maravilhosamente decoradas com tudo que tivesse brilho.

Todavia, num certo dia de festa, uma das dedicadas mulheres, já com a vista curta e os óculos necessitando de mais alguns graus, tomou o santo como uma das crianças locais e o empurrou para que saísse do átrio da igreja, onde se processava o ritual divino. Nem é preciso que eu conte que a estátua caiu no chão, esfacelando-se em pedaços miúdos, para o horror e desespero das mulheres presentes. O que fazer se faltavam, apenas, cerca de duas horas para o início da cerimônia? Um milagre teria de acontecer a qualquer custo. Era hora de testar a generosidade do santo, diante de tamanha exasperação. E o milagre tomou corpo, atendendo aos rogos daquelas senhoras piedosas, como uma prova incontestável de que a fé remove montanhas.

Uma das mulheres, dona Alvina, professora de catecismo, que conhecia todas as crianças como a palma de sua mão, gritou maravilhada, por ser a portadora das boas e miraculosas novas que chegaram como um sopro a seus ouvidos:

– É só colocar o Rodinilson (vulgo Tiziu) no lugar!

O garoto foi comprado à custa de muita bala, chupe-chupe e pipa, sendo que para completar o escambo, ainda ganharia de brinde uma muda de roupa nova. Vestido como o santo e levando nos braços uma estatueta de cerâmica de um bebê, ficou muito parecido com a imagem que havia sido quebrada. Ninguém iria dá fé da troca. Mas teria que seguir certas regras ao longo da procissão, que de tanto faladas já soavam a ladainha:

  1. Deveria permanecer como uma estátua, sem se mexer, conversar ou rir.
  2. Os olhos deveriam estar sempre voltados para o alto, mesmo que chovesse canivetes.
  3. Era o santo e como santo deveria agir.

E começou a procissão! Rodinilson seguia impávido no seu papel de ator santo. Não havia nada em sua expressão que denotasse se tratar de um ser vivo. O milagre continuava acontecendo.  Mas lá pelo meio do cortejo, Justino, o Piupiu, seu companheiro de pelada na capoeira, cutuca sua genitora:

– Mãe, São Benedito está a cara de Tiziu!

Corta ela, em meio ao louvor:

– Deixa de besteira menino, onde já se viu Tiziu ser um santo. Ainda mais encapetado como ele é. Isso é pecado, viu? Cale a boca e reze, diacho de menino sem temor.

Mas Pipiu não se contentou com a resposta recebida e continuou quase quebrando o pescoço de tanto olhar para trás. Com a dúvida a fazer caraminholas em sua cachimônia, ele sentiu que era preciso tirar “os noves fora”, de modo a poder continuar concentrado na procissão. Então, pela vigésima vez, virou para trás (o andor seguia no meio da procissão), e gritou:

– Desce daí Tiziu, que ocê num é santo!

Rodinilson, que tinha horror ao apelido, que comparava suas pernas finas com as da avezinha, e que até ali viera na mais comovente beatitude cumprindo o combinado, jogou a criança de cerâmica num canto do andor, fez o gesto de “dar uma banana” e respondeu aos berros:

– Tiziu é a p. que te pariu, Piupiu!

Os devotos mais próximos ao andor, no meio da procissão, extasiados pela cantoria e orações, não tinham percebido o diálogo que se passara entre os dois moleques. Portanto, ao verem o santo falando tamanho palavrão, caíram em debandada, achando que o diabo havia entrado no “corpo” de São Benedito.  As gentes que iam bem à frente e as que iam bem mais atrás, também se puseram em correria, sem saber mesmo o que estava acontecendo. Enquanto isso, Tiziu e Piupiu, responsáveis pelo deus-nos- acuda, caíram no descampado.

O fato contado é verdadeiro e eu assino embaixo!

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